LOADING

Type to search

A amplitude da catástrofe: EUA e Rússia em disputa pelo Oriente Médio

Share

A expressão de Carl von ClausewitzSob a Névoa da Guerra” é o indicativo adequado para iniciar a reflexão da conjuntura que se constrói com a entrada da Rússia no conflito sírio. É um dado a mais na equação, que gera incertezas, decorrentes das inúmeras possibilidades de causa e efeito que esse forçado protagonismo russo pode gerar no desgastado modelo de ordem perpetrado desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

A constante tentativa de restabelecer o parâmetro bipolar, por meio de forçosas ações de Estados que outrora foram potências detentoras de grande influência, gera delimitada margem de manobra, em virtude de se buscar esse remanejamento que vem se dando através da projeção de poder militar e consequentemente do uso da força.

Uma parametrização entre Estados Unidos e Rússia como forças preponderantes do sistema internacional reavivam premissas de instabilidade que permearam grande parte do século passado. O momento crítico de contenciosos nas relações entre WashingtonMoscou, restabelecido com a guerra civil na Ucrânia, o qual foi acomodado em mútuo e doloroso impasse, é agravado agora com a disposição do Kremlim em aumentar sua presença militar na Síria, engajando esforços bélicos em uma direção que inicialmente converge com os interesses dos Estados Unidos e seus aliados europeus e sunitas moderados, membros do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã, Bahrein e Qatar).

No entanto, a definitiva entrada da Rússia no cenário de guerra do Oriente Médio, bombardeando posições e instalações do Estado Islâmico, bem como de insurgentes moderados, muitos dos quais financiados e treinados pela Central Intelligence Agency (CIA, na sigla em inglês), aumenta consideravelmente a probabilidade de um confronto entre Estados Unidos e Rússia, que já divergem faz tempos sobre a dinâmica da guerra civil. Nesse sentido, a interpretação russa para os fatos narrados há quatro anos está atrelada a ingerência internacional iniciada com a invasão ao Iraque, chegando até a Primavera Árabe. Já os Estados Unidos culpam o regime de Bashar alAssad por implementar autoritarismo e repressão durante os primeiros protestos em busca de transparência e democracia para o país.

Contudo, os entraves entre Obama e Putin são mais profundos e explicitam a complexidade e os desafios diplomáticos que estão por vir. A começar pelo papel do presidente Bashar alAssad. A dinastia síria, iniciada por seu pai Hafez, estabeleceu uma histórica cooperação DamascoMoscou e a Rússia não abrirá mão de considerar que parte da solução está na defesa da estrutura política atual. Os Estados Unidos, por sua vez, entendem que Assad é componente do problema.

O apoio militar entra como parte integrante dos entendimentos anteriores, ou seja, Putin ao ganhar aval do Parlamento, direciona o apoio exclusivamente às forças governamentais sírias, enquanto Obama apoia os opositores moderados ao Governo de Damasco, na tentativa de enfraquecer Assad, deixando-o pressionado a negociar.

As alianças regionais também são um contraponto importante e permitem um desequilíbrio macro em outras esferas da política internacional. Washington tem o apoio irrestrito da Arábia Saudita de maioria sunita, Moscou recorreu ao Irã, de maioria xiita, e ao Iraque para compartilhar informações de inteligência sobre o Estado Islâmico, ambos aliados do Governo Sírio.

Com o estabelecimento de modelos geopolíticos distintos, a disposição de cada governante está intimamente ligada ao investimento em capital político que Obama e Putin podem ofertar. No caso da Casa Branca, Obama sabe que um maior envolvimento na Guerra da Síria, com tropas em terra (“boots on the ground”), pode enfraquecê-lo internamente e complicar a candidatura do Partido Democrata para as eleições do ano seguinte (2016).

O líder russo, no entanto, goza de uma situação interna controlável, incorporando a imagem de líder capaz de devolver à Rússia o tão desejado protagonismo internacional reduzido após a queda da União Soviética. Para ter boa parte do apoio popular na campanha militar, ele usa como justificativa para suas ações o risco de ter, dentro de seu território, o regresso de nacionais e cidadãos de países periféricos do Cáucaso que desejam desestabilizar o país, por meio de ataques terroristas.

Ao chegar próximos de alguns limites, parte da comunidade de especialistas e observadores internacionais tornam céticas algumas previsões. A principal preocupação daqueles que pedem negociação entre Estados Unidos e Rússia é que, enquanto a atual relação é arruinada por graves divergências acerca de um relacionamento ao qual a Rússia se propôs, as hostilidades tendem a piorar e uma nova Guerra Fria pode surgir. A competição não seria tão abrangente como em outros tempos, entretanto, em questões vitais, incluindo Irã, Estado Islâmico (Islamic State of Iraq and alSham) e Síria haveria uma ordem internacional inerentemente mais instável.

Por fim, da barganha que se esperaria surgir nas negociações, a regulação da estrutura das relações internacionais e regionais é um objetivo que deveria ser alcançado, porém, para parte da comunidade internacionalista, o ceticismo domina devido a falta de negociação substantiva no atual contexto. Nesse sentido, a Rússia teria de convencer os Estados Unidos e seus aliados que não deseja uma revisão do status quo e os Estados Unidos teriam de demonstrar à Rússia que sua prerrogativa não inclui políticas que os ameacem.

————————————————————————————————

Imagem (Fonte):

https://si.wsj.net/public/resources/images/P1-BU990_UN2_P_20150928214230.jpg

————————————————————————————————

Fontes Consultadas:

Ver:

http://www.cfr.org/about/newsletters/archive/newsletter/n3195

Ver:

http://blogs.cfr.org/patrick/2015/09/28/united-nations-divided-world-obama-putin-and-world-order/

Ver:

http://foreignpolicy.com/2015/09/29/realists-beware-of-russians-making-deals-un-unga-united-nations-putin/

Ver:

http://foreignpolicy.com/2015/09/29/the-remarkable-similarity-of-putins-and-obamas-speeches-at-the-u-n/

Ver:

http://www.cfr.org/syria/risky-russian-moment-syria/p37087

Ver:

http://carnegieeurope.eu/2015/10/02/what-is-putin-really-up-to-in-syria/iigs

Ver:

http://www.brookings.edu/blogs/order-from-chaos/posts/2015/09/30-new-cold-war-with-russia-krickovic-weber

Ver:

http://www.dw.com/pt/r%C3%BAssia-inicia-bombardeios-na-s%C3%ADria/a-18751213

Ver:

http://www.dw.com/pt/o-jogo-de-p%C3%B4quer-entre-obama-e-putin-por-assad/a-18749569

Ver:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150928_diferencas_siria_mdb

Ver:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,americanos-afirmam-que-russia-atacou-sirios-treinados-pela-cia,1772599

Ver Também:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,a-siria–obama-e-putin–imp-,1772302

Ver:

http://www.dw.com/pt/bombardeios-russos-na-s%C3%ADria-desafiam-influ%C3%AAncia-dos-eua-na-regi%C3%A3o/a-18753263

Ver:

http://www.dw.com/pt/apoio-a-assad-%C3%A9-prioridade-para-o-ir%C3%A3/a-18751632

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!