LOADING

Type to search

Share

[:pt]

A Guerra Civil da Síria, palco dos confrontos entre diferentes atores estatais e não-estatais, coloca a população local e o mundo ante uma complexa rede de conexões que dificulta, cada vez mais, o caminho em direção a um cessar-fogo definitivo, na medida em que a cada dia a situação se torna mais complexa. Entre os países vizinhos, a Turquia aumentou a ofensiva transfronteiriça com a finalidade de aniquilar as forças curdas, nomeadamente, as Unidades de Proteção Popular (YPG)[1], que combatem na Síria. Na luta contra as YPG, a cidade síria de Jarablus e a aldeia de Jeb al-Kusa transformaram-se em alvos turcos e hoje contabilizam-se aproximadamente 35 vítimas mortais e 85 feridos, em consequência de ataques aéreos turcos. Neste momento, a incursão turca tem elevado as preocupações em torno de um possível confronto total, visto que os “rebeldes sírios e as forças curdas” são aliados dos EUA. A operação “Escudo do Eufrates”, iniciada no passado dia 24 de agosto, registra, pela primeira vez, após cinco anos de conflito, a incursão terrestre de tropas, oficialmente enviadas por um país estrangeiro. A Turquia afirma que a ação desencadeada se destina a combater o Estado Islâmico e as Forças Democráticas Sírias (SDF)[2], lideradas pelas YPG, no enfrentamento contra os insurgentes de Abu Bakr al-Baghdadi. No entanto, o Governo sírio interpretou a ofensiva turca como uma “flagrante violação da soberania” nacional.

O equilíbrio entre as forças presentes na Síria é cada vez mais difícil, pois agentes internos e externos têm tentado marcar posições que, geralmente, provocam a desconfiança entre as partes e fazem balançar a estabilidade regional. A intervenção militar unilateral da Turquia, conforme o Presidente Recep Tayyip Erdoğan, que já havia ameaçado com uma operação deste tipo meses atrás, abre espaço para maiores embates. Analistas advertem que isto poderá colocar o país em “confrontos […] com os seus rivais e arrastá-lo para a prolongada guerra civil do país vizinho”. Murat Bilhan, Vice-Presidente do think tank Centro Asiático Turco para Estudos Estratégicos, com sede em Istambul, há algum tempo já havia advertido que, em situação de intervenção, a Turquia irá “encontrar-se em um confronto armado com os russos, o regime sírio, o Irã, assim como outros grupos em conflito”. O empenho do Governo turco centra-se em impedir que os curdos tenham sucesso na busca pela autonomia no norte da Síria, o que representaria, dentro da Turquia, o aumento do ideal separatista.

A Síria tem se transformado em catalizadora de energias entre países e grupos rivais e tem mobilizado para as suas fronteiras e para o seu território, os anseios daqueles que pretendem conquistar e defender posições que, hoje em dia, convergem num mesmo solo. A Turquia tem argumentado que as YPG estão ligadas ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK)[3], o qual vem travando uma guerra sem quartel contra o país. Esta justificativa reforça a ideia de que é necessária a criação de uma zona de proteção, mas para isto seria indispensável, de acordo com informações, que a Turquia “introduzisse uma profundidade de 20 Km a 30 Km no interior da Síria”. Para o Governo turco, a campanha militar na Síria significa uma medida protetiva. No entanto, esta atitude poderá causar, para aquele Governo, um pesado ônus em termos econômicos e de descontentamentos com atores globais contrários à intervenção do país na Síria. Do mesmo modo, os soldados turcos serão os novos alvos de grupos insurgentes e demais beligerantes que lutam no conflito sírio, que poderá se tornar mais inflamado e provocar um maior desequilíbrio regional.

———————————————————————————————–                    

ImagemUm blindado do Exército turco se dirige para a Síria a partir da cidade fronteiriça turca de Karkamis (24 de agosto de 2016)” (Fonte):

https://media1.s-nbcnews.com/j/newscms/2016_34/1682201/afp_fk5jk_909e682ce3b57428b3252bd3ec3ae519.nbcnews-ux-2880-1000.jpg

———————————————————————————————–                    

Notas e Fontes Consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] As Unidades de Proteção Popular [sigla: YPG] são uma milícia criada em 2011. Elas atuam sob o comando do Comitê Supremo Curdo na região de Rojava (Curdistão sírio, ao norte do país, na fronteira com a Turquia e o Iraque). Elas são um movimento de esquerda conhecido pela ampla participação de mulheres, tanto no partido quanto no seu braço armado. As Unidades de Proteção Popular recebem treinamento militar e armamentos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão da Turquia (PKK), assim como dos EUA. Apesar dos crescentes enfrentamentos com o Exército sírio, colaboraram com ele na luta contra o Estado Islâmico em regiões como Hassake, no nordeste da Síria. Elas são a força militar das Forças Democráticas Sírias, criadas em outubro de 2015 para expulsar o Estado Islâmico e que reúnem, também, combatentes árabes sunitas e cristãos, bem como assírios e turcomanos. São, igualmente, aliados do Conselho Militar Assírio, criado em 2013 para proteger áreas assírias de Hassake contra os jihadistas. As Unidades de Proteção Popular têm, como ativos, entre quarenta e cinquenta combatentes. Desde outubro de 2014, cerca de quatrocentos combatentes internacionais teriam se somado ao YPG, na brigada internacional Os Leões de Rojava. Em março de 2016, membros das Forças de Segurança das Unidades de Proteção Popular cercaram as posições do regime sírio em Qamishli, tendo detido oitenta soldados do regime de Bashar al-Assad e capturado sete dos seus veículos. O comandante geral das Unidades de Proteção Popular é Sîpan Hemo.

[2] As Forças Democráticas Sírias [siglas SDF ou QSD], uma coligação contrária ao presidente Bashar al-Assad, estando presentes na Guerra Civil da Síria. Elas foram criadas em Outubro de 2015 para criar, na Síria, um Estado secular, democrático e federal, e para expulsar o Estado Islâmico. Elas reúnem, também, combatentes árabes sunitas e cristãos, bem como assírios e turcomanos. As Forças Democráticas Sírias têm a suas sede em al-Qamishli, operando nas províncias de Aleppo, Hasakah, al-Raqqa e Deir ez-Zor. Os aliados das Forças Democráticas Sírias são os EUA, a França, a Rússia, o Reino Unido, a Alemanha, e alguns grupos do Exército Livre da Síria. Integram as Forças Democráticas Sírias, as Unidades de Proteção Popular, as Unidades de Proteção das Mulheres, Liwa Thuwwar al-Raqqa, a Brigada Seljuq, o Exército dos Revolucionários, o Batalhão do Sol do Norte, Jabhat al-Akrad, Brigada Seljuk, o Batalhão Rebelde Tel Rifaat, Liwa Thuwar al-Raqqa, Lîwai 99 Muşat, a Brigada dos Grupos de al-Jazira, as Novas Forças Síras, Jaish al-Salam, as Brigadas Jarabulus do Eufrates, al-Sanadid, as Milícias Tribais de al-Shaitat, Liwa Siqur el-Badiye, o Conselho Militar Siríaco, as Forças de Proteção das Mulheres Bethnahrin, o Conselho Militar de Mabij, o Conselho Militar al-Bab, o Conselho Militar de Jarablus, as Brigadas Livres de Jarablus e as Brigadas dos Falcões de Jarablus.

[3] O Partido dos Trabalhadores do Curdistão [sigla: PKK] é um partido defensor da independência do Curdistão, fundado em 1978, por Abdullah Öcalan. O partido, que tem raízes marxistas-leninistas, iniciou a luta armada contra o Governo turco em 1984. Na sua assembleia fundacional, realizada em 27 de Outubro de 1978, o PKK adoptou, como princípio, a formação de um partido, uma frente e um exército. O PKK é considerado, por diversos Estados e organizações, como uma organização terrorista internacional. A Turquia rotula o PKK como uma organização étnica separatista, que usa o terrorismo e a ameaça da força contra civis e alvos militares, com a finalidade de alcançar os seus objetivos políticos.

[:]

Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.