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[:pt]A Canonização de Teresa de Calcutá[:]

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Nascida Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, em Üsküp, capital da Macedônia, então parte da Albânia, Império Otomano, a católica mais famosa da Índia veio ao mundo no dia 26 de agosto de 1910. Ela viveu na Macedônia durante seus primeiros dezoito anos, tendo se mudado para a Irlanda, onde ingressou na Ordem das Irmãs de Nossa Senhora de Loreto. Aí passou a usar o nome Teresa, em homenagem a Santa Teresa de Lisieux. Enviada para Calcutá, na Índia, foi professora numa escola para meninas de classe alta, antes de decidir se dedicar aos pobres.

Em 1950, Madre Teresa fundou as Missionárias da Caridade, uma congregação religiosa católica que pretendia ser uma resposta à miséria prevalecente na Índia. Desde então, os membros da congregação têm que se submeter aos votos de castidade, pobreza e obediência, devendo disponibilizar, de todo o coração, livre atendimento aos mais pobres de entre os pobres. Atualmente, as mais de 4.500 religiosas que integram as Missionárias da Caridade estão presentes em 133 países, onde dirigem cerca de 700 casas de assistência aos moribundos com HIV/AIDS, lepra e tuberculose; cozinhas populares; dispensários e clínicas ambulantes; programas de aconselhamento para as crianças e as famílias; orfanatos; escolas.

Apesar de, em vida, Madre Teresa de Calcutá ter recebido inúmeras distinções, de entre as quais se destaca o Prêmio da Paz Ramon Magsaysay, em 1962, e o Prêmio Nobel da Paz, em 1979, ela foi alvo de críticas oriundas em diversos setores da sociedade civil, nomeadamente os ateus. Porém, Madre Teresa nunca se sujeitou às avaliações negativas e jamais se coibiu em tornar públicos seus posicionamentos em defesa daquilo em que acreditava, inclusive em relação aos posicionamentos do Papa João XXIII e às conclusões do Concílio Vaticano II, assumindo-se como adversária tenaz da Teologia da Libertação, ao ponto de o Papa São João Paulo II a ter tomado como bandeira de sua restauração eclesiástica.

Acusada de ter sido mais amiga da pobreza do que dos pobres, Madre Teresa foi questionada pelo jornalista e crítico literário Christopher Hitchens, em seu livro The Missionary Position: Mother Teresa in Theory and Practice (A Posição do Missionário. Madre Teresa na Teoria e na Prática)[1] e, também, no documentário Hell’s Angel (Anjo do Inferno)[2]. Hitchens acompanhou a Santa pelas ruas de Calcutá e a ouviu elogiar a pobreza, a doença e o sofrimento como “presentes do céu, propondo aos fiéis que aceitassem aqueles presentes com alegria. Segundo o jornalista norte-americano, sua clínica, em Calcutá, lhe pareceu um morredouro, um lugar em que o tratamento médico era rudimentar ou inexistente. No entanto, de acordo com Christopher Hitchens, quando adoeceu, Madre Teresa “voou em primeira classe a uma clínica privada da Califórnia”. Por outro lado, Aroup Chatterjee, no livro Mother Teresa, The Final Verdict (Madre Teresa, O Veredito Final)[3] denuncia as ligações de Madre Teresa ao ditador do Haiti, Jean-Claude Duvalier, e a Enver Hoxha, o responsável pela Albânia marxista-leninista.

Tendo recebido uma doação de Charles Keating, preso pela maior fraude financeira da história dos Estados Unidos até à década de 1980, quando Keating foi encarcerado, longe de devolver o dinheiro que lhe havia entregue (pelo menos 1 milhão de Dólares, cerca de 3,25 milhões de Reais), madre Teresa intercedeu no tribunal pedindo misericórdia. Segundo Chatterjee, médico nascido e criado em Calcutá e hoje residente em Londres, Madre Teresa “não dava nenhum analgésico forte aos moribundos, mesmo nos casos mais extremos, e os cuidados não eram profissionais. Careciam da mais básica higiene, sofriam condições de tortura”.

O cubano-norte-americano Hemley González é outro dos críticos de Madre Teresa. Em 2008, ele trabalhou como voluntário junto das Missionárias da Caridade, dado que “a marca de Madre Teresa é tão forte, que mesmo sem ser religioso foi a primeira coisa que me ocorreu. Eu me dei conta de que se tratava de uma violação sistemática dos direitos humanos e de um escândalo financeiro”. Segundo González, os missionários têm pouca preparação técnica: “Um deles deu de comer a um paralítico, que se engasgou e morreu. Eu estive na cremação de 12 pessoas, algumas das quais acredito que poderiam ter sobrevivido”.

Em contrapartida, em paralelo às críticas de que Madre Teresa foi alvo, cabe referir o testemunho de Joe McGowan, Jr., o repórter da Associated Press que, em 1966, pela primeira vez, divulgou ao mundo a obra da religiosa. O então chefe do escritório daquela agência noticiosa na Índia, Paquistão, Afeganistão, Nepal, Ceilão e nas Ilhas Maldivas declarou: “Não havia nada de pretencioso com ela”. Por outro lado, “naqueles dias, não havia leitos [hospitalares] suficientes em locais como Calcutá. Se você fosse declarado doente terminal, sua família tinha que levá-lo para casa para que o leito fosse para outra pessoa. Se ninguém o levasse, você era colocado na calçada para morrer”. Extremamente impressionado pelo trabalho de Madre Teresa, Joe McGowan, Jr. confessou: “Eu tenho o maior respeito por ela, o trabalho que ela fez, para trabalhar lá nas favelas de Calcutá”.

O Vaticano, que contou com Aroup Chatterjee e Christopher Hitchens entre as testemunhas oficiais hostis de Madre Teresa no processo de beatificação, que teve sua conclusão em 2003, reconheceu o primeiro milagre da fundadora das Missionárias da Caridade na cura de um tumor maligno abdominal de Monika Besra; em 2015, a Igreja abriu o caminho para a canonização de Madre Teresa, após ter declarado como milagre a recuperação do brasileiro Marcilio Haddad Andrino, que tinha múltiplos pontos de inflamação no cérebro.

No dia 4 de setembro, o Papa Francisco, que conheceu pessoalmente Madre Teresa em 1994, durante um Sínodo dos Bispos celebrado em Roma, canonizou a Beata que se notabilizou na Índia. Naquela ocasião, ante mais de cem mil fiéis originários de todas as partes do mundo, congregados na Praça de São Pedro, o Sumo Pontífice declarou que a Madre será a santa do “vasto mundo do voluntariado”, pedindo que ela seja considerada como o “modelo de santidade”. Segundo o Vigário de Cristo, a missão de Madre Teresa “nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres”.

Teresa de Calcutá, afirmou Francisco, “fez ouvir a sua voz aos poderosos da Terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes – diante dos crimes! –  da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o ‘sal’, que dava sabor a todas as suas obras, e a luz que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento”. O Papa sublinhou, ainda, a oposição de Madre Teresa à interrupção voluntária da gravidez, ao declarar que ela “foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. Comprometeu-se na defesa da vida, proclamando incessantemente que ‘quem ainda não nasceu é o mais fraco, o menor, o mais miserável’”.

A canonização daquela que, em vida, ficou conhecida como “a santa das sarjetas”, constituiu o evento mais importante do Ano Santo da Misericórdia. Santa Teresa de Calcutá, que “simboliza a fé cristã de uma maneira que toca os corações humanos além dos limites da denominação religiosa”, é, desde o passado dia 4 de setembro de 2016, uma referência de vida para todos os cristãos, mas, sobretudo, para os católicos. Com efeito, ante o fracasso de muitas políticas públicas na Índia, a par dos inúmeros problemas sociais e de uma mentalidade globalmente caracterizada pela resignação, talvez o assistencialismo promovido por Santa Teresa de Calcutá continue sendo alvo de críticas. Contudo, sua obra constitui a gota de água que, de modos muito diferenciados, tem alimentado a esperança dos mais miseráveis no deserto da indiferença. Como a própria Madre Teresa gostava de dizer, em relação aos despojados da dignidade, “talvez não fale a língua deles, mas posso sorrir”.

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ImagemPlaca memorial dedicada a Madre Teresa de Calcutá, Praça Wenceslas, Olomouc, República Checa” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mother_Teresa#/media/File:Mother_Teresa_memorial_plaque.jpg

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Notas e Fontes Consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] Ver:

CHRISTOPHER HITCHENS, The Missionary Position: Mother Teresa in Theory and Practice, Londres – Nova Iorque, Verso, 1995, 98 págs.

[2] Ver:

Christopher Hitchens, Mother Teresa: Hell’s Angel, Channel 4, s. l., 1994.

Disponível online:

https://www.youtube.com/watch?v=65JxnUW7Wk4

[3] Ver:

Aroup Chatterjee, Mother Teresa, The Final Verdict, s. l. [Calcutá], Meteor Books, India, 2003, 415 págs.

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J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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