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A CAPTAÇÃO DE JIHADISTAS LUSÓFONOS PARA O ESTADO ISLÂMICO

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O Ocidente, que evoluiu ao longo dos séculos no sentido da construção de uma sociedade laica, vive, neste momento, o receio ante a verificação de que muitos de seus jovens, de diversas nacionalidades, estão sendo guiados por uma visão radical antagônica aos valores ocidentais. Os mujahedin ocidentais, principalmente os combatentes do Estado Islâmico, defendem uma causa que, geralmente, não faz parte de seu modo de vida e educação de origem. A opção em reforçar a frente de combate de grupos irregulares no Oriente Médio, especialmente, no Iraque e na Síria, coloca os países de origem desses jovens inseguros ante a possibilidade de um eventual ataque organizado com o apoio de cidadãos ocidentais.

O fenômeno, que tem preocupado principalmente os países europeus, está em ascensão há algum tempo. Muitos de seus jovens, ou residentes em países europeus[1], incluindo cidadãos lusófonos, estão sendo cada vez mais atraídos pela ideia de fazer parte de grupos radicais. A motivação e o perfil psicológico e social dessas pessoas ainda não foram definidos com exatidão, embora tenham sido dispendidos esforços neste sentido.

Os Serviços de Inteligência europeus já identificaram o tipo de residência daqueles cidadãos. Segundo o Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), estão “referenciados alguns cidadãos nacionais que integram esses grupos de combatentes[2] e de outros que “detinham um estatuto de residência temporária em outros países europeus, embora apresentem conexões sociais e familiares ao território nacional[2]. O SIRP também informou que o recrutamento dos jovens ocorre “através da internet, estruturas logísticas formais e informais que atuam à escala regional e global[3].

A preocupação, neste momento, não se restringe unicamente aos países da Europa, pois estima-se que 30 mil jihadistas, de 83 países, combatem na Síria e no Iraque, de acordo com dados de 2013, fornecidos pelos Serviços de Inteligência europeus, acreditando-se que, hoje, o número possa ser maior[4]. De acordo com estas informações, a França lidera o ranking de países que mais exporta jihadistas com, aproximadamente, 1.000 pessoas, seguida do Reino Unido, com 800 combatentes[5]. O Reino Unido mostra-se inquieto com a situação, que não é considerada um caso isolado, mas uma tendência que vem se repetindo há algum tempo. Ante este fato, os EUA sugeriram que o próximo ataque terrorista em território norte-americano virá, provavelmente, de algum cidadão oriundo do Reino Unido[6].

Especialistas tentam traçar o perfil social desses jovens radicais. Para um estudioso do islamismo, o alemão Jochen Müller, a religião não é o principal motivo para a radicalização, pois os motivos vão mais além. De acordo com Müller, “eles apresentam problemas sociais ou escolares, estão desempregados ou não são aceitos. Eles estão atrás de uma comunidade, de uma orientação, de respostas claras[7]. “A religião é apenas um pretexto – a possibilidade de, em nome de algo, atacar de forma gratuita[7].

Muitos jovens ocidentais, segundo estudos realizados, não seguem nenhuma religião. Em 2010, o antropólogo Scott Atran explicou ao Senado norte-americano os motivos da radicalização desses jovens. Segundo o antropólogo, “o que inspira a maior parte dos terroristas que matam no mundo de hoje, é muito menos o Corão ou a doutrina religiosa, e muito mais a identificação com uma causa fascinante e uma ação que promete glória, admiração e estima dos amigos, e através deles o respeito eterno e a certeza de permanecer na memória deles[8]. Ainda para Scott, os jihadistas são movidos por outras questões que afetam o dia-a-dia dos jovens, que “sentem tédio, que trabalham em subempregos, subqualificados e decepcionados[9] – e para os quais, “a jihad é um empregador que oferece igualdade de oportunidades… é apaixonante, gloriosa e está na moda[9]. O choque que esses jovens causam em suas famílias não é menor do que a insegurança que os seus países de origem sentem. O grupo espanhol Sharia4Spain tem ameaçado destruir “o Sistema Constitucional espanhol e português[10]. A Península Ibérica, o antigo al-Andalus, também se encontra apreensiva quanto ao destino tomado por alguns de seus cidadãos. Portugal contabiliza 12 jihadistas no Estado Islâmico, sendo que 2 são mulheres.

A mais conhecida é uma jovem de 19 anos, que estampou a página de um jornal português, o Expresso, com o título de “a noiva portuguesa da jihad[11]. Esta jovem vivia na Holanda, para onde os pais emigraram e, através do Facebook, conheceu um jihadista, também ele português, que se encontra na Síria há um ano, e de quem se tornou noiva. Em 9 de agosto, ela fugiu da Holanda para, no dia seguinte, se casar com o noivo que nunca tinha visto pessoalmente. Hoje, ela escreve nas redes sociais que se sente feliz com a sua vida e tece elogios ao Estado Islâmico[12].

De acordo com o depoimento dos pais de alguns desses jovens, eles se encontram revoltados e, também, surpresos. Em entrevista ao jornal Expresso, o pai da jovem portuguesa afirmou que ela “tornou-se muçulmana radical há cerca de um ano, foi tudo extremamente rápido. Por isso é que fiquei surpreendido, não consigo entender[13]. A mãe brasileira que tem o filho combatendo no Estado Islâmico, desde 2013, acusou abertamente, na Bélgica, o líder da organização islamita Sharia4Belgian, responsável pelo recrutamento de jovens, de ter destruído a sua família[14].

A cada dia, mais jovens, inclusive menores de idade, homens e mulheres, têm fugido de seus países para se integrarem no Estado Islâmico, enquanto que muitos têm manifestado o desejo de se juntarem aos jihadistas. As rotas de fuga dos neo-jihadistas portugueses já foram decifrada. De acordo com a imprensa local, eles seguem por duas rotas para chegarem à Síria: “voos regulares para a Turquia e depois por via térrea e passam a fronteira turco-síria; ou através de um voo para a Bulgária e depois por via térrea pela Turquia e Síria[15].

Os países europeus, ante a crescente adesão de jovens ocidentais ao Estado Islâmico, têm tentado deter as conexões de seus cidadãos com esse movimento. No entanto, os esforços não estão sendo suficientes para inibir o avanço do fenômeno. Os países lusófonos que, tendencialmente, não têm “exportadomujahedin, hoje vivem esse drama. A situação presente eleva os riscos no interior da Lusofonia quanto à “produção e à exportação” de radicais, na medida em que este bloco é composto por economias frágeis, que oferecem poucas oportunidades e expectativas de vida aos seus jovens, para além da existência de sérios problemas sociais, como é o caso do Brasil e dos países africanos de expressão portuguesa.

Os riscos desses cidadãos retornarem aos seus países de origem para cumprir alguma tarefa do grupo a que pertencem ou de facilitarem a entrada no território nacional de “companheiros de causa” para a preparação de alguma ação violenta a ser praticada em outra parte do planeta, também não está descartada. Esta situação deixa a Europa, mais uma vez, sob alerta quase que total, ao mesmo tempo que procura encontrar um caminho para dissuadir os seus jovens a deixarem de lutar pela causa do Estado Islâmico.

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ImagemDe acordo com a União Europeia, cerca de 3.000 cidadãos comunitários integram o Estado Islâmico” (Fonte):

https://expresso.sapo.pt/imv/2/167/65/jihad-ad60.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/jihadistas-europeus-reforcam-a-frente-al-nusra-na-siria/

[2] Ver:

http://expresso.sapo.pt/a-noiva-portuguesa-da-jihad=f888068

[3] Ver:

http://expresso.sapo.pt/a-noiva-portuguesa-da-jihad=f888068

[4] Ver:

http://www.brasil247.com/pt/247/revista_oasis/153656/Guerra-Santa-Jovens-europeus-partem-para-a-jihad.htm

[5] Ver:

http://www.brasil247.com/pt/247/revista_oasis/153656/Guerra-Santa-Jovens-europeus-partem-para-a-jihad.htm

[6] Ver:

http://www.spectator.co.uk/features/9293762/the-british-beheaders/

[7] Ver:

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-que-faz-com-que-tantos-jovens-europeus-sejam-atraidos-pelo-estado-islamico/

[8] Ver:

http://www.brasil247.com/pt/247/revista_oasis/153656/Guerra-Santa-Jovens-europeus-partem-para-a-jihad.htm

[9] Ver:

http://www.brasil247.com/pt/247/revista_oasis/153656/Guerra-Santa-Jovens-europeus-partem-para-a-jihad.htm

[10] Ver:

http://expresso.sapo.pt/portugal-na-mira-de-jihadistas-espanhois=f874395

[11] Ver:

http://expresso.sapo.pt/a-noiva-portuguesa-da-jihad=f888068

[12] Ver:

http://expresso.sapo.pt/a-noiva-portuguesa-da-jihad=f888068

[13] Ver:

http://expresso.sapo.pt/a-noiva-portuguesa-da-jihad=f888068

[14] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/09/mae-de-brasileiro-jihadista-tem-de-ser-retirada-do-tribunal.html

[15] Ver:

http://observador.pt/2014/09/02/existem-12-jihadistas-portugueses/

Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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