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Na última segunda-feira, 31 de agosto, a Organização Mundial de Saúde (OMS) fez um apelo pela criação de um corredor humanitário no Iêmen, a fim de levar ajuda a mais de 3 milhões de pessoas na província de Taizz, uma das mais povoadas do país e localizada no sudoeste do território iemenita[1].

A OMS destacou que o conflito no Iêmen e a consequente crise humanitária deixaram milhares de pessoas em Taizz com necessidade de tratamento, em um contexto em que instalações de saúde foram extensivamente danificadas[2]. Ainda, um surto de casos de dengue foi observado nas últimas semanas, indo de 145 casos no início de agosto para 421 casos até 25 de agosto[2], agravando ainda mais o cenário humanitário na região, na área da saúde.

A nível nacional, 160 instalações médicas fecharam desde o início do conflito, em março de 2015, deixando 15,2 milhões de pessoas sem acesso a assistência médica[3]. No entanto, esta é apenas uma das faces da crise humanitária no Iêmen. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês) estima que 21,1 milhões de pessoas – equivalente a 80% da população – necessitam de alguma forma de proteção ou ajuda humanitária, o que representa um aumento de 33% de necessidades básicas desde o início do conflito[4]. De acordo com esse quadro, o Iêmen tem, hoje, o nível mais alto de necessidades humanitárias no mundo, como aponta a organização humanitária CARE[5].

De acordo com a OCHA, anteriormente ao conflito, o Iêmen já era altamente dependente da importação de bens essenciais: o país importava cerca de 90% de suas necessidades alimentares, 100% de medicamentos e 70% de combustível[3]. No entanto, a imposição de um embargo de armas, acompanhado de restrições a importações comerciais[6], levou ao aumento de preços e diminuição do volume de produtos básicos, que continuam fora do alcance do consumidor médio[3][7].

A crise humanitária no país é ainda agravada por danos a infraestrutura: imagens de satélite mostram que pelo menos 2.300 estruturas civis, como hospitais, escolas e mercados, foram destruídas, danificadas ou ocupadas por grupos armados[3]. Além disso, a destruição do Porto de Hodeida, em 18 de agosto[8], dificulta ainda mais a entrega de ajuda humanitária, como aponta Mark Kaye, da ONG Save the Children[9].

No setor de segurança alimentar, no mês de agosto, o número total de pessoas em dificuldade de acesso a alimentos em quantidade suficiente chegou a 12,9 milhões, um aumento de 20% nos últimos seis meses[3][4]. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), desses 12,9 milhões, 6,2 milhões encontram-se em estado de emergência, necessitando de assistência alimentar imediata, enquanto 6,7 milhões estão em estado de crise, necessitando de apoio à subsistência[10].

Ao mesmo tempo, 20,4 milhões carecem de acesso a água potável ou saneamento adequado, representando um aumento de 52% desde o escalonamento do conflito[3][4]. Além disso, mesmo antes do conflito, o Iêmen já apresentava uma das maiores taxas de desnutrição do mundo, com 46% das crianças menores de 5 anos sofrendo de nanismo e 850 milhões sofrendo de desnutrição aguda[11]. Agora, estima-se que cerca de 1,8 milhão de crianças sofram de alguma forma de desnutrição no país[3]. Desnutrição afeta o sistema imunológico e aumenta o risco de morte devido a doenças[11]: crianças sofrendo de desnutrição aguda severa correm risco de morte nove vezes mais que crianças saudáveis, e crianças sofrendo de desnutrição aguda moderada correm risco três vezes maior[12].

O conflito no Iêmen também gerou grandes necessidades de proteção[13] – i.e., o respeito pelos direitos de todos os indivíduos, de acordo com o direito internacional, incluindo direito humanitário, direitos humanos e o direito de refugiados[14]. Civis enfrentam riscos de morte, lesão, deslocamento e trauma psicológico cada vez maiores[11]. No setor de proteção de civis, 11,4 milhões de pessoas necessitam de proteção humanitária, incluindo 7,3 milhões de crianças[3][4][11].

Como destaca a OCHA, as pessoas mais vulneráveis estão vivendo em prédios públicos, abrigos improvisados ou a céu aberto[3]. Nesse cenário, estima-se que 1,2 milhão de pessoas necessitam de abrigo e artigos não-alimentares[3], incluindo 1 milhão de deslocados internos – de um total de 1,4 milhão[3][15] – e 200.000 pessoas vulneráveis em comunidades acolhedoras, representando um aumento de 122% em relação ao início do conflito[16].

Finalmente, mais de 1,8 milhão de crianças em idade escolar perderam acesso à escola devido ao conflito, em um contexto em que 3.584 escolas fecharam desde 26 de março[17], graças ao estado de insegurança, e centenas mais foram danificadas ou ocupadas por deslocados internos e grupos armados[4]. As estimativas são de que um total de 2,9 milhões de crianças necessitam de ajuda humanitária a fim de garantir acesso a educação, número que mais do que dobrou desde o início da crise[17].

Como aponta Mark Kaye, e como observado acima, o conflito no Iêmen fez o país, um dos mais pobres da região, mergulhar em uma crise humanitária de larga escala[9]. Dessa forma, são pessoas comuns que pagam o preço da violência, não apenas devido ao número de civis mortos e feridos, que já chega a 1.950 e 4.271, respectivamente[18], mas também em função de uma crise humanitária que afeta o exorbitante número de 21,1 milhões de pessoas.

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ImagemMoradores de Sanaa, capital do Iêmen, coletam água em um dos poucos pontos de distribuição pública, já que a maioria das bombas de água na cidade não estão mais funcionando devido à falta de combustível” (Fonte):

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=51594#.VecLYvmqrWE

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=51760#.VebF3fmqrWF

[2] Ver:

http://www.emro.who.int/yem/yemen-news/safe-corridor-needed-to-deliver-health-care-to-over-3-million-people-in-taiz-yemen.html

[3] Ver:

http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/OCHA%20Yemen%20Humanitarian%20Bulletin%20No%201%20-%2027%20August%202015.pdf

[4] Ver:

http://www.unocha.org/yemen/crisis-overview

[5] Ver:

http://www.care.org/emergencies/yemen-humanitarian-crisis

[6] Ver, e.g.:

http://www.theguardian.com/world/2015/jun/05/saudi-led-naval-blockade-worsens-yemen-humanitarian-disaster;

Ver Também:

http://in.reuters.com/article/2015/04/27/yemen-security-un-idINKBN0NI25C20150427

[7] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-34011187

[8] Ver:

http://uk.reuters.com/article/2015/08/18/uk-yemen-security-idUKKCN0QN0HD20150818

[9] Ver:

http://blogs.savethechildren.org.uk/2015/09/yemen-the-world-must-listen-before-its-too-late/

[10] Ver:

https://www.humanitarianresponse.info/en/system/files/documents/files/yemen_fsis_food_security_update_31_august_2015.pdf

[11] Ver:

http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/Yemen_HR_Factsheet_Nutrition.pdf

[12] Ver:

https://www.humanitarianresponse.info/en/system/files/documents/files/yem_hno_260615_final.pdf, p. 20.

[13] Ver nota 12, p. 22.

[14] Ver:

https://docs.unocha.org/sites/dms/documents/oom_protection_english.pdf

[15] Ver:

http://www.internal-displacement.org/middle-east-and-north-africa/yemen/figures-analysis

[16] Ver nota 12, p 21. Necessidades de abrigo e artigos não-alimentares haviam diminuído consideravelmente no final de 2014, quando a maioria dos deslocados internos no sul haviam retornado a suas casas e um plano de soluções duráveis para deslocados de longo prazo no norte do país estava em curso.

[17] Ver nota 12, p. 25.

[18] Ver:

http://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=16329&LangID=E

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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