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A cooperação entre Turquia e forças curdas do Iraque (Peshmerga)

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Na semana passada, o Ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, anunciou que a Turquia iria ajudar forças curdas do Iraque, conhecidas como Peshmerga, a atravessar a fronteira turco-síria e entrar na cidade síria de Kobane[1], em mudança de posicionamento em relação ao Estado Islâmico (ou ISIS)[2]. Combatentes do ISIS vinham cercando Kobane desde meados de setembro e, no início de outubro, jornalistas relataram que a cidade havia sido tomada[3].

Nessa quarta-feira, 29 de outubro, a prometida ajuda turca começou a se materializar: cerca de 90-100 militantes Peshmerga chegaram à Turquia por ar, aterrissando no Aeroporto de Sanliurfa, enquanto, por terra, 80 caminhões cruzaram a fronteira entre Iraque e Síria pela passagem de Habur, transportando armas, inclusive artilharia, e mais combatentes. Era esperado que os dois grupos de militantes se encontrassem na própria quarta, na cidade de Suruc, a 16km de Kobane, para cruzar a fronteira e adentrar a cidade síria[4].

Contudo, conforme o analista internacional Steve Biddle afirmou à CNN, esse movimento de tropas não representa uma mudança significativa no quadro geral do conflito, especialmente considerando-se que, como apontou outro especialista, Jeff White, a maioria dos estrategistas atribui pouca importância estratégica a Kobane na luta contra o Estado Islâmico[5].

Ainda assim, Biddle destaca que, o que poderia ser significante é o reposicionamento turco. Dependendo de como tal cooperação foi negociada, tal virada pode representar uma abertura para um maior envolvimento turco, como os Estados Unidos vem pressionando. Inversamente, a atitude turca poderia, simplesmente, ser uma reação à crise próxima à sua fronteira[5].

De acordo com os analistas Kareem Fahim e Karam Shoumali, a Turquia parece estar agindo de acordo com seus próprios interesses. O Governo turco tem se mostrado relutante quanto ao envio de ajuda militar a curdos em Kobane, afiliados do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (também conhecido por PKK), com quem o Governo da Turquia tem estado em conflito armado por mais de três décadas, embora tenha havido conversas de paz nos últimos 18 meses. Dessa forma, a decisão de colaborar com facções curdas do Iraque – grupos que estão alinhados com o Governo turco – permite que à Turquia manter seu posicionamento contra o PKK ao mesmo tempo que alivia as críticas a sua política em relação ao ISIS[6].

Como apontou Halil M. Karaveli, analista internacional especialista em Turquia, os Peshmerga (curdos do Iraque) irão contrabalançar grupos curdos em Kobane, aos quais o Governo turco se opõe[6]. Embora o envio dos Peshmerga a Kobane possa ter pouco peso na luta contra o Estado Islâmico, especialmente considerando a pouca probabilidade de tal decisão refletir numa mudança no posicionamento turco de forma geral, as forças curdas podem mudar o cenário do conflito na cidade. Como aponta Jeff White[5], os Peshmerga são melhor treinados e equipados do que os curdos sírios em Kobane, além de estarem levando consigo armamento pesado que os curdos sírios não possuem.

Mais de 800 pessoas morreram desde que o ISIS lançou sua ofensiva em Kobane, há seis semanas, e, até última terça-feira, 28 de outubro, o Estado Islâmico ainda controlava 40% da cidade[4].

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ImagemRefugiados começaram a deixar a cidade de Kobane em 18 de setembro, após tomarem conhecimento do avanço do Estado Islâmico em direção à cidade” (Fonte):

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-29688108

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.defensenews.com/article/20141020/DEFREG04/310200026/Kurdish-Fighters-Enter-Syria-Turkey-US-Continue-Talks-Islamic-State

[2] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/o-posicionamento-do-governo-turco-em-relacao-ao-estado-islamico/;

Ver também:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/10/21/fp_s_situation_report_turkey_allowing_kurdish_fighters_into_kobani_support_for_t

[3] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-29688108

[4] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-29804437

[5] Ver:

http://edition.cnn.com/2014/10/29/world/meast/isis-threat/

[6] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/10/21/world/middleeast/kobani-turkey-kurdish-fighters-syria.html?_r=0

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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