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No início de março, Stephen O’Brien, Chefe das Nações Unidas para assuntos humanitários declarou que mais de 20 milhões de pessoas estão enfrentando sérias ameaças ligadas à segurança alimentar, podendo causar a morte de 1,4 milhão de crianças no Iêmen, Somália, Sudão do Sul e Nigéria, em decorrência da fome. Por consequência, isso leva à maior crise humanitária já registrada, desde 1945.

Apesar das inúmeras facetas para o atual cenário, como o emaranhado de conflitos civis, intervenção de grupos terroristas, secas prolongadas e bloqueios no fornecimento de alimentação, um fator chama a atenção: a lacuna entre o que tem sido solicitado e o que tem sido arrecadado pelas agências das Nações Unidas.

De acordo com o Financial Tracking Service, plataforma especializada no monitoramento de fluxos financeiros para a assistência humanitária, até 17 de março de 2017, apenas 13,5% dos recursos financeiros foram atendidos. Ao todo, 730 organizações têm solicitado apoio para conduzir projetos humanitários, mas apenas 87 têm recebido os recursos até o momento.

Por enquanto, dos atuais 26 apelos humanitários registrados pela plataforma, apenas quatro arrecadaram mais de 20% de recursos, sendo eles, Níger, território da Palestina, Somália e o plano regional de resiliência e refugiados na Síria (3RP). Além disso, entre as organizações que mais receberam recursos, destacam-se o Programa Mundial de Alimentos (US$ 903 mi), o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (US$ 252 mi) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (US$ 222 mi).

Apesar do imediatismo necessário para mitigar o sofrimento humano em cenários de emergência, deve-se reconhecer que os dados específicos sobre 2017 correm o risco de cair em um viés temporal. Isto ocorre porque países enfrentam trâmites burocráticos para formalizar contribuições financeiras e para alocar os recursos a partir de interesses estratégicos ou de necessidades de países específicos.

No entanto, o cenário continua desanimador quando visto no período 2006-2016. Em 2007 e 2009, as Nações Unidas conseguiram arrecadar 72% do que era necessário para cada ano, o mais alto na série 2006-2016. Em 2015, a arrecadação foi a mais baixa, equivalente a 56% do total.

Diante do exposto, três tópicos merecem destaque. Em primeiro lugar, a assistência humanitária representa, em média, apenas 10% da Assistência Oficial para o Desenvolvimento, de acordo com os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Em outras palavras, diante da gravidade da questão humanitária, da intensidade dos conflitos civis e do impacto das mudanças climáticas nos desastres ambientais e na segurança alimentar no mundo, a realocação de recursos para a assistência humanitária deve ser estudada. Em segundo lugar, apesar do recente engajamento dos países do Sul em questões relacionadas à assistência humanitária, há pouca transparência quanto ao que é feito e quanto é gasto, gerando imprevisibilidade sobre a capacidade desses países em assumirem maiores compromissos no âmbito internacional. Por último, o Governo americano pretende oficializar nas próximas semanas um corte de 50% a 60% nas contribuições para as Nações Unidas. Tradicionalmente, os Estados Unidos têm sido o maior doador humanitário no mundo, o que causaria um impacto sem precedentes nas organizações humanitárias. Entre tudo o que poderia acontecer em meio à maior crise humanitária, um corte dessa magnitude seria inimaginável.

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Imagem 1Ajuda humanitária da UNICEF, pronta para ser implantada. Isso pode ser alimentos como Plumpynuts ou comprimidos de purificação de água” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Humanitarian_aid

Imagem 2Gráfico dinâmico produzido em FTSOCHA / 2016” (Fonte):

https://fts.unocha.org/appeals/overview/2016

Imagem 3Depósito de ajuda alimentar em Angola” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3AFood_aid_warehouse_(Angola)_(5579785921).jpg

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João Antônio dos Santos Lima - Colaborador Voluntário

Mestre em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco e graduado em Relações Internacionais na Universidade Estadual da Paraíba. Tem experiência como Pesquisador no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no projeto da Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional (Cobradi). Foi representante brasileiro no Capacity-Building Programme on Learning South-South Cooperation oferecido pelo think-tank Research and Information System for Developing Countries (RIS), na Índia; digital advocate no World Humanitarian Summit; e voluntário online do Programa de Voluntariado das Nações Unidas (UNV) no projeto "Desarrollar contenido de opinión en redes sociales sobre los ODS". Atualmente, mestrando em Development Evaluation and Management na Universidade da Antuérpia (Bélgica) e Embaixador Online do UNV na Plataforma socialprotection.org.

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