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A crise humanitária e de deslocados internos no Iraque

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Na última segunda-feira, 24 de agosto de 2015, agências humanitárias da ONU anunciaram a criação no Iraque de um serviço linha direta, de escopo nacional, a fim de responder às necessidades alimentares, médicas e de abrigo de pessoas deslocadas internamente[1].

De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês), em agosto de 2015, o número de deslocados internos no país chegou a 3,2 milhões, enquanto um total de 8,6 milhões encontram-se em necessidade de ajuda humanitária[2]. Ainda segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), deslocados internos encontram-se dispersos por 3.000 localizações em todo o Iraque[3][4].

Em comunicado conjunto a respeito do serviço de linha direta, Bruno Geddo, Representante da ACNUR no Iraque, afirmou que, devido ao tamanho da crise no Iraque, agências humanitárias da ONU não têm sido capazes de atingir a todos. Nesse contexto, a nova “central de atendimento vai ajudar a identificar e responder às necessidades mais urgentes dos deslocados [internos], e também garantir que informações atualizadas estejam disponíveis para eles, para que eles possam acessar a assistência e os serviços de que necessitam[3].

Como relata a jornalista Chloe Cornish, escrevendo para a rede de notícias humanitárias, IRIN, até então, diferentes ONGs no Iraque forneciam múltiplos números de telefone, mas os deslocados internos tinham pouco conhecimento sobre quais agências ofereciam quais serviços e, consequentemente, quem eles deveriam contatar para obter uma ajuda específica[5]. A nova central de atendimento resolve esse problema de comunicação ao centralizar, em um único número telefônico, informações sobre a ajuda humanitária disponível no país.

Como aponta a OCHA, a crise humanitária no Iraque tem sido uma das que se desenvolve mais rápido no mundo e aparece como consequência direta de violência e conflito relacionado à tomada de território iraquiano pelo Estado Islâmico (EI)[6]. Sob o domínio do EI, populações têm sido submetidas a execuções em massa, estupros sistemáticos e o uso de crianças como homens-bomba e escudos humanos, além de outros atos de violência[6][7].

No entanto, como observam as analistas Elizabeth Ferris e Melanie Teff, da Brookings Institution, as pessoas estão deixando suas casas no Iraque não apenas devido às atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico, mas também pelas ações de grupos armados de oposição, como milícias xiitas, e devido a bombardeios por parte de forças pró-governo[8]. Ainda assim, é preciso notar que as áreas de mais difícil acesso para agências humanitárias da ONU[9] correspondem, majoritariamente, ao território sob controle do Estado Islâmico[10].

A crise humanitária iraquiana se torna ainda mais complexa devido a cerca de 1,1 milhão de pessoas que ainda vivem deslocadas internamente desde o conflito sectário de 2006-2008[11] (o que, somado aos 3,2 milhões de deslocados pela crise atual, gera um total de mais de 4 milhões de deslocados internos) e cerca de 250 mil refugiados sírios no país[12][8].

Dos 8,6 milhões de pessoas em necessidade de ajuda humanitária, 45% são crianças; 7,9 milhões necessitam de proteção (de Direitos, em consonância com o Direito Internacional); 7,8 milhões de acesso a serviços de saúde; 4,1 milhões de acesso a água e saneamento e 4,4 milhões de ajuda alimentar[13]. No entanto, a resposta humanitária de agências da ONU enfrenta uma séria lacuna de financiamento: dos 498 milhões de dólares requeridos para o plano de ação da OCHA para o Iraque, apenas 25% foram obtidos[9]. Devido a tais restrições financeiras, permanece incerto o real impacto que a central de atendimento para serviços humanitários terá sobre a crise humanitária iraquiana.

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ImagemPrograma Alimentar Mundial (WFP, na sigla em inglês) forneceu ajuda alimentar a mais de 1,5 milhão de deslocados internos no Iraque em julho de 2015” (Fonte):

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=51705#.Vd20hPmqrWG

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=51705#.Vd2HyvmqrWF

[2] Ver:

http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/ocha_iraq_humanitarian_situation_report_57_12_-_18_august_2015.pdf, p. 1.

[3] Ver:

http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/Press%20release%20-%20call%20centre-%2024%20August-%20English%20.pdf, p. 1.

[4] Ver:

http://www.iom.int/sites/default/files/situation_reports/file/IOM-Iraq-Crisis-Response-Situation-Report-04-August-2015.pdf, p. 1.

[5] É importante observar que a matéria de Chloe Cornish foi publicada em 3 de agosto, quando uma versão piloto do serviço de linha direta estava sendo testada na província de Erbil, no norte do Iraque. Ver:

http://www.irinnews.org/report/101815/dial-a-for-aid-iraq-s-new-humanitarian-hotline

[6] Ver:

http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/2015-Iraq-Humanitarian-Response-Plan%20%281%29.pdf, p. 7.

[7] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/estado-islamico-e-limpeza-etnica-no-iraque/

[8] Ver:

http://www.brookings.edu/blogs/markaz/posts/2015/04/28-iraq-displaced-refugee-humanitarian-islamic-state-violence

[9] Ver:

http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/irq_response_reporting_july_2015.pdf

[10] Ver:

http://www.internal-displacement.org/middle-east-and-north-africa/iraq/2015/internal-displacement-in-iraq

[11] Ver:

http://www.internal-displacement.org/middle-east-and-north-africa/iraq/figures-analysis

[12] Ver:

http://data.unhcr.org/syrianrefugees/country.php?id=103

[13] Ver:

https://docs.unocha.org/sites/dms/Iraq/2015%20Iraq%20Humanitarian%20Response%20Plan%20-%20Key%20Facts.pdf

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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