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A crise política na Macedônia e a renúncia do primeiro-ministro Gruevski

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O ano de 2015 se mostrou como extremamente turbulento para o ambiente político macedônio e, por consequência, a primeira metade do ano de 2016 tende a ser um divisor de águas no cenário local. A recente notícia de renúncia do primeiro-ministro Nikola Gruevski, a ser efetivada na sexta-feira, 22 de janeiro de 2016, é o resultado da grande incapacidade interlocutora dos setores políticos do Estado da ex-Iugoslávia.  A menos de 100 dias de uma nova eleição, o seu partido, o VMRO-DPMNE, cumpre um Acordo mediado pela União Europeia, que visa solucionar o imbróglio político que alveja os quatro maiores partidos no Congresso.

A crise política se agravou quando demonstrações nas ruas de Kumanovo, no mês de maio de 2015, colocaram cidadãos de etnia Albanesa contra a polícia, ocasionando a morte de 30 militantes durante o ato. Gruevski fora acusado de incitar a violência étnica na época, aflorando as desavenças entre os diferentes grupos étnicos constituintes do país balcânico.

Não bastasse o cenário que beirava o caos político, a Macedônia, no decorrer de 2015, se estabeleceu como uma das principais rotas utilizadas pelos migrantes que adentravam o continente europeu. Oriundos em grande maioria de países do Oriente Médio, estes buscavam refúgio no próprio país balcânico, ou o utilizavam como meio transitório para direcionarem-se a países ao norte. Incursões do Exército macedônio ao longo do ano geraram polêmica acerca da maneira como o Governo estava contingenciando a crise dos refugiados, gerando pressão externa, principalmente advinda de países da União Europeia. O fechamento de fronteiras por Skopje (capital da Macedônia – significando o centro de decisões políticas), especialmente da fronteira com a Grécia, se tornou uma medida amplamente contestada pela comunidade internacional; no entanto, a mesma foi copiada pela Hungria e tem aberto debates sobre as fronteiras europeias.

A União Europeia, que, como citado anteriormente, media as tratativas de solução da crise conjuntamente com o Governo estadunidense, tem um plano de adesão da Macedônia ao seu rol de signatários. A perspectiva de entrada no Bloco continua a influenciar a situação política do país, apesar da demora nas negociações. Não obstante a isso, o apoio à adesão à UE continua a ser forte. No início de 2006, 97% da população defendia o ingresso da Macedônia no grupo europeu. No final de 2015, o apoio à adesão na UE havia caído para 72%. Além disso, apenas 25% acreditam que a Macedônia está mais perto de aderir à União Europeia, hoje, do que estava quando, em 2005, foi dado ao país o estatuto de candidato à entrada na UE. Pela quinta vez nos últimos sete meses, o comissário europeu para o alargamento da União Europeia, Johannes Hahn, esteve na Macedônia para buscar um consenso entre os Partidos conflitantes.

Um antigo embaixador da Macedônia em Bruxelas, Nano Ruzin, falou à Deutsche Welle sobre a crise instaurada e declarou: pela primeira vez desde a queda do  comunismo, a União Europeia está lidando com uma situação na qual o Primeiro Ministro de um país candidato deve abdicar do cargo por indícios de atividade criminal e transgressões. A crise política iniciou em fevereiro de 2015, após líderes opositores proferirem denúncias a Gruevski e seu Partido, sugerindo que tivessem grampeado conversas telefônicas de 20 mil cidadãos macedônios, além de serem acusados de atividades corruptas no processo de Governo. Embora tenha negado as acusações, o Primeiro-Ministro aceitou a equipe mediadora. Conforme o Acordo, seus 10 anos de comando do país terminariam em janeiro deste ano (2016) e abririam a formação de um Governo interino até que fosse realizada uma nova eleição, em meados de abril.

Percebe-se que o maior desafio macedônio de 2016 é estabilizar a situação política do país e, pelas tratativas já iniciadas pelo Governo interino, o consenso está longe de ser atingido. Marcadas, de maneira inicial, para o dia 24 de abril, as novas eleições apresentam controvérsias no que tange o período de preparação necessária para todos os partidos apresentarem suas candidaturas e Plataformas de Governo. O Partido de Gruevski e os Partidos das minorias albanesas defendem a data previamente marcada, mas o Partido Social Democrata a contesta. Além do período de adaptação, a oposição Social Democrata contesta a transparência do processo eleitoral, exigindo medidas que assegurem que um eleitor não vote mais do que uma vez e que a liberdade da mídia seja provida. O líder oposicionista, Zoran Zaev, insiste que as reformas mediadas pela União Europeia não tiveram efeito algum, somente foram endereçadas formalmente pelo Governo da situação.

O papel da UE na solução da crise política e da crise relacionada aos refugiados na Macedônia é crucial para a estabilidade regional balcânica. Como as pretensões de política externa do Estado macedônio são de adesão à União, cabe, ao menos, alcançar os requisitos prévios do acquis da entidade continental, para que as conversas sejam reestabelecidas em âmbito geral. É de valia, como primeiro passo, organizarem eleições justas e transparentes em 2016.

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Imagem (Fonte):

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Matheus Felten Fröhlich - Colaborador Voluntário Júnior

Mestrando em Ciências Sociais pela PUC-RS. Bacharel em Relações Internacionais (2014), pelo Centro Universitário Univates de Lajeado - RS, realizou estudos em Segurança Internacional na Högskolan i Halmstad em Halmstad, Suécia (2013). Áreas de interesse em pesquisa são em Política Internacional, Segurança Internacional, Península Balcânica e etnias nas Relações Internacionais.'

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