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[:pt]A Despedida Ecumênica das Vítimas da Associação Chapecoense de Futebol[:]

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Na noite do dia 28 de novembro, o avião da LaMia – Línea Aérea Merideña Internacional de Aviación –, um BAe 146 Avro RJ-85 que transportava a equipe de futebol da Associação Chapecoense de Futebol, de Santa Catarina (Brasil), técnicos do clube e jornalistas que iriam fazer a cobertura do primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana, despenhou-se em Cerro Gordo, uma área montanhosa e de difícil acesso, na Colômbia, poucos minutos antes de aterrar no Aeroporto Internacional José María Córdova, em Rio Negro, Medellín, numa viagem que teve início em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Dos 77 ocupantes do voo CP-2933, houve 6 sobreviventes: 4 passageiros e 2 tripulantes. A tragédia que envolveu a equipe de Chapecó e seus acompanhantes ultrapassou, em muito, a dimensão esportiva do acontecimento. Por outro lado, as causas do acidente – provável erro humano, do Comandante da aeronave[1] e do pessoal de terra[2] – contribuíram, em muito, para tornar absurdo um episódio triste que decisões prudenciais teriam evitado.

A exaltação da memória dos falecidos e a solidariedade em torno dos familiares dos vitimados foram duas constantes nas homenagens que tiveram lugar. Nos eventos realizados, ao longo da semana seguinte, várias confissões religiosas se uniram para, ao fazerem uso da palavra consoladora, manifestarem o papel do sagrado ante a insuficiência humana em face dos absurdos vitais. Por outro lado, os muitos milhares de adeptos, da Chapecoense e de outros clubes, que se congregaram em diversos estádios de futebol, atribuíram uma dimensão metafísica às vidas precocemente ceifadas em território colombiano.

No dia 30 de novembro, à hora em que iria decorrer o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana, entre o Clube Atlético Nacional e a Chapecoense, milhares de pessoas se reuniram no Estádio Atanasio Girardot, em Medellín, e na Arena Condá, em Chapecó, para homenagear os desaparecidos. Naquela ocasião, no estádio da Chapecoense, líderes cristãos levaram o conforto aos milhares de assistentes à cerimônia religiosa. Os Pastores Claudir e Bartolomeu e o Padre Igor, adepto confesso do clube enlutado, proferiram algumas palavras durante o ato ecumênico.

Bartolomeu, o líder da Igreja Batista Central de Chapecó, referiu: “O que mais nós precisamos é de esperança. Não qualquer esperança, não uma mera esperança, mas a esperança que está em Deus”. Por outro lado, acrescentou o Pastor Bartolomeu, “a esperança que não falha, a esperança que dá força para caminharmos mesmo com o vento soprando de maneira contrária. Às famílias que estão aqui: Deus vai consolar o coração de vocês, Deus vai limpar de seus olhos toda a lágrima, porque Ele é bom”. O Padre Igor, se dirigindo aos familiares dos mortos, disse: “A minha oração é que o Espírito Santo venha confortar o coração dos familiares. Um Deus que nós servimos, um Deus que é fiel, que por mais que eu e você possamos estar abalados, ainda está no controle”.

O velório coletivo dos jogadores e dirigentes da Chapecoense, que teve lugar no sábado, dia 3 de dezembro, sob uma chuva impenitente, foi marcado por uma forte comoção coletiva. Ante um estádio praticamente lotado e uma cidade transformada em bancada de apoio incondicional aos falecidos no acidente aéreo na Colômbia, o Prefeito da cidade, Luciano Buligon, agradecendo ao povo colombiano e aos torcedores do Atlético Nacional, aludiu a um aforismo publicado na Internet: “Vieram por um sonho, voltaram como lendas”. “E lendas não morrem!”, completou o político.

Cid Moreira, cristão adventista, ex-Jornalista da Rede Globo, fez uma leitura da Bíblia que emocionou os presentes no estádio. O Bispo da Arquidiocese de Chapecó, Dom Odenir José Magri, leu, na cerimônia, uma mensagem do Papa Francisco: “Consternado pela trágica notícia do acidente na Colômbia – escreveu o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Dom Pietro Parolin –, o Papa pede que sejam transmitidas suas condolências e sua participação na dor de todos os enlutados. Ao mesmo tempo, pede ao céu conforto e restabelecimento para os sobreviventes e coragem e consolação para todos os atingidos pela tragédia”.

Alguns dias antes, em 30 de novembro, na Audiência Geral levada a cabo no Vaticano, o Sumo Pontífice destacou as semelhanças que existem entre o acidente aéreo que vitimou a Chapecoense e aquele que, no dia 4 de maio de 1949, enlutou a cidade de Turim, em Itália, quando a aeronave em que seguia a equipe de futebol do Torino F. C. colidiu com a Basílica de Superga, devido ao nevoeiro. Francisco disse: “Eu também gostaria de recordar hoje a dor do povo brasileiro pela tragédia do time de futebol e rezar pelos jogadores mortos, pelas suas famílias. Na Itália, sabemos bem o que isso significa, pois lembramos o acidente aéreo de Superga, em 1949. São tragédias duras. Rezemos por eles”.

A tragédia do voo da LaMia não teria ocorrido se ele tivesse obedecido à gestão prudencial, do voo, do combustível disponível e, também, da gestão aeroportuária boliviana. Falamos, em boa medida, da prudência prática tão ao gosto de Aristóteles[3] que sucumbiu, neste caso, em face da tentação do lucro fácil e da mercantilização das pessoas, tantas vezes denunciadas pelo Papa Francisco. Entrementes, a solidariedade que se gerou em torno do clube de Santa Catarina revela que o espírito de entreajuda e o altruísmo se sobrepõem, entre os seres humanos, às pequenas disputas que animam nosso cotidiano[4], fazendo de todos nós criaturas melhores e mais disponíveis ante a dor e o sofrimento alheios.

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ImagemEscudo da Associação Chapecoense de Futebol” (Fonte):

https://logodownload.org/wp-content/uploads/2016/09/Chapecoense-logo-escudo-1.png

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] O Comandante Miguel Alejandro Quiroga Murakami, um antigo piloto militar, de 36 anos, era um apaixonado pela aviação. Graduado pela Academia de Aviação da Bolívia, em 2002, retomou a carreira de piloto comercial há 5 anos. Ele era casado com Daniela Pinto – filha de Roger Pinto, Senador boliviano oposicionista – e tinha três filhos, com idades compreendidas entre os 4 anos e os 5 meses.

Além de piloto da LaMia, ele era um dos donos da empresa, juntamente com Marco Antonio Rocha.

Segundo declarações de Denise Pinto, familiar do Comandante tragicamente desaparecido, ao jornal colombiano El Tiempo, ele “sempre estava ajudando, preocupado em solucionar problemas”.

Entrementes, de acordo com Reymi Ferreira, Ministro da Defesa da Bolívia, “o capitão Quiroga, que era o piloto do avião acidentado, tinha um julgamento pendente com a Força Aérea Boliviana, tendo, inclusive, um mandado de prisão”.

[2] Várias zonas-sombra envolvem o acidente com o avião da LaMia. A partir dos últimos 11 Minutos de conversas do Comandante Miguel Quiroga com a torre do controle do Aeroporto Internacional José María Córdova ficamos a saber que, muito provavelmente, a aeronave se despenhou por falta de combustível.

De acordo com uma reportagem realizada pelo Globo Esporte, o reabastecimento do voo malogrado “teria um custo adicional de cerca de R$ 10 mil se decidisse por parar no Aeroporto de Bogotá para realizar um abastecimento, segundo especialista consultado pela ‘Folha de S. Paulo’. O valor inclui combustível e taxas aeroportuárias”.

Celia Castedo Monasterio, funcionária da Aasana, a Administração de Aeroportos e Serviços Auxiliares à Navegação Aérea da Bolívia, “questionou o piloto Miguel Quiroga sobre a autonomia do avião para o trajeto. Ela alertou que a capacidade de armazenamento de combustível da aeronave não era adequada para o plano de voo determinado e que faltava um plano alternativo, pois a quantidade de combustível seria insuficiente em caso de emergência.

A principal observação da funcionária teria sido com o tempo de voo entre Santa Cruz de la Sierra e Medellín. Celia alertou a um despachante da companhia que a duração era igual à autonomia de combustível da aeronave. […] O tempo de rota era de 4H22Min, assim como a autonomia. Em resposta, o despachante disse ter conversado com o piloto, que insistiu na realização do voo, afirmando que a autonomia era suficiente e que faria a viagem em menos tempo […].

– Não, senhora Celia, essa autonomia, me passaram, é suficiente. Assim, não apresento mais nada. Vamos fazer em menos tempo, não se preocupe. É assim, fique tranquila, está bem”.

[3] Parece ser sensato aquele que tem o poder de deliberar corretamente acerca das coisas que são boas e vantajosas para si próprio, não de um modo particular, como, por exemplo, acerca das coisas que são boas em vista do restabelecimento da saúde, ou da obtenção do vigor físico, mas de todas aquelas qualidades que dizem respeito ao viver bem em geral. Um indício disto é dado pelo fato de, ao falarmos daqueles que são sensatos, dizermos que são capazes de calcular de modo correto a forma de chegarem a obter um certo objetivo final sério, fim este que não se encontra entre os produtos de qualquer perícia. Assim, aquele que delibera é alguém absolutamente sensato. Porque ninguém delibera acerca daqueles entes que não podem ser nunca de outra maneira, nem acerca daquelas coisas sobre as quais não tem o poder de agir”, ARISTÓTELES, Eth. Nic., 1140a-30.

[4] Presente na Arena Condá, para dar o último adeus a seus heróis, Jacir Tolotti, torcedor da Chapecoense sintetizou o sentimento coletivo preponderante no dia 3 de dezembro: “Nós somos um time pequeno, cara. Não queríamos ser conhecidos no mundo todo como agora. Não desse jeito. Só queríamos ganhar a Sul-Americana

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J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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