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A Guerra Civil na Síria e a desestruturação do Iraque desencadearam, de modo expressivo, a radicalização do Islã que, até então, se encontrava restrita a alguns grupos radicais religiosos fora do espaço ocidental. O despertar islâmico, ocorrido durante a Primavera Árabe, teve início em dezembro de 2010 e ganhou espaço no decorrer daquelas revoltas, tendo-se consolidado no período subsequente, fase em que conquistou adeptos em países ocidentais e, mais especificamente, na Europa.

Desde 2013, os Serviços de Informação e de Segurança europeus têm enfrentado o desafio ante a migração de seus cidadãos para a Síria e para o Iraque, assim como em face da adesão dos jovens ao islamismo radical. Quando cada um desses indivíduos retorna ao país de origem, é considerado como uma potencial ameaça terrorista[1]. Segundo estudos realizados por especialistas, as causas que levam muitas pessoas, na maioria jovens, a adotarem o islamismo radical, não estão ligadas apenas à religião, e sim a uma resposta que os seus países não conseguem dar ante as suas necessidades. Na maioria dos casos, são cidadãos com problemas escolares e sociais, desempregados, desintegrados da sociedade, com a qual não se identificam e que se acham em busca de orientação, de respostas claras e de uma comunidade[2], o que eles têm encontrado no seio dos grupos fundamentalistas.

Os recentes atentados em Paris revelam um “choque civilizacional” entre a Europa laica e democrática e uma vertente ultraconservadora do islã, representada pelo Estado Islâmico, que condena os valores seculares e ocidentais, pretendendo estabelecer uma nova ordem que remonta às tradições do Califado medieval. Os jihadistas, autores dos ataques perpetrados em Paris na última sexta-feira, 13 de novembro, definiram previamente os alvos a serem atacados, de acordo com o que eles consideram como ambientes contrários aos valores, à moral e aos costumes do Islã. Em mensagem em áudio e em texto divulgado nas redes sociais, o Estado Islâmico admitiu ter considerado esta questão. Segundo o grupo, “oito irmãos, com cinturões de explosivos e armas de assalto, atacaram lugares minuciosamente escolhidos no coração da capital francesa[3]. O Estádio de França, onde as seleções de futebol de França e da Alemanha disputavam um jogo amistoso, foi escolhido para a realização do primeiro dos ataques pelo fato de os dois países fazerem parte da coalizão contra o Estado Islâmico e, também, por François Hollande, o Presidente francês, se encontrar presente no evento. A casa de espetáculos Bataclan, segundo o grupo, foi atacada porque, ali, “estavam reunidos centenas de idólatras em uma festa perversa[4].

As hostilidades dos fundamentalistas contra o Ocidente não são uma novidade, porém, neste momento revelam-se como uma tendência que se acentua, sobretudo no território da União Europeia, contra os valores do continente, o que requer uma resposta conjunta do Bloco a fim de neutralizar as ameaças, mas sem alienar a questão dos refugiados. Para a França, principal vítima europeia da atualidade, que em menos de um ano sofreu dois atentados, sendo que o último, através de 7 ações coordenadas, provocou a morte de 129 pessoas e feriu centenas, terá que encontrar uma maneira de inibir as ações terroristas dentro do país e garantir a segurança para a sua população sem se utilizar do “toque de recolher” em Paris, uma das cidades mais animadas e mais frequentadas por turistas do mundo.

Os serviços europeus de Inteligência não foram capazes de neutralizar os atos dos insurgentes islâmicos em Paris e a França está numa situação complexa, se comparada com os demais países da Europa. Segundo o jornal Haaretz, em sua edição de domingo, 15 de novembro, a França está numa posição bastante difícil: “A combinação de fronteiras abertas com outras nações europeias, a coordenação estreita entre centenas e possivelmente milhares de franceses e jihadistas belgas voltando da Síria, com experiência e aspirações de martírio e um problema contínuo da juventude muçulmana francesa, cujos sentimentos de ostracismo os tornam suscetíveis à radicalização[5].

As portas do Ocidente não são mais resistentes ao islamismo radical. Esta resistência foi rompida pela estratégia adotada por Abu Bakr alBaghdadi, o Califa do Estado Islâmico. Se, num passado não muito distante, os grupos insurgentes estavam mais preocupados com os nacionalismos regionais e recusavam novos combatentes por medo de estarem sendo infiltrados, hoje, alBaghdadi não se opõe a aceitar novos mujahidin, o que lhe confere a possibilidade de engrossar as fileiras do seu Exército e de fazer os seus seguidores penetrarem em praticamente todo o mundo.

Para Loretta Napoleoni, especialista em terrorismo e lavagem de dinheiro, “a facilidade de ingresso no EII [Estado Islâmico], combinada com a sofisticada imagem de que ele [Abu Bakr al-Baghdadi] desfrutava nas mídias, aumentou sua popularidade no exterior, principalmente entre os muçulmanos do Ocidente[6]. Neste contexto, a Europa e o Ocidente estão ante um novo fenômeno do islã radical, que não é tecnologicamente retrógado, pois conhece e sabe utilizar muito bem as tecnologias a seu favor, ao mesmo tempo que compreende os sentimentos e os valores do inimigo. Desse modo, por vingança ou convicção, eles estão tentando deflagrar uma onda de terror para além do Oriente Médio, com a finalidade de desestruturar o modo de vida ocidental. Enquanto isso, alguns países europeus, juntamente com os EUA, procuram minar as forças do Estado Islâmico através de intervenções militares cirúrgicas e de ataques aéreos que, até o momento, têm se mostrado ineficazes para pôr fim às atividades dos insurgentes que avançam para o coração da Europa, desafiando os Serviços de Inteligência europeus e amedrontando as suas populações.            

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Imagem A presença dos insurgentes do Estado Islâmico em Paris, além de provocar vítimas inocentes e de causar a comoção social, tem contribuído para ensombrar o direito de ir e de vir dos milhões de muçulmanos que se encontram radicados em França” (Fonte):

https://i.guim.co.uk/img/static/sys-images/Observer/Pix/pictures/2011/4/9/1302372471573/A-woman-wearing-niqab-wal-007.jpg?w=620&q=85&auto=format&sharp=10&s=2efffb1e2a35d7dbdd671519de06716d

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://media.rtp.pt/blogs/estadoislamico/mundo/europa-que-resposta-ameaca-jihadista_1241

[2] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/a-captacao-de-jihadistas-lusofonos-para-o-estado-islamico/

[3] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2015/11/14/actualidad/1447460657_465745.html

[4] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2015/11/14/actualidad/1447460657_465745.html

[5] Ver:

http://www.haaretz.com/world-news/.premium-1.686118

[6] Ver:

LORETTA NAPOLEONI,  A Fênix Islamista: O Estado Islâmico e a Reconfiguração do Oriente Médio, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2015, trad. do inglês por Milton Chaves de Almeida, pág. 40.

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Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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