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A Inoperância do Governo Libanês ante a Crise do Lixo em Beirute

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Milhares de toneladas de lixo estão a inundar Beirute, colocando em risco a saúde da população. Desde inícios de julho de 2015, a capital libanesa vem enfrentando uma crise de tratamento dos resíduos urbanos que já provocou protestos violentos e a criação de uma campanha denominada “You Sting” (“Você Fede”), numa alusão à atual situação e aos políticos libaneses, que têm se mostrado inoperantes ante o problema.

Este é mais um revés para um Governo que, no contexto da tradição política libanesa, não consegue assumir a concretização dos compromissos estruturais, devido às práticas públicas sectárias, no âmbito das quais os poderes se encontram distribuídos entre os cristãos maronitas (Presidente), os sunitas (Primeiro-ministro) e os xiitas (Presidente do Parlamento). Deste modo, a governabilidade, atrelada aos diferentes grupos religiosos e ideológicos, torna-se ineficaz para responder às demandas da sociedade e para solucionar alguns dos problemas atuais, gerados a partir da presença de mais de 1 milhão de refugiados oriundos da vizinha Síria.

 No ano passado, ocorreu um processo de licitação de empresas para a coleta de lixo doméstico, em Beirute, mas as entidades vencedoras não puderam começar a executar o trabalho porque “seis ministros recusaram os contratos apresentados pelas empresas, alegando custos elevados”. Sem serviço de coleta, as montanhas de lixo se acumulam nas ruas de Beirute há 8 meses, após o fechamento do aterro sanitário, em Naameh, que foi aberto em 1997, para funcionar provisoriamente com capacidade para receber 2 milhões de toneladas de lixo.

Após 18 anos, o aterro foi encerrado tendo recebido, até aquela altura, 15 milhões de toneladas de resíduos. A incapacidade do Governo para resolver esta questão remete-se a problemas políticos e, também, segundo informações, a interesses pessoais e de grupo dos dirigentes libaneses. Para o fundador da campanha “You Sting”, os políticos libaneses “querem que os sistemas de lixo e gestão de resíduos sejam controlados pelas empresas que possuem. Eles não querem uma lógica… ou uma solução segura para o ambiente, porque isso irá acabar com os negócios”.

Em maio de 2014, o mandato de Michel Suleiman, o Presidente libanês, expirou e, até o momento, os políticos não conseguiram um acordo para escolher o novo Chefe de Estado. Deste modo, o Primeiro-Ministro, Tammam Salam, vem acumulando as duas funções, atuando igualmente como Presidente interino. Entretanto, as dificuldades de ordem política e pública têm vindo a aumentar e os moradores de Beirute reclamam da falta de cumprimento, por parte do Governo, dos direitos básicos de cidadania, que envolvem os serviços públicos no atendimento à coleta de lixo, a par do fornecimento de água e eletricidade.

Hoje, de acordo com residentes de Beirute, “as ruas estão cheias de lixo. Pilhas e pilhas – Montanhas de lixo em todos os lugares”. Neste momento, há grande preocupação por parte das pessoas ligadas à saúde e ao ambiente. A enorme quantidade de lixo espalhada pela cidade poderá contaminar o ar e a água, provocando doenças. Os resíduos acumulados, geralmente, são queimados, o que acaba por contaminar a atmosfera com partículas nocivas à saúde.

Uma tentativa do Líbano para colocar fim ao problema acabou por falhar na última sexta-feira, 26 de fevereiro. Uma empresa britânica foi contratada para transportar o lixo para a Rússia, mas, na última hora, conforme afirmou à CNN o Porta-Voz do Conselho do Líbano para o Desenvolvimento e Reconstrução, os responsáveis da empresa não apresentaram documentos confirmando a aprovação russa em aceitar tais resíduos no país.

O impasse político e a disputa entre as diferentes facções têm conduzido o Líbano a fracassos sucessivos no campo político, econômico e social. Atualmente, em conjunto com as montanhas de lixo, o país enfrenta a “deterioração dos sistemas de água e eletricidade e acusações de corrupção”, o que poderá causar sérios problemas de saúde pública e, também, na vida coletiva do país. Na ausência de uma solução imediata, a população de Beirute continua a reivindicar o atendimento de seus direitos básicos, tentando sobreviver à crise dos resíduos urbanos que coloca em risco o ambiente e a vida dos cidadãos naturais e residentes no Líbano.

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Imagem A ausência de soluções para a crise do lixo, em Beirute, transformou a cidade num local nauseabundo e perigoso” (Fonte):

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Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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