LOADING

Type to search

A instabilidade no Iraque, dez anos após a queda de “Saddam Hussein”

Share

O Iraque atual corresponde ao território originário da civilização mais antiga do mundo, a Suméria. O passado remoto desse território, rico em significações históricas e culturais construídas ao longo dos séculos, contrasta com a atualidade, que vive um ambiente bastante desgastado em consequência de guerras. A fragilidade do Iraque, no décimo aniversário da guerra que provocou a queda de Saddam Hussein, reflete-se nas suas instituições políticas, econômicas e sociais, que perderam o vigor e necessitam de reconstrução.

Em março de 2003 ocorreu a intervenção norte-americana no Iraque, baseada na alegação de que este país tinha violado o “Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas” e a “Resolução 687”. Os EUA justificaram a sua ação a partir do pressuposto de que aquele país estaria produzindo e usando armas de destruição em massa que, no entanto, não foram encontradas. Após três semanas de guerra, o regime de Saddam Hussein ruiu. Para atingir os seus objetivos em território iraquiano, os norte-americanos gastaram centenas de bilhões de dólares num conflito que registrou a perda de milhares de vidas humanas[1]. O fim da guerra não significou a ausência da violência, tendo sido mais um entrave para a reconstrução do Estado que se encontra em situação de instabilidade.

O pós-guerra se apresenta, para o Iraque, como um enorme desafio a ser vencido. Uma série de obstáculos tem dificultado a reconstrução do país e o seu retorno à estabilidade política, econômica e social. Socialmente composto por três grupos populacionais diferentes, possui o registro de enfrentamentos entre os adversários que tentam prevalecer no território e conquistar, também, o campo político. Ao Norte encontram-se os curdos, que procuram fazer parte de uma sociedade que reconheça a sua identidade e lutam por um Estado próprio e independente. No centro do país estão os árabes sunitas, que são minoria e rivalizam com os árabes xiitas, estabelecidos no Sul, e compõem 60% da população iraquiana[2].

Atualmente, os sunitas e os xiitas antagonizam-se na política. Embora em minoria, os sunitas estiveram no poder até à queda de Saddam Hussein mas, hoje, a administração está nas mãos dos xiitas. Esta composição política desencadeou uma série de desentendimentos, inclusive com a aproximação dos sunitas com a al-Qaeda após a retirada das tropas norte-americanas, em 2011[3]. Os três grupos rivais têm dado fôlego aos embates e a violência perpetrada através de atentados cometidos com carros-bomba não cessa. Os custos humanos gerados pela guerra são grandes, totalizando aproximadamente cento e noventa mil mortos. A cada mês que passa aproximadamente trezentas vítimas fatais se acrescentam ao balanço trágico deste conflito[4].

Já no final do segundo mandato, o atual “Primeiro-Ministro do Iraque”, Nuri al-Maliki, ainda não conseguiu consolidar a Democracia e dar estabilidade política ao país, condições das quais dependem o desenvolvimento econômico e social. A fragilidade política, somada à insegurança, às infraestruturas obsoletas, à falta de mão-de-obra qualificada e às leis comerciais antiquadas[5] inibem o investimento externo e retraem a recuperação nacional.

Nos últimos dias, o Iraque também está a ser pressionado pelos EUA para coibir o transporte de armas do Irã para a Síria através do seu espaço aéreo e poderá vir a sofrer sanções se não conseguir atender o pedido norte-americano. De acordo com o Ministro iraquiano das Relações Exteriores, Hoshyar Zebari, o seu país é contra o envio de armas do Irã para a Síria mas, em virtude de não ter condições para controlar de modo eficaz o espaço aéreo, solicitou aos países ocidentais ajuda para pôr fim a esses voos[6].

O Iraque sofre com a falta de condições para reerguer as suas instituições econômicas, que são mecanismos indispensáveis para colocar em marcha a reconstrução. Embora possua a segunda maior reserva de petróleo do mundo, ficando somente atrás da “Arábia Saudita”, o país não conseguiu ainda, de modo eficaz, viabilizar esse recurso natural, à semelhança do que aconteceu no passado. Deve-se recordar que, na década de 1970, o petróleo permitiu que o Iraque se tornasse um país com infraestruturas modernas, com bons sistemas de Educação e de Saúde, realidades que as três guerras consecutivas, a má gestão econômica e financeira e as sanções internacionais durante os anos de 1990, fizeram com que fossem destruídas[7]. Hoje, a reconstrução exige o fim do longo período de violência e a reedificação das estruturas econômicas e sociais, de modo que o petróleo possa dar o fôlego financeiro para esta reconstrução[8].

A difícil situação econômica e financeira que o Iraque atravessa no pós-guerra necessitou do auxílio do “Fundo Monetário Internacional” que concedeu ao país um empréstimo de US$ 741 milhões[9], ressaltando-se que no programa de assistência estão incluídos dois compromissos primordiais: (1) o auxílio às autoridades iraquianas para manter a estabilidade macroeconômica e (2) a reconstrução das instituições econômicas indispensáveis para o crescimento econômico e a geração de emprego[10].

As questões sociais também são relevantes pois, segundo o “Relatório de Desenvolvimento Humano 2013”, o “Índice de Desenvolvimento Humano” (IDH) do Iraque, em 2012, estava em 183o[11], portanto, muito abaixo do padrão adequado ao desenvolvimento humano. Em realidade, conforme confluem as opiniões de observadores internacionais, a reconstrução do Iraque requer um longo período de trabalho, com a finalidade de alcançar a paz social de modo a poder oferecer condições dignas para todos os cidadãos do país.

——————–

Imagem (Fonte):

http://www.demdigest.net/blog/wp-content/uploads/2010/12/mn-iraq-vote-bag_0499739181.jpg

——————–

Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2013/03/invasao-dos-estados-unidos-ao-iraque-completa-10-anos.html

[2] Ver:

http://www.pime.org.br/mundoemissao/atualidasiadificil.htm

[3] Ver:

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2013/03/invasao-dos-estados-unidos-ao-iraque-completa-10-anos.html

[4] Ver:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-03-20/dez-anos-apos-invasao-americana-iraque-segue-instavel-e-sem-democracia-consolidada

[5] Ver:

http://www.theodora.com/wfbcurrent/iraq/iraq_economy.html#channel=f279fd6b71698c8&origin=http%3A%2F%2Fwww.theodora.com&channel_path=%2Fwfbcurrent%2Firaq%2Firaq_economy.html%3Ffb_xd_fragment%23xd_sig%3Df3e39cf59df0ef%26

[6] Ver:

http://www.jpost.com/Diplomacy-and-Politics/Iraq-says-unable-to-stop-Irans-arms-shipments-to-Syria-319697#channel=f185b803fff458e&origin=http%3A%2F%2Fwww.jpost.com&channel_path=%2FDiplomacy-and-Politics%2FIraq-says-unable-to-stop-Irans-arms-shipments-to-Syria-319697%3Ffb_xd_fragment%23xd_sig%3Df160535b936aec4%26

[7] Ver:

http://www.imf.org/external/np/country/notes/iraq.htm

[8] Ver:

http://www.imf.org/external/np/country/notes/iraq.htm

[9] Ver:

http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2010/10/673801-fmi+aprova+emprestimo+de+us+741+milhoes+ao+iraque.html

[10] Ver:

http://www.imf.org/external/np/country/notes/iraq.htm

[11] Ver:

http://mirror.undp.org/angola/LinkRtf/HDR2013_Port.pdf

Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!