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Diante do que vem sendo disseminado na mídia, emerge a percepção de que os recentes atentados ocorridos em Paris serviram como pano de fundo para o fomento de novos recortes analíticos acerca dos rumos das relações internacionais, frente às possibilidades de manutenção do modelo vigente de ordem mundial.

Ao expor as possibilidades que podem surgir após o tenebroso ataque terrorista, um recorte fundamental é sobre quão sólida está a hegemonia estadunidense frente aos inúmeros desafios beligerantes que cobiçam um novo traçado para o sistema internacional.

Na conjuntura multilateral, os desequilíbrios estão em todas as regiões. Há poucos meses, a Europa lidava com uma ameaça iminente de agressão russa, com ataques cibernéticos, coerção energética e militar convencional, ao passo que também enfrenta uma das maiores crises imigratórias desde a Segunda Grande Guerra. Na Ásia, a agressiva expansão chinesa mar adentro, com ilhas artificiais sendo construídas no Mar Meridional da China, é interpretada como projeto imperial de controle do espaço aéreo e marítimo de uma região cujos atores tem mais afinidade com os norte-americanos. A Coreia do Norte, do presidente Kim Jongun, continua o legado da Dinastia Kim, de projeção nuclear aliada à ambiciosa retórica de aniquilação de seus inimigos, principalmente Washington. Contudo, o maior dos desafios para a liderança dos Estados Unidos está no Oriente Médio, pois o papel desestabilizador iniciado com a exploração, colonialismo, tumultos e golpes fez da Líbia, Síria, Iraque, Iêmen e Afeganistão centros de ruínas e agitações geopolíticas intermináveis.

Mediante tais prerrogativas e mesmo questionado sobre seu real poderio frente às rotineiras mudanças na ótica geopolítica, o ideário de superpotência global, ao menos no âmbito militar, político e ideológico é ainda de controle estadunidense. Entretanto, ao desmembrar o sistema internacional, a interdependência, aliada a uma modalidade ainda anárquica de relacionamento é algo latente e recorrente. Dessa forma, na América do Sul, o Brasil domina as ações; na Europa do leste, a Rússia explicitamente tenta reconstruir sua identidade; a China busca consolidar uma hegemonia regional; enquanto a Índia tem o potencial para tornar-se um grande player, mais equilibrado e prospero; além disso, África do Sul, Turquia e Irã manobram e competem por vantagens e liderança regionais. Nesse sentido, o escopo global tem limitado a capacidade de Washington, em virtude das exigências e imposição dos demais players internacionais, em que, pela frouxidão da hegemonia, aliada ao multilateralismo, diminuiu o sentimento de uma liderança legítima. Por exemplo, a experiência no Iraque e Afeganistão, com todo o poderio bélico empregado, não condicionou resultados esperados.

À luz desse novo ambiente internacional, os Estados Unidos mostram não ter uma estratégia para esta competição global e também não estarem produzindo mecanismos para elaboração de um novo pensamento estratégico. De acordo com o que vem surgindo a partir das  informações e análises disseminadas, é possível concluir que, concomitantemente, seriam necessárias decisões acerca da identificação de pontos fortes a serem considerados, sobre o estabelecimento dos limites do poder estadunidense e sobre a determinação de quais regiões exigirão confrontação e quais cooperação. A coerção, nesse novo panorama internacional, não será uma opção e o desafio será construir uma abordagem global coerente com recursos para apoiá-la.

Para que tais oportunidades teóricas saiam do papel, observa-se que há três fatores determinantes neste novo ambiente global:

  1. Moldar um novo papel para os Estados Unidos. O desafio é excluir o paradoxo de manutenção do status de superpotência, combinado com a diminuição da influência global. Para alguns analistas consultados, os Estados Unidos provavelmente continuarão como a única superpotência nos próximos 15 anos, em virtude de sua herança demográfica, economia, inovação, recursos naturais, pelo alcance cultural e, principalmente, pelo potencial militar, porém sua capacidade de influencia diminuirá.
  2. Um segundo fator é a opinião pública, ou seja, constituir apoio popular para o engajamento internacional do país que, historicamente, salienta a importância de defender os interesses dos cidadãos norte-americanos. As bases garantidoras do apoio popular estão alinhadas à política externa, a garantir a segurança do território e dos seus cidadãos, à defesa dos tratados, à segurança dos aliados, a garantir a ordem econômica liberal, em que empresas estadunidenses podem competir, e à defesa do Estado de Direito em questões internacionais, incluindo o respeito aos Direitos Humanos.
  3. Por fim, o engajamento seletivo em política externa. O envolvimento internacional deve ponderar os riscos e custos de oportunidade e priorizar ações. O ambiente orçamentário torna o papel hegemônico problemático, nesse sentido, os investimentos em segurança podem ser feitos dentro de uma cadeia de reformas institucionais mais agressivas, pois isso viabiliza que, uma vez sendo necessário o uso da força, os objetivos possam ser alcançados.

Os Estados Unidos de hoje entendem que sua liderança global não é imutável. Os atentados de 2001, bem como seus desdobramentos são compreendidos definitivamente. Além disso, que a liderança deve voltar a ser de ideias, regras e instituições internacionais fortes. Uma visão ocasional, sem um foco sustentável, não criará condições para o restabelecimento dos pilares que sustentam sua liderança, democracia, autodeterminação e Estado de Direito, levando à conclusão de que o excesso de confiança e o estabelecimento de metas irrealizáveis não criarão um ambiente persuasivo.

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Imagem (Fonte):

https://ep00.epimg.net/internacional/imagenes/2014/07/26/actualidad/1406383059_319576_1406405517_noticia_normal.jpg

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Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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