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A morte do leão Cecil e os dissabores do turismo predatório

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Figura-se entre os principais atrativos de qualquer atividade turística a busca pelo exótico, ou seja, o “externo à visão individual”, como a própria etimologia da palavra define. Assim, o raro possui uma capacidade incrível de atração, como se fora um corpo celeste imbuído de um campo gravitacional surpreendente.

O continente africano apareceria então como um desses corpos com poder de atração. Suas paisagens sempre atraíram turistas de toda a parte do mundo, animados pelo imaginário exótico historicamente associado à região.

Porém, a atividade turística apresenta uma inusitada idiossincrasia: é justamente o aumento no número de turistas em um determinado local que causa a depredação gradativa dessa localidade e de todos os seus fatores naturais, históricos ou culturais que serviram primeiramente como atrativos.

No Chile, por exemplo, no Vale do Elqui, habitantes locais passaram a presenciar a chegada de alguns turistas no final da década de 80, que viajavam à região depois de descobrirem que dificilmente outro lugar do mundo oferecia uma observação tão completa das estrelas como aquela. Atualmente, o Vale do Elqui abriga tantos hotéis, restaurantes e outras facilidades para turistas que a poluição visual emitida pelas cidades do Vale restringe consideravelmente a observação dos corpos estelares[1].

Problemas da mesma linhagem podem ser constatados no continente africano. Turistas, em sua maioria de origem europeia e norteamericana, rumam ao continente para observarem leões, elefantes, girafas, rinocerontes e outros animais tidos por eles como exóticos. Alguns, especificamente, não se contentam em contemplá-los e, por isso, decidem praticar a caça esportiva.

A expressiva demanda de turistas pela caça esportiva serve como incentivo para habitantes locais estruturarem parques, grupos e passeios específicos para a caça. O negócio movimenta milhões de dólares ao ano, beneficiando diversos moradores, que, sem outros meios de subsistência disponíveis, veem essa atividade econômica como atrativa. Da outra parte, a profissionalização cada vez maior da caça esportiva atrai novos caçadores, empurrando a atividade como um todo a um novo patamar a cada ano[2].

Contudo, a caça esportiva faz vítimas, a saber, a fauna africana, cuja existência se vê ameaçada pelo crescimento dessa atividade. Se, por um lado, os defensores da caça apegam-se aos números e à renda auferida à população local para advogar em prol da atividade, do outro, os ambientalistas e cidadãos como um todo sustentam argumentos contra a atividade sob noções morais como justiça ambiental e direitos dos animais.

O debate em torno da caça esportiva aumentou consideravelmente após a morte do leão Cecil, na semana passada, pelo dentista estadunidense Walter Palmer[2][3]. Talvez nenhum outro caso presenciou uma repercussão na mídia tão intensa como o caso relacionado à morte de Cecil. Inclusive autoridades políticas, como o PrimeiroMinistro da GrãBretanha, David Cameron, declararam o apoio às práticas conservacionistas e à defesa dos direitos dos animais[4].

O caso, em si, apresenta algumas particularidades que explicam a magnitude de sua repercussão. Primeiro: Cecil era um leão de 13 anos de idade, conhecido pela sua rara juba preta, sendo um dos animais acompanhados constantemente por cientistas da Universidade de Oxford, da Inglaterra, que visam compreender a queda abrupta no número de leões no continente africano nos últimos anos. Segundo: relatos oficiais do Zimbabwe Conservation Task Force apontam que Palmer ludibriou Cecil para fora do Parque Nacional de Hwange, local onde teoricamente Palmer não poderia caçá-lo, para executar o animal. Terceiro: Cecil foi decapitado, e sua carcaça deixada ao relento. Quarto: para ter a oportunidade de caçar Cecil, Palmer pagou cerca de 55 mil dólares a agentes de caça locais[2][3].

Tudo isto serviu como estopim para ativistas “hackearem” a página online profissional de Palmer, bem como para rodearem o seu consultório, em Minnesota, proferindo palavras de indignação, repúdio e ódio ao caçador[2]. Assim, a expressão “I’am Cecil” (“Eu sou Cecil”), ao estilo “Je suis Charlie” (“Eu sou Charlie”), brotava em diversos cartazes[2]. Mais ao lado, o rosto de Cecil era pintado em uma imensa tela branca[2]: um rosto pintado com o aspecto de mártir, de caráter heroico, bravo, como se Cecil fora de fato o mártir dos próprios ativistas, cuja morte representa os dilemas ambientais vivenciados no continente africano[2].

Dilemas que não são poucos, pois não somente o aumento da caça esportiva apresenta riscos reais ao meio ambiente na África, mas, sim, também a crescente exploração de petróleo, de minerais, o desmatamento, a desertificação do Sahel e a acelerada urbanização.

Vê-se que, acima de tudo, a morte de Cecil é apenas mais um capítulo da longa história de conflito entre o homem e a natureza, o moderno e o rústico, o ordinário e o exótico, que se desenrola não somente no continente africano, mas no mundo como um todo.

Uma história onde a atuação do homem é determinante para o surgimento e manutenção do conflito. Talvez a resposta dos pesquisadores da Universidade de Oxford sobre o decrescimento populacional dos leões seja encontrada em pessoas como o próprio Palmer. Espera-se, no entanto, que a atuação do homem também seja capaz de cessar este conflito que ele mesmo iniciou.

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Imagem (Fonte GRIND TV):

http://www.grindtv.com/wildlife/zimbabwes-most-beloved-lion-cecil-killed-by-a-trophy-hunter/#wOqkvZ2V8RURcyAH.97

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Fontes Consultadas:

[1] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2015/06/28/travel/in-chiles-elqui-valley-intergalactic-sightseeing-is-the-star.html

[2] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/environment/2015/jul/30/cecil-the-lion-outcry-hunters

[3] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2015/07/30/us/cecil-the-lion-walter-palmer.html?ref=africa

[4] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/politics/2015/jul/30/david-cameron-promises-protect-wildlife-cecil-the-lion-killing

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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