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A nova rota da seda como prefácio de reestruturação da ordem mundial

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A nova rota da seda, termo utilizado pela literatura geopolítica para classificar um novo nível de parceria estratégica, traz à tona uma reflexão sobre a possibilidade desse modelo reestruturar a ordem internacional, tal como é conhecida desde o início do século XX.

A analogia com a antiga rota da seda, originada com a expansão para o Oeste da Dinastia Han, da China, criou conexões comerciais no que são hoje países da Ásia Central, Quirguistão, Tajiquistão, Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Afeganistão, Paquistão, chegando até a Índia, ao sul. Para alguns historiadores, a Ásia Central foi o epicentro da globalização, conectando mercados no Oriente e Ocidente, estimulando riquezas, promovendo misturas culturais e religiosas. Nesse sentido, o intercâmbio propiciado gerava trocas comerciais valiosas, seda, especiarias e outras mercadorias rumavam para o oeste, enquanto a China recebia ouro, metais preciosos, marfim e produtos a base de vidro.

New Silk Roats

New Silk Roats

Para os atuais dias, o conceito de New Silk Road (Nova Rota da Seda) vincula não apenas um entrelaçado de iniciativas de integração econômica e comercial da Ásia Central à Europa, mas um complexo entendimento de como as relações internacionais, principalmente entre Estados Unidos e China, por razões distintas podem mudar os rumos da condução política internacional.

Em meados de 2011, Washington lançou visão abrangente sobre um novo modelo de integração econômica asiática, um modelo de política externa de viés econômico, cujo enfoque era diminuir sua influência no Oriente Médio e projetar seus interesses para regiões mais prósperas de comércio, e, por conseguinte, a Ásia, pela estabilidade e pela pujança econômica, passou a ser foco dos interesses norte-americanos, até como parte de um modelo sustentável para preservar o status de superpotência mundial, fragilizado após a crise financeira de 2008.

Entretanto, no outro lado da balança de poder está a China, que, na figura do presidente Xi Jinping, no ano de 2013, foi mais assertivo na articulação de uma interpretação própria da Nova Rota da Seda, liderada pela China, e que tinha o propósito de agilizar o comércio exterior, assegurar o abastecimento de energia, promover o desenvolvimento da infraestrutura asiática e consolidar a influência regional, projetando o poder de Beijing sobre seus pares regionais.

Essa potencial nova vertente de reconfiguração das disposições geopolíticas e comerciais é interpretado como colisão, sobretudo entre norteamericanos e chineses, com planos destacadamente antagônicos para desenvolvimento de matrizes energéticas na Ásia Central, na criação de infraestrutura no Paquistão e no envolvimento político com os governos locais de outras áreas na Eurásia.

Embora tais projetos tenham o potencial para remodelar uma das áreas menos integradas do atual sistema internacional, o capital político e os investimentos econômicos a serem feitos devem ser calculados com base na possibilidade de enfrentamento de rivalidades locais, obstáculos logísticos, além do risco em segurança e incertezas políticas.

Os Estados Unidos tem como iniciativa para o centro da Ásia a proposta do Gasoduto TurcomenistãoAfeganistãoPaquistãoÍndia (TAPI, na sigla em inglês) vislumbrando dividendos para o Afeganistão, ainda foco da política externa da Casa Branca, e, como o Turcomenistão é o segundo maior depositário de reservas de gás natural do mundo, a diversificação das suas exportações através do TAPI lhe permitiria integração com a Índia e o Paquistão e não apenas com a China. Diminuir a influência econômica de Beijing é o grande fator da estratégia dessa integração.

A explícita batalha diplomática, política e econômica entre Orientais e Ocidentais sobre os rumos da Nova Rota da Seda fez com que a China em 2014 concluísse investimento na ordem de US$ 30 bilhões com o Cazaquistão, US$ 15 bilhões com o Uzbequistão e US$ 3 bilhões com o Quirguistão, bem como financiamento de US$ 1,4 bilhão na reforma do porto de Colombo, capital do Sri Lanka, além de anunciar criação de um fundo, o Fundo da Estrada da Seda (Silk Road Fund), na ordem de US$ 40 bilhões.

A estratégia é um esforço de duas pontas. A primeira centra-se no desenvolvimento da infraestrutura terrestre da Ásia Central e a segunda na expansão das rotas de transporte marítimo, usando o Oceano Índico e o Golfo Pérsico como corredor da Rota Marítima da Seda.

Dentro da ótica chinesa de projeção hegemônica, a congruência política com a Rússia é um fator a mais para consolidar as estratégias de integração, não apenas nos aspectos energéticos, mas na esfera da Defesa, investimento, finanças e alta tecnologia. No âmbito da Cooperação RússiaChina (Organização de Cooperação de Shanghai SCO, na sigla em inglês) o alcance da parceria ganha uma proporção mais ampla, a julgar pela Iniciativa de Transporte Euroasiática, uma estrada de ferro de alta velocidade transiberiana, conectando Moscou e Pequim a todo o resto do bloco em 48 horas.

Enquanto isso, para o novo Secretário de Defesa dos EUA, Ashton Carter, que descreve a região da Nova Rota da Seda como “esta parte do mundo”, a medida mais plausível de reequilíbrio de forças, seguindo a cartilha do conceito de realismo de Hans Morgenthau no livro a “A Política entre Nações”, é implantar novas armas, Sistemas de Defesa Antimísseis (THAAD), bombardeiros invisíveis e unidades cibernéticas de guerra, medidas provavelmente pouco eficientes diante do surgimento da cooperação econômica eurasiana.

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Imagem 1 (Fonte):

https://i.telegraph.co.uk/multimedia/archive/01552/silk_1552089c.jpg

Imagem 2 (Fonte):

https://si.wsj.net/public/resources/images/P1-BR865_CAPEC_16U_20141107194517.jpg

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Fontes Consultadas:

Ver:

http://sputniknews.com/columnists/20150410/1020714196.html

Ver:

http://www.cfr.org/asia-and-pacific/building-new-silk-road/p36573

Ver:

http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2015/06/the-blame-trap/392081/

Ver:

http://www.cfr.org/russian-federation/russia-ukraine-us-policy/p36485

Ver:

http://blogs.cfr.org/davidson/2015/05/27/five-takeaways-from-chinas-bold-new-military-strategy/

Ver:

https://csis.org/publication/us-trainers-ukraine

Ver:

http://revistafal.com/el-banco-brics-por-una-globalizacion-con-menos-desigualdades-2/

Ver:

http://revistafal.com/nuevo-orden-mundial/

Ver:

http://www.ess.uci.edu/~oliver/silk.html#3

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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