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A Passagem de Shirin Ebadi pelo Brasil: Polêmicas e Princípios

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A visita ao Brasil de Shirin Ebadi, a jurista iraniana ganhadora do “Prêmio Nobel da Paz” em 2003, trouxe à tona uma série de questões aos analistas que se debruçam sobre o tema dos “Direitos Humanos” e sobre a “Política Brasileira”, tanto interna quanto externa, devido às polêmicas que atualmente estão ocorrendo no Brasil.

 

O principal questionamento acerca da presença da iraniana em terras brasileiras se deu pelo fato de Shirin ter recebido a notícia de que não seria recebida pela presidente Dilma Rousseff.

Não houve explicações claras para a recusa, tendo como justificativa a ausência de espaço (no caso tempo) na agenda para receber a “Prêmio Nobel”, que ainda se encontra no Brasil ministrando palestras e contando sua trajetória de luta pelos “Direitos Humanos” no Irã, bem como as perdas que obteve ao longo de sua vida, graças às ações do governo iraniano, que, durante o segundo mandato de governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recebeu apoio, declarações de amizade e aproximação política concreta, justificada por trocas comerciais crescentes, de acordo com as manifestações do então mandatário brasileiro em muitos momentos desses últimos três anos, em especial quando da visita ao Brasil de Mahmoud Ahmadinejad, Presidente do Irã.

Na ocasião desta visita, ressalte-se, Dilma Rousseff manifestou-se contrária à presença de Ahmadinejad, mostrando repúdio pela sua visita, mesmo sendo uma das peças fundamentais do Governo brasileiro daquele momento.

Exatamente por ter adotado tal postura, a oposição destacou a contradição na atitude da Presidente, com vários questionamentos. Antônio Imbassay, um dos principais líderes do partido opositor, o “Partido da Social Democracia Brasileira” (PSDB), deputado federal pela Bahia e ex-governador deste Estado, não aceitou a justificativa do Governo e destacou que em conversa com a iraniana, ouviu dela que a presidente Dilma sofreu pressões do embaixador iraniano no Brasil, já que Ebadi veio com a intenção declarada de pedir à mandatária que defendesse os “Direitos Humanos” no Irã durante a “Assembléia das Nações Unidas”, a ocorrer em setembro, configurado explicitamente no voto do Brasil contrário ao Irã (que representa o voto contra o governo e não contra o seu povo) no “Conselho de Direitos Humanos da ONU”.

Diante da situação, o Deputado opositor afirmou: “Não é possível que o governo brasileiro ceda a pressões e feche as portas para a expressão máxima, símbolo internacional dos direitos humanos”, lembrando que a Presidente havia recebido artistas e “Agora ela não tem 10 minutos para falar com Shirin Ebadi, isso é um absurdo. Essa seria uma oportunidade ímpar para a presidente sinalizar para o mundo uma política diferenciada daquela defendida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se aproximou de figuras sem apreço pela democracia mundial”.

Durante a audiência realizada na “Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional”, foi lida carta da ministra dos “Direitos Humanos” do Brasil, Maria do Rosário, de que receberia Ebadi e estava se deslocando para concretizar a intenção, como forma de contornar a polêmica. A questão, porém, não foi amenizada.

Ebadi manteve a postura e mostrou-se decepcionada. Sabe que ser recebida por uma Ministra não tem a mesma representatividade de ser recebida pela Chefe de Estado, da mesma forma que não produz os mesmos resultados, talvez gerando efeitos contrários. Deve-se ressaltar que a agenda de um Chefe de Estado é reservada a Chefes de Estado, significando muito alguém fora deste status conseguir audiência, algo que reforça a tese do deputado Imbassay, que usou da lógica para fragilizar as justificativas apresentadas pelo governo, pois, em termos de importância na política internacional, um “Prêmio Nobel da Paz” se apresenta como um tipo de ator mais relevante na “Sociedade Internacional” que artistas como Shakira e Bono Vox, que pese o status de Bono e sua representatividade em relação à Irlanda.

Ademais, Shirin Ebadi, tal qual destacou o líder brasileiro da Oposição e ex-governador do estado da Bahia, representaria “um marco definitivo de separação entre duas políticas externas”: a do governo anterior, pautada pelo pragmatismo e por identificações de amoralidade, e a do atual governo, que se apresentou como sendo norteado pelos valores universais dos “Direitos Humanos”.

Mas é imprescindível buscar o entendimento da ação da Presidente brasileira, pois alguns analistas começam a afirmar que talvez ela tenha buscado exatamente isto. No atual momento de grande conturbação política no país, a “Chefe de Estado” vê-se na delicada tarefa de contemplar exigências de seu partido; manter uma costura adequada de sua base coligada; traçar estratégia para anular as lideranças aliadas (principalmente de seu partido – o “Partido dos Trabalhadores / PT) que parecem trabalhar para prejudicar o seu governo; evitar confrontos explícitos no cenário internacional, os quais refletem na postura da base que lhe apóia no país e evitar mostrar-se como contraditória em relação ao marco moral que apresentou no início de seu mandato presidencial: os “Direitos Humanos”.

Analistas apontam também que a recusa não pode ser explicada pelas informações momentâneas que refletem apenas os estados de espírito daqueles que se pronunciaram, mas pela estratégia da governante brasileira para resolver os problemas com seus “amigos” apoiadores que estão trabalhando nos bastidores para interferir no governo.

Ao recusar audiência com a iraniana, mesmo com as críticas que recebeu pelas frágeis justificativas apresentadas, afastou uma discussão imediata com o governo iraniano, num momento em que o Oriente Médio – atualmente a crise da Síria – está vivendo turbulências que exigirão um posicionamento brasileiro no “Conselho de Segurança da ONU”.

O Brasil está sofrendo pressões das grandes potências e será obrigado a resolver a equação de tomar posição que não represente aliança com ditaduras e evite arcar com o ônus de ter concordado indiretamente com um possível futuro desrespeito a autodeterminação dos povos.

Entrar em polêmica com o governo iraniano neste momento colocaria a Presidente na posição de acabar sendo obrigada a imediatamente concordar com as grandes potências ocidentais sobre a forma de agir na região (não se pode esquecer que o Irã é, hoje, um dos poucos aliados da Síria), algo que o Brasil deseja evitar para não perder o espaço conquistado ao longo dos últimos vinte anos, como sendo o principal representante dos países pobres, dos latino-americanos e das potências médias, mesmo que três dos demais países emergentes (China, Rússia e Índia) que são membros do grupo informal  BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) também queiram se apresentar como líderes dos mais fracos, mas todos concordam que a China quer expandir seu domínio econômico, a Rússia deseja restaurar a posição de coordenadora do “sistema internacional” e a Índia deseja alcançar crescimento para expandir-se em breve, em momento propício, da mesma forma que estão fazendo os chineses. Liderança, no sentido de condução equilibrada e igualitária dos países menos afortunados, apenas o Brasil tem manifestado tal intenção de forma transparente.

Os observadores afirmam que, da perspectiva presidencial, o importante neste cenário não está no exterior, mas no próprio país. Qualquer indicação de que o Brasil perdeu o protagonismo conquistado ao longo dos últimos vinte anos, como a própria presidente reconheceu na carta enviada ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na comemoração de seu aniversário, destacando o que ele fez para a economia brasileira, dará munição ao grupo do partido da presidente que não deseja a mudança de rumos, na política externa e a retomada de sentido na política econômica, pois Dilma dá mostras de querer sanear a economia novamente, atuando no Estado que começou a inflar ao logo dos últimos três anos, podendo levar à perda do que foi conquistado economicamente pelos quatro últimos governos brasileiros, pois, conforme parte significativa dos observadores, nos últimos três anos começou a haver afastamento das linhas mestras definidas pelo governo Fernando Henrique Cardoso e aumento potencializado da máquina pública.

De acordo com especialistas, Dilma Sabe que deve se afastar paulatinamente dos seus antigos apoiadores, sem rupturas bruscas, para poder imprimir ao atual governo o  perfil que lhe é característico: menos político ideológico, mais técnico e de Estado.

Assim, começam a concordar vários especialistas, que ela preferiu postergar para o futuro as contendas com o governo Ahmadinejad, enquanto dedica suas energias para anular os líderes aliados que querem manter influência no país, complicando a linha que quer adotar a Presidente e, por essa razão, a minar a sua administração.

Os analistas começam a apontar ainda que, apesar das críticas que recebeu, Dilma está aguardando o momento para mostrar o que deve ser feito, esperando que até lá as influências externas ao governo, mas permanentes no Partido, refluam e respeitem a seqüência da História.

Quanto a Shirin Ebadi, os observadores sabem e agradecem a ela pelo que veio fazer no Brasil, por ser a representante não da Democracia e Liberdade do Irã, mas dos valores que conduzem à estabilidade e, por isso, à Paz mundial.

Acreditam que sua visita não foi desperdiçada, pelo contrário, para os brasileiros, fez surgir, graças à indignação causada pelo não encontro entre as duas personalidades (Dilma e Ebadi) especulações sobre as razões da recusa e podem ter trazido a luz algumas articulações que ocorrem nos bastidores brasileiros.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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