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A notícia da semana passada que despertou maior atenção por parte da mídia latino-americana foi o anúncio de que a restrição imposta pela OEA (Organização dos Estados Americanos) à ilha de Cuba foi extinta.

Analistas, políticos vinculados a setores populares e líderes de esquerda fizeram declarações de que, finalmente, havia se encerrado a Guerra Fria.

 

Há várias questões que precisam ser tratadas ao falarmos do tema. Inicialmente, é preciso lembrar que, se tomarmos como referência os últimos vestígios dos fatos históricos que configuraram a Guerra Fria, o foco deve estar centrado na Coréia do Norte e não em Cuba. Aquela, e não essa pode e deve ser considerada como o último traço. O país (Coréia do Norte) nasceu de uma divisão resultante das reflexões geopolíticas de estrategistas tanto norte-americanos quanto soviéticos do imediato Pós Segunda Guerra Mundial.

Nesse período ainda se pensava num mundo socialista monolítico (sem divisões internas), admitia-se a divisão da política de poder mundial em termos de poderes terrestres e marítimos e, por essa razão, quase como conseqüência imediata, que as grandes estratégias dos soviéticos stalinistas e de capitalistas norte-americanos concentravam-se na expansão para os mares quentes, no primeiro caso, e na contenção dessa expansão, no segundo.

Isso explicou os seguidos investimentos dos EUA em alianças militares circundando o território que então compunha o bloco socialista e também que se envolvessem em quaisquer guerras nas penínsulas asiáticas, com o intuito de impedir que a expansão chegasse aos mares quentes. De forma concreta, para estabelecer “cabeças de praia” permitindo os desembarques, bem como o posicionar tropas “ocidentais” aptas a enfrentar os comunistas em seus territórios, ou em suas fronteiras.

Em determinado momento houve uma acomodação, principalmente após a morte de Stalin, mas o importante é que a isso foi agregada a questão tecnológico-militar, principalmente a nuclear, trazendo a certeza de que iniciar uma guerra seria perigoso demais, pois resultaria na destruição global. A dúvida residia na possibilidade de alguém dar a primeira tacada (first strike) e destruir a capacidade de resposta do inimigo.

Cuba e sua revolução se inseriram neste contexto. Quando Fidel Castro anunciou que simpatizava com os soviéticos e ocorreu à crise dos mísseis, a Ilha passou a representar a possibilidade de o Bloco Socialista ter a chance da primeira tacada, pois ela está a poucos minutos de um ataque ao território americano.

Essa foi a razão que levou os EUA forçarem a OEA (Organização dos Estados Americanos) a excluir os Cubanos do Organismo. Em seguida, veio o bloqueio econômico dos norte-americanos.

O que foi anunciado na semana passada foi que Cuba novamente é bem vinda à Organização, cabendo ao seu governo a decisão de retornar ou não. Dos pronunciamentos ouviu-se a felicidade geral e a exigência coletiva de que faltava apenas o fim do bloqueio comercial dos EUA.

Dos discursos, o dos cubanos deve ser levado em conta. Recusaram a reentrada no Órgão, desprezando sua importância política. Esse ponto de partida deve ser considerado. Ademais, aqueles que acompanharam o processo sabem que o acordo pela entrada de Cuba foi exaustivamente negociado. Ele não ocorreu tão facilmente, pois havia diferenças de posicionamentos que freavam qualquer avanço. Tanto por parte dos norte-americanos quanto por parte do atual grupo de esquerda que se apresenta na América Latina (especialmente Venezuela, Bolívia, Equador e a própria Cuba).

As negociações chegaram ao termo que agora conhecemos, mas o que não tem sido falado é que tratar da questão cubana está plenamente inserida na atual política externa do Presidente Barak Obama que está reeditando o estilo Democrata, pelo qual os EUA se apresentam como negociadores globais e preferem coordenar um processo de governança que investir na projeção dura de poder.

Poucos tocaram no fato de representantes democratas entrarem com projeto de lei no Congresso dos EUA para barrar ação de republicanos que impedem o retorno das relações entre cubanos e EUA. Isso para começar a pavimentar a estrada que porá fim ao bloqueio comercial que os EUA impõem a Ilha há mais de quatro décadas. Esses são os passos que estão em vista de serem dados, tudo dentro da estratégia de Barak Obama.

Mesmo nos setores mais conservadores sempre houve ressalvas a esse bloqueio. Várias são as vozes que alegam que, se os EUA o mantiverem, chegarão atrasados quando o regime castrista se encerrar, além do fato de terem chegado à conclusão de que quem mais lucrou com a ação foi o governo de Cuba, pois teve uma razão justificadora para qualquer fracasso que pudesse ser identificado em sua política.

A questão que nos toca não diz respeito à questão cubana, mas sim a política externa estadunidense. São esses os passos que devem ser observados pelos analistas, políticos e executivos brasileiros, uma vez que os atos desse atual governo tendem à negociação política, a diplomacia e junto com ela podem ser pensados investimentos, negócios de longo prazo e comércio internacional.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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