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A situação do Kosovo com relação ao Esporte e a reconhecimento internacional do país

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Na última semana, o território de Kosovo conseguiu mais uma vitória para seu reconhecimento como Estado: foi admitido como membro provisório da família olímpica. O Comité Olímpico Internacional (COI) reconheceu na última quarta-feira Kosovo e isso permite uma possível participação nas próximas Olimpíadas, em 2016, que acontecerão no Rio de Janeiro. Para que isso aconteça efetivamente basta o “país” fazer o pedido durante a próxima sessão do COI, que acontecerá em dezembro desde ano (2014) e, certamente, será aceito como um membro do Comitê[1].

O território se tornou independente em 2008 e até hoje não é reconhecido pela Sérvia, que, inclusive, mostrou seu descontentamento com a decisão do Comitê e já bloqueou diversas vezes a possibilidade de o território majoritariamente albanês alcançar reconhecimento internacional[2].

Como visto em artigo publicado no CEIRI NEWSPAPER na semana passada[3], tal qual foi teorizado por Maria Todorova, os nacionalismos na região dos Bálcãs são comunidades imaginarias, algo que trouxe instabilidade após o período da Iugoslávia de Tito, quando existia uma aparente união entre os diferentes povos[4].

Durante os anos 1990s, a região foi palco de atrocidades que mudaram a geopolítica regional e criaram uma rede de refugiados nos países do oeste da Europa. No fim da década, um território que está dividido entre Albaneses e Sérvios foi palco de guerra e da intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU)* para implementar uma paz duradoura e facilitar o processo de independência, o qual foi efetuado em 2008[5].

Um dos grandes problemas da Independência do Kosovo para os Sérvios é o fato de que, na sua narrativa nacionalista, Kosovo se encontra no centro da origem da Sérvia. Para os Albaneses, por sua vez, Kosovo faz parte da Grande Albânia, tal qual também foi mencionado no artigo do CEIRI NEWSPAPER[3].

A participação deste “Estado” no cenário internacional ainda está bloqueada por parte dos aliados da Sérvia e, até o momento, Kosovo é membro apenas de organizações internacionais de esporte que não tem o peso financeiro e midiático, tal qual tem o Comitê Olímpico Internacional a Federação Internacional de Futebol Associada (FIFA) e os seus respectivos produtos, os Jogos Olímpicos e o Futebol.

Como já falado, as Guerras Iugoslavas do fim do século XX causaram um êxodo de refugiados para países como Suíça e França e os filhos destes acabaram se tornando esportistas de alto nível, tendo a opção de representar os seus países de adoção ou jogar pela Albânia.

Independente da opção que cada atleta fez, até março de 2014 não existia a chance de jogar oficialmente pela seleção do Kosovo. Com a aceitação por parte da FIFA da possiblidade de a seleção kosovar jogar suas primeiras partidas oficiais mesmo não sendo membro efetivo, houve uma reviravolta, pois tornou possível a escolha destes filhos do Kosovo de jogarem pelo seu “país de origem[6].

A presença do Kosovo em Federações Esportivas como a FIFA, o COI e a Federação Europeia de Futebol Associado (UEFA) depende ainda de sua aceitação política por parte da ONU e da ratificação da independência do Kosovo por parte da vizinha Sérvia e de seus aliados. Independente dessas exigências, alguns passos estão sendo dados para a presença do país em eventos internacionais, como ocorrido na semana passada com a entrada do Kosovo como membro provisório do COI e na decisão da FIFA de aceitar que ele possa jogar partidas amistosas oficiais.

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* Um pouco do trabalho da ONU no Kosovo e a utilização do Esporte para atingir a Paz pode ser visto em:

http://www.unmultimedia.org/radio/english/2014/07/link-between-sport-and-peace-highlighted-in-kosovo-by-un/#.VEz7ZfmsWSo

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ImagemParticipantes de manifestação do Comité Olímpico do Kosovo em 2013” (Fonte –  Reuters/Hazir Reka):

http://uk.reuters.com/article/2014/10/22/uk-olympics-kosovo-idUKKCN0IB14620141022

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Fontes Consultadas:

[1] Sobre a entrada do Kosovo no COI, ver:

http://www.reuters.com/article/2014/10/22/us-olympics-kosovo-membership-idUSKCN0IB29220141022;

Ver também:

http://www.olympic.org/news/ioc-grants-provisional-recognition-to-kosovo-olympic-committee/239827

[2] Importante lembrar que países como Rússia, China, Índia e Sérvia não reconhecem a Independência do Kosovo. Apenas 108 países da Organização das Nações Unidas reconhecem, dentre eles: EUA, França, GrãBretanha.

[3] Ver artigo publicada na semana passada no CEIRI NEWSPAPER:

http://jornal.ceiri.com.br/relacao-entre-o-esporte-e-nacionalismo-a-crise-nos-balcas/

[4] Sobre a Iugoslávia de Tito, ver:

http://www.foreignaffairs.com/articles/51216/aleksa-djilas/tito-s-last-secret-how-did-he-keep-the-yugoslavs-together

[5] Sobre os conflitos no Kosovo, ver:

http://www.historytoday.com/robert-bideleux/kosovos-conflict

[6] Alguns dos atletas de origem kosovar se posicionaram sobre a Independência do país e a possiblidade de jogar pelo Kosovo. Porém, a grande maioria já tem um certo histórico de partidas pela seleção do país de adoção e decidiu não mudar de seleçãoSobre futebol do Kosovo, ver:

http://www.nytimes.com/2012/09/20/sports/soccer/kosovo-wants-a-national-soccer-team-and-to-call-its-players-home.html?_r=0 (James Montague);

Ver também:

http://inbedwithmaradona.com/journal/2012/10/1/kosovo-sovereignty-and-football.html (Damiano Benzoni);

Ver também:

http://thinkfootball.co.uk/the-state-of-football-in-kosovo-and-geri-vranovcs-fight-for-footballing-freedom/  (Vinesh Parmar)

Thomas Farines - Colaborador Voluntário Júnior 1

Mestrando em Estudos Políticos do Oriente Médio e do Mediterrâneo no King’s College London. Especialista em História e Política do Oriente Médio e Maghreb. Possui Bacharelado em Historia pela UFSC. Participou de diversos projetos de pesquisa ligados ao CNPQ: A imagem do Outro em relatos de viajantes; Diáspora Africana no Brasil e Movimento Sem Terra. Hoje, além de trabalhar academicamente com Esporte para o Desenvolvimento e para a Paz, é treinador voluntário em um projeto que ensina jovens de bairros desprivilegiados a jogar futebol.

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