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Acordo Nuclear Iraniano: o impacto internacional

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Após quatro dias de negociações, o Irã e o grupo de países conhecido como P5+1 (i.e., “Estados Unidos”, China, Rússia, França e “Reino Unido” – os 5 países membros permanentes do “Conselho de Segurança da ONU”, mais a Alemanha) assinaram um “Acordo Nuclear Provisório”, com duração de 6 meses, tempo no qual ambos os lados tentarão chegar a um Acordo permanente[1].

Resumidamente, o Acordo prevê a interrupção do enriquecimento de urânio a mais do que 5%; a neutralização das reservas de urânio enriquecido a esse ponto; uma monitoração diária por inspetores internacionais das instalações nucleares de Natanz e Fordo e a redução da velocidade da construção do reator de Arak[1][2]. Em troca, não serão impostas novas sanções sobre o Irã, que, além disso, receberá um alívio de US$ 7 bilhões em sanções, a começar em dezembro deste ano (2013)[1][3].

Contudo, apesar de muito celebrado pelas partes envolvidas, tal combinação preocupa países de região e pode afetar a política internacional no “Oriente Médio”.

Por um lado, há que se considerar que, embora a “Arábia Saudita” venha sendo tratada como aliada fundamental dos “Estados Unidos” na região durante os últimos trinta anos, as discordâncias entre os dois países têm crescido com as transformações no “Oriente Médio”, como a guerra no Iraque e a “Primavera Árabe”. Nesse sentido, os sauditas, que já viam com desconfiança a hesitação americana em intervir na Síria e sua posição em relação à “Irmandade Muçulmana” no Egito[4], parecem particularmente preocupados com a aproximação entre Irã e “Estados Unidos”, concluindo-se que a “Arábia Saudita” não pode mais contar com o apoio automático americano em sua disputa por poder com o Irã na região do Golfo[5][6][7].

Por outro lado, chama-se a atenção para o descontentamento israelense com o que foi acordado, que desfaz o mito até então prevalecente de que “a política americana para o Oriente Médio é decidida em Tel Aviv, e não em Washington[6][7]. O Primeiro-Ministro Israelense, Benjamin Netanyahu, vê o acordo como umerro histórico”, e afirmou quenão pode e não irá tolerar que um regime que clama pela destruição de Israel obtenha os meios de atingir esse objetivo[8]. Nesse sentido, Israel prometeu usar sua inteligência para descobrir quaisquer possíveis violações do acordo por parte do Irã[9].

Acrescente-se que alguns analistas acreditam que o acordo nuclear pode abrir caminhos em direção a uma posição mais semelhante entre o Irã e o ocidente, em relação à Síria – notadamente, com uma redução do apoio iraniano ao regime de Assad[2][6]. Em contrapartida, e ironicamente, para as forças rebeldes na Síria, para as quais tal apoio faz do Irãpraticamente um sinônimo” do regime sírio, a aproximação entre EUA e o país persa foi vista com maus olhos, posto que dificultará a exclusão do Irã em conversas de paz sobre o conflito sírio, como deseja a oposição[10].

Nesse cenário, o presidente americano Barack Obama, que agora enfrenta a difícil tarefa de convencer legisladores estadunidenses a não imporem novas sanções sobre o Irã[11], tenta enfrentar as críticas internas e externas (de que o acordo foi muito benevolente para com os iranianos) argumentando que as sanções que se manterão sobre o país causarão um prejuízo de cerca de US$ 30 bilhões, muito mais do que o Irã está a ganhar com o acordo[2].

Ao mesmo tempo, o “Ministro das Relações Exteriores do Irã”, Mohammad Javad Zarif, parece querer demonstrar quanto o Irã ganhou com a negociação, em termos de soberania, afirmando que o Acordo reconhece o direito iraniano de enriquecimento e urânio[8], ponto que já havia sido mencionado como razão do fracasso da rodada anterior de negociações[12], muito embora os americanos tenham negado essa alegação.

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Imagemlíderes políticos se cumprimentam após estabelecimento do acordo nuclear” (Fonte):

http://thecable.foreignpolicy.com/posts/2013/11/24/deal_reached_to_halt_irans_nuclear_program

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25074729

[2] Ver:

http://www.nytimes.com/2013/11/25/world/middleeast/israeli-leaders-decry-iran-accord.html?hp

[3] Ver:

http://www.washingtonpost.com/world/europe/france-expects-end-to-some-iran-sanctions-in-dec/2013/11/25/018bf3ba-55b7-11e3-bdbf-097ab2a3dc2b_story.html?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=Mideast%20Brief%2011-25-2013

[4] Sobre as tensões sunita-xiita que subjazem à postura saudita, em relação a ambos os casos, ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/observando-a-dimensao-sunita-xiita-da-politica-no-oriente-medio/

[5] Ver:

http://mideast.foreignpolicy.com/posts/2013/11/26/iran_and_the_us_saudi_bargain

[6] Ver:

http://mideast.foreignpolicy.com/posts/2013/11/27/consequences_of_the_iran_deal

[7] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25083894

[8] Ver vídeo em:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25075776

[9] Ver:

http://www.nytimes.com/2013/11/25/world/middleeast/israeli-leaders-decry-iran-accord.html?hp

[10] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25086240

[11] Tais sanções poderiam ser vetadas pelo presidente, “mas essa é uma batalha que a Casa Branca adoraria evitar”.

[12] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/o-acordo-nuclear-iraniano-e-a-postura-francesa/

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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