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[:pt]África do Sul: rebaixamento de nota de duas agências de avaliação de risco reflete instabilidade política do país[:]

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Ao longo da semana passada, as agências de avaliação de risco Standard and Poor’s e Fitch Ratings rebaixaram a nota dos títulos de dívida em moeda estrangeira da África do Sul para nota de especulação, passando de BBB- para BB+. Ambas justificaram o rebaixamento a partir da mudança do Gabinete de Ministros do presidente Jacob Zuma, principalmente relacionado à substituição do Ministro das Finanças, que deixou de ser Pravin Gordhan, passando a função para Malusi Gigaba, ex-Ministro do Interior. A agência Moody’s, também com a mesma justificativa, assinalou uma revisão de suas notas para os títulos sul-africanos, ainda que uma ação definitiva só acontecerá após o fim do período de revisão, que pode se estender até 90 dias.

O rebaixamento de nota de duas agências de avaliação de risco reflete a situação política instável na qual se encontra a África do Sul. O Congresso Nacional Africano (CNA), maior Partido do país e principal legado de Nelson Mandela, se mantém no comando do Congresso e da Presidência desde o fim do regime do Apartheid e realização das primeiras eleições democráticas gerais, em 1994. Divergências dentro do Partido, entretanto, começaram a surgir nos anos 2000. Grupos que não concordavam com as diretrizes econômicas liberais seguidas pelos diferentes governos do CNA ganharam força com a eleição de Jacob Zuma à Presidência do Congresso Nacional Africano, em 2007, e do país, em 2009, com reeleição em 2014. Desde então, tensões entre Zuma e seus opositores, principalmente a elite econômica e parte da elite política da África do Sul, se elevaram.  

A mais atual evidência desse escalonamento são os protestos que demandam a saída do Presidente. Os partidos, movimentos sociais e veículos midiáticos opositores à Zuma, que lideram a chamada para esses protestos, utilizam a mudança de Gabinete, a demissão de Gordhan e o rebaixamento da nota das agências, além da corrupção e da crise econômica do país, como exemplos da inabilidade do Presidente em liderar a África do Sul. A hashtag #zumamustfall (Zuma deve cair) tem sido usada nas redes sociais para chamar protestos e greves contra o Governo Zuma, ainda que, de acordo com o analista político Daniel Silke, em entrevista para o Sunday Times, os protestos expressem majoritariamente a opinião da classe-média, ainda não tendo se espraiado para as classes mais baixas da população.

As consequências econômicas desses rebaixamentos já podem ser percebidas. A moeda sul-africana, o Rand, depreciou de 13,3 rands/dólar, no dia 1o de abril, para 13,9 rands/dólar, no dia 10 do mesmo mês, mostrando o que pode ser o início de uma espiral de perda de valor da moeda. Outra consequência é que, visto que a nota dos títulos soberanos de um país normalmente é a nota mais alta possível de todos títulos deste país, houve também o rebaixamento de nota de títulos de bancos e instituições financeiras sul-africanas.

O Banco Central da África do Sul, porém, afirmou para o jornal Fin24 que, apesar dos rebaixamentos não serem boas notícias para a economia sul-africana, o Banco possui reservas suficientes para equilibrar possíveis fugas de capital. Consequências mais graves, enfim, podem surgir caso a Moody’s venha a também rebaixar a nota sul-africana. Analistas da JPMorgan estimaram para o Financial Times que, caso a empresa siga a ação das outras duas agências, até 2,4 bilhões em títulos sul africanos podem ser vendidos nas bolsas internacionais.

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Imagem 1 Protesto na Cidade do Cabo no dia 7 de abril” (Fonte Discott):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:360_photograph_of_Zuma_Must_Fall_protests_in_Cape_Town.jpg

Imagem 2Presidente Jacob Zuma” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacob_Zuma#/media/File:Jacob_G._Zuma_-_World_Economic_Forum_Annual_Meeting_Davos_2010.jpg

Imagem 3 Logo do Banco Reserva da África do Sul, o Banco Central” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/South_African_Reserve_Bank

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Livi Gerbase - Colaboradora Voluntária

Mestranda em Economia Política Internacional pela UFRJ e Bacharel em Relações Internacionais pela UFRGS. Ex-pesquisadora do Núcleo Brasileiro de Estratégia e Relações Internacionais e do Centro Brasileiro de Estudos Africanos. Atualmente é estagiária do the South-South Exchange Programme for the Research on the History of Development (SEPHIS). Se interessa por assuntos relacionados aos países em desenvolvimento e recentemente tem focado no sistema financeiro internacional.

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