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[:pt]AFRICOM afirma que instabilidade na Líbia ameaça os interesses dos EUA na África[:]

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Recentemente, o Comando dos Estados Unidos para África (AFRICOM, na sigla em inglês) declarou que a instabilidade na Líbia representa uma ameaça aos interesses dos Estados Unidos da América (EUA) e seus aliados na região norte do continente africano. Durante audiência ocorrida no dia 9 de março, na Comissão dos Serviços Militares do Senado estadunidense, o general Thomas Waldhauser, Chefe do AFRICOM, afirmou que o aumento de grupos armados e das rivalidades entre as facções líbias exacerbam as preocupações relativas à segurança no país.

Em seu discurso, Waldhauser alertou que o AFRICOM enfrenta uma série de desafios regionais e continentais. Para o General, a África é um interesse duradouro para os Estados Unidos. Nesse sentido, ele argumentou que investimentos, mesmo que pequenos, mas sabiamente empregados na legitimidade e capacidade de defesa das instituições africanas, oferecem benefícios aos EUA e seus aliados. E, nesse aspecto, Waldhauser chamou a atenção do Senado assinalando que o mais importante nessa abordagem é que ela oferece soluções africanas para problemas africanos.

No que se refere à Líbia, o Chefe do Comando destacou que a estabilidade no país deve ser uma proposição de longo prazo. Assim, ressaltou que o AFRICOM apoia os esforços desse país para restabelecer um Governo legítimo e unificado. Além disso, pontuou a importância do AFRICOM ser cuidadoso em escolher onde e com quem irão trabalhar para combater o ramo do Estado Islâmico na Líbia, a fim de não alterar as forças de equilíbrio entre as diversas facções e, consequentemente, não aprofundar do conflito líbio.

Nos anos 2000, o governo de Muamar Kadafi procurou se aproximar do Ocidente. Os Estados Unidos retomaram as importações de petróleo, em 2004, após a retirada das sanções econômicas impostas na década anterior. Dois anos mais tarde, os dois países reataram suas relações diplomáticas, após a retirada da Líbia da lista de países financiadores do terrorismo. Naquele momento, o Governo líbio comprometeu-se a não desenvolver Programa Nuclear e também assumiu a responsabilidade pelo atentado de 1988 contra o avião da companhia estadunidense Pan Am, sobre a cidade de Lockerbie, na Escócia.

Em 2011, concomitantemente a eclosão da chamada Primavera Árabe, ocorreram manifestações em um levante armado na região leste do território líbio, orquestrado por uma parte dissidente do próprio regime. Em resposta, Kadafi organizou um contra-ataque, que foi fortemente condenado pela mídia internacional. A guerra civil se aprofundou e a violência se propagou nos meses seguintes, até que, em outubro, as forças anti-Kadafi anunciaram a formação de um Conselho Nacional de Transição da Líbia, formado por 33 tribos líbias.

Em março de 2011, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) já havia iniciado uma campanha contra as forças de Kadafi. A OTAN valeu-se da aprovação da Resolução 1973 no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), para justificar o apoio de países como Itália, França, Estados Unidos, Reino Unido e Canadá às forças rebeldes. O desfecho da guerra civil se deu com a morte de Kadafi e o reconhecimento internacional do Conselho de Transição como um Governo legítimo.

Ainda em outubro de 2011, Mustafa Abdel Jalil anunciou que a Sharia (Lei Islâmica) seria a legislação do novo Governo. Assim, alguns direitos conquistados anteriormente seriam revogados, como, por exemplo, o Divórcio e a Lei do Casamento, que garantia direitos às mulheres.  O novo Governo, contudo, não demorou a mostrar suas rachaduras, assim, em 2015, se estabeleceram dois governos, um a leste e outro a oeste. No entanto, a eclosão de uma nova guerra civil, em 2014, fomentou o estabelecimento de grupos extremistas, entre eles o Estado Islâmico.

O esfacelamento da segurança permitiu o movimento dos combatentes estrangeiros. Para Waldhauser, esse movimento pode se espalhar da Tunísia ao Egito, ou seja, grande parte do Magrebe.

O Magrebe conforme ilustra a figura ao lado, compreende parte noroeste da África, na qual encontram-se a Líbia, o Marrocos, o Saara Ocidental, a Argélia, a Tunísia e a Mauritânia. Alguns desses países, como Saara Ocidental, Mauritânia e Líbia são ricos em recursos minerais e naturais. A Líbia detém uma das maiores reservas de petróleo da África e a quinta maior reserva de gás natural do continente. Além disso, parte do seu território, assim como o Egito, Chade e o Sudão encontram-se sobre o Sistema Aquífero Arenito da Núbia, que é a maior reserva mundial de água subterrânea, com uma capacidade de, aproximadamente, 150 mil km³.

A Europa é o maior mercado consumidor de hidrocarbonetos oriundos da Líbia, particularmente Alemanha, França e Itália. De acordo com a Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos (EIA, na sigla em inglês), em 2010, a Líbia produziu cerca de 1,8 milhões de barris de petróleo dia (bpd), dos quais, aproximadamente 1,5 milhões de bpd foram exportados. Naquele ano, 85% das exportações tiveram como destino a Europa, sendo que a Itália foi o maior consumidor, com 376 mil barris dia, seguida pela Alemanha, França e Espanha. Já os Estados Unidos importaram cerca de 70 mil bpd. Desde então, em função do aprofundamento da guerra civil, o fornecimento de petróleo foi interrompido diversas vezes, o que afeta a economia do país, haja vista que 96% das receitas do país provem da venda de hidrocarbonetos. Em 2014, a Líbia exportou em média 375 mil barris de petróleo bruto por dia. Já em 2015, a produção chegou a 400 mil barris dia, no entanto, esses números ainda são bem abaixo dos exportados antes de 2011.

Em seu discurso, no início do mês, Waldhauser pontuou que organizações extremistas regionais no continente africano representam uma ameaça mais direta aos interesses dos EUA, que, nesse caso, estão diretamente ligados ao controle dos recursos minerais e naturais do país. O General salientou também que é preciso enfrentar essas ameaças, é preciso uma estratégia militar do AFRICOM articulada a longo prazo, que abarque o escopo regional e também que tenha uma abordagem focada na segurança e estabilidade da África. Nesse aspecto, o General ainda destacou que o AFRICOM pode construir uma capacidade para dirigir, administrar e operar instituições de defesa capazes e sustentáveis.

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Imagem 1 Insígnia do U.S. AFRICOM” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Comando_dos_Estados_Unidos_para_a_%C3%81frica#/media/File:Seal_of_the_United_States_Africa_Command.svg

Imagem 2 Muammar alGaddafi” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Muammar_al-Gaddafi#/media/File:Muammar_al-Gaddafi_at_the_AU_summit.jpg

Imagem 3 Bandeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_do_Tratado_do_Atlântico_Norte#/media/File:Flag_of_NATO.svg

Imagem 4 Magrebe, a parte ocidental do mundo árabe” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Magrebe#/media/File:Magrib.png

Imagem 5 Libyan oil exports by destination, January 2010 November 2010 / Exportações de petróleo da Líbia por destino, Janeiro de 2010 Novembro de 2010” (Fonte):

https://www.eia.gov/todayinenergy/detail.php?id=590

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Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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