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Ahmadinejad modera seu discurso na ONU

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O “Presidente do Irã”, Mahmoud Ahmadinejad, adotou tom moderado em seu discurso na “67a Assembleia Geral das Nações Unidas”, apesar da grande expectativa criada desde a sua chegada em Nova Iorque, quando por declarações iniciais à imprensa acreditava-se que  manteria o tom de ameaças diretas de confronto militar contra as potencias ocidentais e em especial contra Israel.

O discurso apresentado preservou a postura de contestação da ordem mundial, acusação às grandes potências, reprovação da civilização ocidental e condenação de Israel, mas buscou adquirir uma nova organização interna e objetivo retórico, não mais do guerreiro ameaçador, do homem capaz de impingir uma derrota avassaladora, ou capaz de criar uma condição de perda coletiva generalizada, para buscar assumir um papel de “líder dos países da periferia”, embora, como dito, tenha mantido a posição contra Israel, os EUA, a Europa e os valores ocidentais.

 

Conforme apontam vários canais de mídia, o tom curioso foi o de ter feito uma manobra retórica em relação às constantes declarações que Israel deveria desaparecer do mapa. Objetivou reduzir esta afirmação ao desaparecimento da ocupação da Palestina, reduzindo ainda esta questão a um compromisso pelos israelenses em admitir um Estado palestino com plenos direitos de soberania sobre um território e com capacidade de Defesa.

A questão passou então a adquirir um contexto de imprecisão conceitual acerca do desaparecimento de Israel ao ponto de poder receber qualquer interpretação, atitude típica de personalidades que buscam criar frentes de oposição, reunindo descontentes: usa-se de afirmações genéricas, firmando pontos que permitam a reunião dos descontentes, mas não se fala ou desenvolve precisamente aqueles aspectos que possam gerar a formações de blocos internos na frente que se deseja formar, acerca da metodologia a ser usada, ou seja, evita-se fincar posições que minariam qualquer processo aproximação dos descontentes e por isso impediriam uma ação coletiva.

Ahmadinejad manteve um discurso carregado de metáforas religiosas como forma de preservar o discurso dicotômico do bem (supostamente o Irã) contra o mal (da sua perspectiva, o Ocidente) e tentou dar um caráter digerível a esta dicotomia e às posturas contrárias aos princípios democráticos e aos direitos humanos que são caros ao Ocidente ao anunciar que seu Regime combate pobreza, bem como que esta é uma conseqüência do capitalismo (ou do individualismo ocidental, embora não tenha usado esta expressão) e do unilateralismo das grandes potências. Com isso tentou garantir a aproximação com a esquerda mundial.

Típico desta postura foram declarações como: “pobreza é imposta às nações e as ambições e as metas das potências são buscadas seja por meio de artifícios ou pelo recurso à força. (…). A situação abissal atual do mundo e os incidentes amargos da história se devem principalmente ao gerenciamento errôneo do mundo e dos autoproclamados centros de poder que se entregaram ao diabo”*. Da mesma forma, também é representativo disto a tentativa de ser a voz dos mais fracos, ao exigir igualitarismo na ONU, quando chegou a afirmar que “A ONU pertence a todas as nações. Se uma nação é discriminada, isso é um insulto a todas as nações”*.

A maneira de agir no discurso anulou o suspense se tornaria a Assembléia tensa, defendendo seu “Programa Nuclear” e anunciando que atacaria Israel. Ao contrário, evitou tocar no assunto, afirmando apenas que  era direito do Irã manter o Programa (e isto apenas nas declarações feitas em entrevistas dada após o discurso) e tentou jogar o peso do belicismo para Israel, acusando-o de querer a Guerra por “intimidar o Irã, por meio de armas nucleares”*, afirmando ainda que “As ameaças persistentes feitas pelos Sionistas incultos de recorrer a uma ação militar contra a nossa grande nação ilustram claramente esta realidade amarga”*.

Enquanto se esperava que atacasse o Ocidente a respeito do vídeo que levou às manifestações generalizadas no “Oriente Médio”, Ahmadinejad adotou posicionamento diplomático de condenação do vídeo, mas também da violência desencadeada, surpreendendo muitos dos observadores e dos ocidentais.

Declarou acerca do assunto: “Primeiro de tudo, condenamos qualquer ação provocativa que ofenda as crenças religiosas de qualquer povo, mas do mesmo modo condenamos qualquer tipo de extremismo. (…). Não nos agrada que ninguém perca sua vida ou que seja assassinado por nenhuma razão em nenhum lugar do mundo”**.

Enquanto discursava, países se retiraram, mesmo com o tom adotado, acompanhando as ausências dos delegados dos EUA, Canadá e  Israel que decidiram boicotar o discurso do iraniano. No entanto, franceses, britânicos e alemães não o fizeram por considerar que seu discurso não foi polêmico.

Do lado de fora da ONU, muitos manifestantes apupavam o líder persa acusando-o de estar mentindo e de não representar os anseios do povo iraniano, exigindo ainda a saída do Presidente e a mudança do Regime no país***.

Em entrevistas individuais dadas aos repórteres que acompanhavam a manifestação, faziam os participante afirmações como: “O criminoso Ahmadinejad não representa o povo do Irã. Temos uma mensagem para as Nações Unidas: este regime impiedoso deve ser expulso das Nações Unidas e o assento do Irã deve ser transferido para a resistência iraniana”*** (Zahra Amanpour); “Estamos aqui para dizer ao mundo que tudo o que (Ahmadinejad) dirá hoje à ONU são mentiras”*** (Sarah Jarbandim), acompanhando as palavras de ordem, slogans e frases escritas em cartazes como: “Ahmadinejad não, não, não”***; “Mudança de regime no Irã”*** e “O sócio silencioso da Al-Qaeda”***.

Analistas especulam sobre a razão de o Presidente ter adotado esta postura e começam a confluir para a ideia de que o mandatário está preparando sua saída do poder, uma vez que haverá eleições presidenciais no Irã em junho de 2013, mas, provavelmente, está aplicando uma estratégia do Regime de colocar o país como liderança mundial dos excluídos, sendo esta a forma de evitar um pouco mais as prováveis ações que emergem no cenário para depois das eleições presidenciais nos EUA, a ser realizada no final deste ano (2012).

Acreditam os observadores que o Governo pode estar imaginando ser esta postura uma saída para continuar ganhando tempo para concluir seu “Programa Nuclear”, tanto que Ahmadinejad já vem mostrando querer tornar o Irã o líder dos países não alinhados e desejando ser participante de um grupo mediador de contendas internacionais. Um exemplo é a proposta de criação do Grupo para resolver a transição na Síria, do qual seria membro.

Ou seja, á medida que reunir muitos Estados ao seu lado, poderá evitar a adoção de medidas radicais pelos EUA, Israel e pelo Ocidente. Além disso, caso ocorra qualquer ação bélica, jogará as responsabilidades para os ocidentais. Assim, acreditam os iranianos que com esta estratégia conseguirão frear as investidas que apontam no horizonte.

Em síntese, interpretam os analistas que a mudança de postura faz parte de uma estratégia para ganhar mais tempo, criando uma barreira de Estados contra possíveis investidas dos EUA, de Israel e dos países europeus.

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Fontes:

* Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI6181531-EI8141,00-Sob+boicote+Ahmadinejad+ataca+ordem+mundial+na+ONU.html

** Ver:

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2012/09/25/ahmadinejad-o-que-deve-desaparecer-e-a-ocupacao-da-palestina.htm

*** Ver:

http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5jyKT7haS8-vDjRfZwKi1N_npn5ng?docId=CNG.2c4de76d035d6ac54366d6fad265d6ba.1c1

**** Ver:

http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=2791904&seccao=%C1frica

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Ver também:

http://www.publico.pt/Mundo/ahmadinejad-diz-que-homossexualidade-e-um-assunto-de-capitalistas–1564481

Ver também:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI6183004-EI294,00-Ahmadinejad+denuncia+intimidacao+ocidental+mas+evita+provocacoes.html

Imagem: https://jornal.ceiri.com.br/wp-content/uploads/2012/09/presidente-do-ira.jpg

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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