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A Arábia Saudita entre a China e os Estados Unidos

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As relações bilaterais entre China e Arábia Saudita apresentaram sinais de aproximação ao longo do mês de novembro de 2017. No dia 11, o periódico vinculado ao Partido Comunista Chinês (PCC), Global Times, publicou editorial elogiando as reformas econômicas anunciadas pelo Príncipe Mohammed Bin Salman. Além disso, a publicação enalteceu a inflexão na política externa da monarquia islâmica: “os sauditas abandonaram a tradição de alinhamento com os Estados Unidos e contra a Rússia. O Rei Salman visitou Moscou pela primeira vez no mês passado para fortalecer a relação entre as duas nações”.

O Rei Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, e Vladmir Putin, Presidente da Rússia

Posteriormente, no dia 16, a agência oficial do Governo chinês reportou que o Rei Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, telefonou para o Presidente da China, Xi Jinping, para congratulá-lo pela realização do 19º Congresso do Partido Comunista Chinês. Na ocasião, o Monarca declarou que seu país está pronto para se tornar um importante parceiro da China na região do Golfo, bem como está comprometido em aprofundar a parceria estratégica entre as duas nações. Xi Jinping, por sua vez, afirmou que a China apoia os esforços da Arábia Saudita para proteger sua soberania nacional e se desenvolver.

Nota-se que a aproximação entre Beijing e Riad ocorre em uma conjuntura de reorganização do poder político interno em ambos os países. No caso chinês, analistas percebem que a concretização da Iniciativa do Cinturão e da Rota e a consolidação da autoridade de Xi Jinping após o 19º Congresso do PCC indicam que a nação asiática se considera pronta para assumir a liderança do processo de globalização nos próximos anos.

No âmbito saudita, observa-se que o Rei Salman centralizou sua autoridade após a escalada de tensões entre facções opositoras as atuais diretrizes políticas do país. Além disso, o Príncipe e Conselheiro de Assuntos Econômicos e Desenvolvimento, Mohammad bin Salman bin Abdulaziz Al-Saud, anunciou contundente conjunto de reformas, visando reduzir a dependência econômica do reino em relação às exportações de petróleo.

Nesse contexto, é importante lembrar que a aliança com a Arábia Saudita é peça central da estratégia econômica e política dos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra Mundial. Por um lado, o compromisso assumido pelo Governo saudita de negociar todas suas exportações de petróleo na moeda norte-americana em 1974 continua basilar para a manutenção do dólar como meio de troca predominante na economia mundial. Por outro, o apoio da Monarquia islâmica é militarmente estratégico para os EUA serem capazes de enfrentar a expansão dos interesses de países rivais no Oriente Médio.

Por conta disso, a perspectiva de aprofundamento da cooperação estratégica entre Beijing e Riad constitui elemento fundamental para a compreensão do futuro da ordem internacional contemporânea. Em outras palavras, a inclinação política da Arábia Saudita é indicador importante acerca da correlação de forças entre EUA e China.

Do ponto de vista chinês, boas relações com Riad asseguram os recursos energéticos necessários para manutenção das altas taxas de crescimento econômico, enraízam a influencia do país asiático no Oriente Médio e permitem o avanço da estratégia de internacionalização da moeda chinesa (yuan). Em relação ao último ponto, Carl Weinberg, economista chefe da consultoria High Frequence Economics, considera que “a precificação do petróleo em yuan acontecerá assim que os sauditas estiverem de acordo. A partir de então, o resto do mercado irá segui-los”.

Arábia Saudita e China

Na perspectiva saudita, os dividendos de uma aproximação com a China estão relacionados com a obtenção de maior autonomia em relação aos Estados Unidos, bem com a atração de capital externo para execução das reformas econômicas pretendidas. Exemplos de iniciativas nesse sentido já podem ser identificados. Apenas entre março e agosto de 2017, os dois países anunciaram acordos equivalentes a 70 bilhões de dólares e a criação de um fundo conjunto de investimentos de 20 bilhões de dólares. Ademais, caso seja confirmada a abertura das ações da petroleira saudita Aramco, as estatais chinesas Sinopec e PetroChina já anunciaram o interesse na aquisição de 5% do negócio.

No entanto, nota-se que a Arábia Saudita ainda depende dos Estados Unidos no âmbito securitário. Atualmente, a monarquia está diretamente envolvida com o acirramento dos conflitos com Irã, Iêmen e Qatar. Assim, em junho deste ano (2017), o presidente estadunidense Donald Trump negociou acordos estimados em 100 bilhões de dólares para venda de equipamentos militares de alta tecnologia para as Forças Armadas Sauditas.   

Portanto, percebe-se que o aprofundamento das relações entre China e Arábia Saudita possui implicações importantes para a política internacional contemporânea. De fato, caso a exportação do petróleo saudita em yuan se torne uma realidade, o próprio status do dólar enquanto moeda predominante na economia mundial estará ameaçado. No entanto, tal iniciativa encontra como obstáculo principal a dependência de Riad em relação ao apoio militar de Washington para execução de sua política de defesa.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1O Rei Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Salman_of_Saudi_Arabia#/media/File:Salman_bin_Abdull_aziz_December_9,_2013.jpg

Imagem 2O Rei Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, e Vladmir Putin, Presidente da Rússia” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vladimir_Putin_and_Salman_of_Saudi_Arabia_(2017-10-05)_1.jpg

Imagem 3Arábia Saudita e China” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/c/cc/China_Saudi_Arabia_Locator_%28orthographic_projection%29.png/600px-China_Saudi_Arabia_Locator_%28orthographic_projection%29.png

Pedro Brancher - Colaborador Voluntário

Doutorando em Ciência Política pela Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisa nas áreas de Segurança Internacional, Economia Política Internacional e Política Externa Brasileira. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre Ásia, especialmente sobre China, país em que residiu durante um ano e que é seu objeto de estudo desde 2013.

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