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Armênios rememoram 101 anos do Genocídio e ainda aguardam reconhecimento turco

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Ao redor de todo o mundo, foram rememorados no último 24 de Abril de 2016 os 101 anos do Genocídio do povo armênio, perpetrado pelo Império Otomano. Manifestações foram registradas em Yerevan, Jerusalém, Beirute, IrãTurquia, Moscou, Grécia, Buenos Aires, Itália e inúmeros outros países para homenagear as vítimas do massacre de 1,5 milhão de armênios, entre os anos 1915 e 1923, e exigir que o Governo turco reconheça a atrocidade como Genocídio.

O Presidente armênio, Serzh Sargsyan e a primeira-dama Rita Sargsyan depositaram flores no Memorial do Genocídio Armênio de Tsitsernakaberd, na capital do país, Yerevan. Representantes de diversos países e organizações internacionais foram para a Armênia para prestarem suas homenagens. A segunda edição do Fórum Global “Contra o Crime de Genocídio” foi realizado em Yerevan, contando com a presença de parlamentares de todo o mundo, juristas, especialistas em genocídio e intelectuais. O evento em memória das vítimas também contou com a presença do renomado cantor francês Charles Aznavour, de ascendência armênia, e do astro de Hollywood George Clooney. Clooney faz parte do Comitê do Prêmio Aurora, criado pelo governo local em tributo aos sobreviventes. Para ele, a data marca um fato que “é parte da história da Armênia e também parte da história mundial, não é apenas a dor de uma nação”.

Sargsyan usou o 101º aniversário do primeiro genocídio do século XX para chamar a atenção internacional para um surto recente de hostilidades na disputada região de Nagorno-Karabakh. O enclave multiétnico, povoado por armênios e azeris, tem estado em um limbo político desde que o conflito entre os grupos, que resultou em dezenas de milhares de vítimas, terminou em 1994 com a independência autodeclarada da região. O Azerbaijão, aliado Turco, no entanto, ainda declara a região como sob seu domínio, não recuando em sua intenção de retomar o controle do território. “Declaro para que todo o mundo ouça: não haverá purga ou deportação dos armênios de Artsakh (Nagorno-Karabakh). Nós não permitiremos outro genocídio armênio. Nós – significa a nação armênia, todos os seus segmentos, nós – significa a nossa consolidação armênia”, disse o presidente em comunicado.

Na Grécia, centenas de armênios e simpatizantes marcharam por Atenas para denunciar a Turquia e condenar o Azerbaijão por supostamente escalar o conflito em torno da região de Artsakh. Em Moscou, milhares de pessoas se reuniram carregando bandeiras armênias e russas para marcar o aniversário.  Cerca de 300 pessoas se reuniram no Monastério de St. James no bairro armênio em Jerusalém e realizaram uma cerimônia rememorando os 101 anos do início do genocídio. A cerimônia foi realizada após uma missa celebrada pelo Patriarca Armênio de Jerusalém, Nourhan Manougian. Centenas de armênios iranianos se reuniram na Catedral de St. Sarkis, em Teerã, para marcar o aniversário e condenar o recente incremento nas hostilidades na região de Nagorno-Karabakh. Os que se reuniam dentro e fora da igreja pediam ao Governo turco de Ancara que reconhecesse o massacre como genocídio. No domingo, membros da comunidade armênia e ativistas sociais protestaram em frente ao Consulado turco em Jerusalém e da Embaixada da Turquia em Tel Aviv.

Cerca 700 pessoas, convocadas pela comunidade armênia na Argentina, marcharam em Buenos Aires até a residência do embaixador turco reclamando por justiça. No Brasil, os 101 anos do Genocídio Armênio também foram recordados pela Casa Legislativa da Cidade de São Paulo, por iniciativa do vereador Gilberto Natalini e do Conselho Nacional Armênio do Brasil (CNA – Brasil). A Câmara Municipal também rendeu importante homenagem aos Mártires Armênios de 1915 e à cultura do país.

De acordo com sobreviventes, familiares e estudiosos do acontecimento, em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, cerca de 2 milhões de armênios viviam sob o Império Otomano, mas esse número diminuiu para menos de 500.000 ao longo dos oito anos seguintes. Os assassinatos em massa teriam iniciado em 24 de abril de 1915, quando 250 intelectuais armênios foram detidos pelas autoridades otomanas e mais tarde executados na então capital Constantinopla, atual Istambul.

A maioria dos armênios restantes sob o Império Otomano foi posteriormente deslocada, deportada, islamizada ou colocada em campos de concentração, sobretudo por se rebelar contra os otomanos e aliar-se aos russos durante a Primeira Guerra Mundial. Os massacres, em 4 fases, argumentam, foram planejados e perpetrados pelo Governo dos Jovens Turcos nas diferentes regiões do Império. Sua ideologia pan-turca entrou em frontal colisão com as aspirações por maior autonomia pelas minorias dentro do império, que, já em decadência, desde finais do século XIX, recrudescia suas políticas.  Cerca de 500 mil grego-ortodoxos foram obrigados a ir para a Grécia e minorias curdas também foram perseguidas.

A Turquia – sucessora do Império Otomano – admite oficialmente que muitos armênios foram “maltratados” na ocasião, mas afirma que o número de vítimas tem sido “grosseiramente exagerado” e que não houve “genocídio” ou esforço sistemático oficial para eliminar a minoria armênia. Ankara estima o número de armênios mortos entre 1915 e 1917 esteja entre 300.000 e 500.000, o mesmo número de vítimas turcas, e considera o massacre como “fatalidades” da Primeira Guerra Mundial; em oposição aos 1,5 milhão de mortos reivindicados pelos armênios.

Segundo analistas, o reconhecimento das deportações e massacres como crimes contra a humanidade não somente prejudicaria a reputação internacional de Ancara, como também tornaria o país legalmente obrigado a conceder reparações. Alguns grupos armênios de direitos humanos estimam que tais reparações valham trilhões de dólares.

França, Rússia, Alemanha, Argentina, Uruguai, Suíça, Parlamento Europeu e, recentemente, o Brasil, estão entre os 28 países que reconhecem o massacre de armênios em 1915 como genocídio. Inúmeras organizações como o Conselho da Europa, o Parlamento Europeu, diversas comissões das Nações Unidas, União Nacional das Igrejas e Parlamento do MERCOSUL reconhecem o genocídio por estar consubstanciado por relatos de vítimas oculares, relatórios de deportações, imagens, documentos, leis e resoluções internacionais.

O primeiro país do mundo a oficialmente criticar e reconhecer o genocídio armênio baseado na lei internacional foi o Uruguai, em 1965. Seguiram o exemplo, entre outros, os Parlamentos da Rússia (1994), Polônia, Lituânia, Eslováquia, Holanda (1994), Grécia (1996), França (2001), Itália (2001), Vaticano, Bélgica, Suíça (2003), Suécia (2010), Austrália, Luxemburgo, Áustria, Chipre, Líbano, Canadá (2004), 44 estados dos Estados Unidos, Uruguai, Argentina (2005, duas leis e 5 resoluções), Venezuela, Chile e Bolívia (2014). Atualmente, 3,2 milhões de armênios vivem na Armênia, e a diáspora é calculada em mais de oito milhões de pessoas, que residem agora nos Estados Unidos, Oriente Médio, França, Canadá e América Latina.

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ImagemCerimônia em Yerevan relembra o massacre dos armênios pelos turcos no Domingo 24 de Abril de 2016” (FonteKAREN MINASYAN/AFP):

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/04/george-clooney-participa-de-ato-para-recordar-o-genocidio-armenio.html

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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