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“Arquipélago Diaoyu”, de um passado de divisão territorial para uma fonte de divergências diplomáticas

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No “Mar da China Oriental” as pequenas ilhas que compõem o “Arquipélago de Diaoyu” (钓鱼台), também conhecida como Diaoyutai (釣魚台列島) em Taiwan e mais famosa pelo nome em japonês Senkaku (尖閣諸島), possuem uma história repleta de questões atinentes às estratégias militares e à economia alimentar, mas, atualmente, todas as tensões se voltam principalmente para os recursos alimentares e energéticos.

 

No passado as ilhas foram utilizadas como demarcação de territórios, hoje se tornaram em elemento para divergências diplomáticas entre Japão, China e Taiwan, algo de grande complexidade, já que envolve mais de 100 anos de disputas e imbróglios políticos, econômicos, diplomáticos e estratégicos.

Analisando apenas o contexto histórico da região, estas ilhas ficaram conhecidas na história da China durante a “Dinastia Ming” (1368 a 1644), quando elas foram inseridas em mapas e registros do período como uma linha de defesa contra piratas de diversas regiões do continente que atacavam as embarcações chinesas.

Nos registros históricos, estas ilhas eram a divisão entre o mar territorial chinês e o “Mar de Ryukyu” (hoje conhecido como província de Okinawa – Japão). Após a era Ming, em 1785 um militar japonês, Shihei Hayashi, documentou em mapas oficiais que estas ilhas eram territórios pertencentes aos chineses e estes documentos são até hoje utilizados como argumentos contra atual ação de nacionalizar as ilhas feitas por Tokyo.

As disputas na região foram de mais fácil compreensão durante a guerra sino-japonesa, quando em 1895 as ilhas Diaoyutai foram anexadas como parte da província de Okinawa e seu nome alterado para Senkaku. Até então, existia uma China (mesmo com suas grandes variedades étnicas internas), mas, com a derrota chinesa, estas ilhas, juntamente com a ilha de Formosa (ou seja, Taiwan), foram anexadas ao “Império do Japão”.

Antes da guerra, a região era transitada por chineses oriundos da parte continental e da pequena ilha de Taiwan. Depois da guerra, a área teve seus recursos pesqueiros explorados por japoneses e taiwaneses, um fato que é utilizado como base de argumentos pelo governo de Taipei (Taiwan) na atual disputa territorial.

Observando a história, evidencia-se que a região era explorada pelos diversos grupos étnicos de origem chinesa, mesmo que anexadas ao “Império do Japão” depois da “Guerra de 1895”  e, curiosamente, durante a “Segunda Guerra Mundial”, ela já não estava mais sob administração do mais ao Governo japonês, que a havia doado para a família Koga, tornando-se uma propriedade privada até o fim desta Grande Guerra.

Por fim, com a vitória aliada, os “Estados Unidos” se estabeleceram na região, ocupando a província de Okinawa e tanto a já então “República Popular da China” como a “República da China” (ROCTaiwan) não reivindicaram a posse dessas ilhas. Somente após a década de 1960, quando foi descoberta riqueza energética a ser explorada a posse das ilhas foi reivindicada por todos os envolvidos.

Durante esta época, as conversas entre chineses, taiwaneses e japoneses pela soberania das ilhas já existiam, mas se tornaram tensas quando os EUA decretaram que todo o “Arquipélago de Ryukyu” (Okianwa e as ilhas disputadas) seria devolvido ao Japão. Na ocasião, o Governo taiwanês e o Governo chinês haviam protestado contra a declaração estadunidense, alegando que deveria haver uma negociação e um acordo entre as partes envolvidas, sem um elemento estrangeiro.

Esta contextualização é necessária para mostrar que as tensões atualmente existentes sobre a disputa da soberania das ilhas ocorreram em cenários diferentes e nunca se chegou a uma solução entre os três países envolvidos. Na atualidade, as negociações estão praticamente inexistentes e os países estão apenas recorrendo aos documentos e fatos históricos para impor seus interesses sobre o Arquipélago.

Enquanto o Japão decidiu nacionalizar as ilhas, comprando-as dos seus proprietários particulares, Formosa havia proposto que os três interessados abrissem mãos de suas diferenças e trabalhassem em um Acordo para que todos explorassem a região de forma pacífica, porém os japoneses e chineses ignoraram suas propostas em agosto deste ano (2012).

Todas as tentativas de diálogo que fracassaram na resolução pacífica do caso, somadas às ações do governo japonês e a revolta popular chinesa e taiwanesa ganharam espaço na mídia e reavivaram os sentimentos negativos entre estes povos que aparentemente estavam adormecidos.

Nos noticiários, temos taiwaneses e chineses protestando, recorrendo a violência e desafiando a guarda costeira japonesa na região, invadindo seus prédio com frequência. Nos bastidores diplomáticos, a tentativa é de não haver uma quebra nas relações entre os países, para que nem estas e nem a estabilidade econômica regional e internacional sejam afetadas.

Porém, os esforços parecem que não serão suficientes, pois existem atores secundários aproveitando-se dos fatos para defenderem seus interesses. No noticiário de Taiwan, como o “Taipei Daily” e a “Rádio Internacional Taiwan”, artigos e declarações de partidos de oposição ao atual Governo estão sendo freqüentes e eles apresentam que o presidente Ma Ying-jeou está agindo apenas contra o Japão, ignorando o fato de que a China também exerce sua soberania na região e consideram esta postura como uma tentativa de aproximação com Beijing.

No lado continental, a onda de protesto de taiwaneses contra Tokyo é bem vista, pois como a China considera a ilha de Formosa como parte de seu território, para os chineses continentais eles são apenas “mais chineses” atuando contra as ações do Governo japonês.

Beijing mantém o discurso de que a situação será resolvida de forma diplomática, mas sempre atentando ao fato de que Tokyo está recorrendo à compra das ilhas, utilizando de recursos financeiros para impor sua soberania, por isso está impondo barreiras contra a entrada de produtos japoneses em todo o país e esta ação, somada a iniciativa popular nos dois lados do “Estreito de Taiwan” de não consumir produtos japoneses, podem colocar a economia do Japão como sujeita a prejuízos no curto e médio prazos.

Neste fim de mês de setembro, autoridades estadunidenses estão em visita ao leste asiático e o Japão anseia o apoio de Washington, que até então mantém sua postura neutra. O Governo taiwanês já comunicou seu desejo de que os norte-americanos mantenham este comportamento. Conforme declarou o presidente Ma Ying-jeou, “Eu sei que os Estados Unidos tem mantido a neutralidade sobre a soberania [das ilhas Diaoyutais] nos últimos 40 anos. Esperamos que o governo dos EUA  mantenha essa postura”*.

A neutralidade norte-americana pode ser ruim para o Japão, principalmente pelo fato de que as tensões não param de crescer e este Estado tem que se deparar com dois países, estando sozinho para enfrentá-los.

Nesta semana a “Guarda Costeirajaponesa disparou canhões d’água contra embarcações pesqueiras e barcos patrulhas que faziam a escolta de taiwaneses que entraram na região das ilhas disputadas. O caso repercutiu muito na mídia internacional e mais ainda na chinesa. Esta ação e a outra da compra das ilhas foram consideradas por Beijing como uma “direta japonesa” e dentro do Governo chinês já existem agentes favoráveis  a que o país se mantenha em alerta, caso os japoneses minem suas relações bilaterais.

O clima está desagradável, as populações chinesas e taiwanesas com suas diversas etnias internas estão eufóricas e em constantes manifestações, as patrulhas de todos países envolvidos estão em constante alerta e este início de semestre que já entrou para a história moderna da região, ganha um reforço de peso com a inauguração do primeiro porta aviões chinês, tornando o cenário mais tenso.

A situação japonesa parece similar a outras do passado com disputas envolvendo vários atores e em condição de isolamento, porém, antes, seus conflitos simultâneos em disputas territoriais contra russos, coreanos e chineses nas mesmas regiões tiveram como resultado a vitória japonesa devido ao poderio destacado do Japão.

Hoje, o país não está mais em condição de superioridade, sem grande capacidade militar comparativa em relação aos demais envolvidos e com uma economia que depende mais de seus vizinhos do que estes dependem do Japão.

Por isso, podemos vir a presenciar um momento impar no futuro próximo, tornando-se as “Ilhas Diaoyu” o ponto de início de uma nova crise diplomática sem retorno no leste da Ásia, ao invés de virem a se configurar apenas como uma simples divisora de territórios.

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Imagens:

[1] Mapa Arquipelago de Diaoyu-Senkaku-Tiaoyu (Wikipedia)

[2] Bandeira da China (Wikipédia)

[3] Bandeira do Japão (Wikipédia)

[4] Bandeira de Taiwan (Wikipédia)

[5] Localização das Ilhas no “Mar da China Oriental” (Wikipédia)

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Fontes:

* Ver:

http://english.rti.org.tw/newsinfo.aspx?tid=D000D4A5F62C7940 

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Notícias atuais:

Ver também:

http://www.br.emb-japan.go.jp/politica_externa/senkaku2.html

Ver também:

http://portuguese.cri.cn/561/2012/09/25/1s156561.htm

Ver também:

http://english.rti.org.tw/newsinfo.aspx?tid=854D9A55572DC356

Ver também:

http://www3.nhk.or.jp/nhkworld/portuguese/top/news01.html

Ver também:

http://www.globaltimes.cn/content/733318.shtml

Contextos históricos (Recomendado):

10 Phrases influencial to Taiwan” (yao chia-wen)

Tags:
Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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