LOADING

Type to search

As propostas eleitorais para a futura política externa estadunidense

Share

O novo panorama político nos Estados Unidos começará a ser decidido no primeiro dia de fevereiro, quando será iniciado o processo de prévias nos Partidos, Democrata e Republicano.

Ao longo da corrida presidencial estará em disputa uma nova interpretação sócio-ideológica alçada por dois momentos recentes e importantes no país: a crise econômica de 2008 e a eleição histórica de um negro à Casa Branca, algo que rendeu demandas, cujo reflexo é testemunhado à medida que os dois principais Partidos notadamente se distanciam do centro e instalam discursos mais à direita e, por vezes, mais à esquerda.

Diante das estratégias estudadas por alguns pré-candidatos, a questão central que delineará o Sufrágio Presidencial de 2016 será pela escolha em adotar modelos políticos identificados pelos analistas como de cunho conservador, ou progressista.

Nesse sentido, para ilustrar a análise, um dos recortes que auxilia o enredo remete aos desdobramentos em política externa, em especial dos atuais pré-candidatos melhor estabelecidos em pesquisa, a saber: Hillary Clinton e Bernie Sanders, pelo Partido Democrata; Donald Trump e Marco Rubio, pelo Partido Republicano.

Aos pontuar quem são os atuais protagonistas, cria-se a possibilidade de mostrar os mecanismos que cada candidato irá apresentar em campanha e que explicitará os discursos de matriz sócio-ideológica mencionados anteriormente. Para tanto, questões relacionadas com a China, Cuba, Rússia, imigração e comércio definirão o quão considerados conservadores, ou progressistas podem ser os candidatos ao cargo de Comandante-em-Chefe dos EUA.

Hillary Clinton: A Ex-Secretária de Estado do Presidente Barack Obama pretende cultivar a confiança e aumentar a cooperação com a China nos diversos desafios internacionais, como a Coreia do Norte, por exemplo, e as questões de âmbito climático. Durante o período de 2009 a 2013, no Departamento de Estado, Hillary assumiu papel de estrategista na Ásia, com atuação em prol do reequilíbrio de forças na região, através da política de “Pivot”.

Sobre Cuba, a normalização das relações com a ilha caribenha agora parecem uma boa estratégia de campanha. Se eleita, intenciona impor uma “Executive Authority” (Decreto Presidencial) caso o Congresso não levante o embargo econômico, uma mudança radical de rumos, uma vez que no ano de 1996 apoiou a Lei Helms-Burton, que fortaleceu o embargo estadunidense a Havana. Em 2008, durante as primárias, se opôs ao levantamento das sanções econômicas em um ambiente antidemocrático.

No tema imigração alinha-se com um posicionamento mais humanitário, defendendo legislação mais abrangente, em busca de cidadania plena para os aproximados 11 milhões de imigrantes irregulares residentes no país, ao passo que sinaliza em conceder vistos de trabalho temporário para metade desses cidadãos.

Sobre a Rússia, Hillary Clinton acredita na cooperação, um modelo parecido com que idealiza para as relações com Beijing, foco em interesses comuns, dentre os quais o controle de armas e o Programa Nuclear Iraniano. Porém, por acreditar numa suposta visão de Putin como vendo Washington como concorrente, a resposta poderá ser: o reforço da aliança militar ocidental, a OTAN; o aprimoramento na esfera de segurança energética dos países europeus; além de mensagens mais endurecidas ao Kremlin quanto ao que considera como invasão da Ucrânia, através da anexação da Crimeia, bem como ao apoio tácito da Rússia ao presidente sírio Bashar al-Assad.

Em relação ao comércio internacional, a Ex-Secretária de Estado sempre apoiou a liberalização do comércio, entretanto, críticas a modelos já foram feitas, principalmente aos grandes acordos que tendem a não proteger e privilegiar os trabalhos americanos. Em 2015, distanciou-se da Parceria Trans-Pacífico, por acreditar no deslocamento de milhares de empregos.

Bernie Sanders: O Senador pelo Estado de Vermont tem a visão mais à esquerda. Sobre a China, opõe-se aos tratados internacionais de comércio bilateral, pois entende que há perdas de emprego internamente, decorrentes da terceirização de empregos, baixos salários, e regulamentação ambiental mais frouxa, se comparada com a norte-americana. O Senador defende trabalhar com a China para conter o consumo de combustíveis fósseis e enfrentar a mudança climática global.

Sobre Cuba, ele defende a normalização da relação EUA-Cuba, com apoio ao levantamento do embargo comercial que, de acordo com seu posicionamento, custa bilhões de dólares em receita.

O tema imigração também rende grandes debates na agenda de campanha de Bernie, que já lançou plano de reforma de imigração em novembro de 2015, o qual inclui mudanças radicais no Programa de Segurança de Fronteiras, Vistos e Naturalização. O congressista revela ainda que pretende trabalhar com as duas casas legislativas, mas que não descarta usar de “ações executivas” para ver suas medidas serem implementadas.

A Rússia é outro tema relevante na política externa e Sanders apoia as Sanções dos Estados Unidos e da União Europeia contra Moscou pela intervenção na Ucrânia, porém já advertiu contra o uso da força militar.

O tema comércio também é destaque na pauta da plataforma política do Senador. Ao se intitular “socialista democrático”, posiciona-se contra os grandes acordos comerciais, pois defende a prerrogativa de que a política econômica deve objetivar o aumento dos salários e não reduzi-los. Seu Programa de Governo prevê reinvestimento interno e críticas à Parceria Trans-Pacífico, que prevê, segundos dados de seu Comitê de Campanha, diminuição do emprego e da renda e aumento da poluição no meio ambiente.

Marco Rubio: O Senador Republicano pelo Estado da Flórida classifica a China como um competidor estratégico e potencial adversário, quando remete à geopolítica, devido a postura militar expansionista na região da Ásia-Pacífico.

Se eleito Presidente, o legislador pretende restaurar as vantagens estratégicas dos EUA no pacífico, implementando uma política militar de contraponto à expansão chinesa. Aliado a essa perspectiva, aprofundar as relações com aliados tradicionais, como Japão e Filipinas, fará parte de seu Plano de Governo.

A política para Cuba é outro assunto que lhe rende questionamentos. Por ser filhos de imigrantes cubanos, Rubio é crítico ativo da reaproximação de Washington com Havana, por ainda apresentar em seus argumentos uma nostalgia pela Guerra Fria, uma vez que, em suas concepções, a reaproximação coloca China e Rússia dentro da zona de influência estadunidense, a poucas milhas da costa territorial. Como Presidente, pretende reverter os passos dados em direção a normalização das relações bilaterais feitas pelo Governo Obama, por entender que o afrouxamento é ilegal.

Ao ligar a questão cubana com seu passado familiar, a imigração também é vista com mais atenção. Como legislador, foi um dos autores do Projeto de Lei de Imigração que foi aprovado pelo Senado em 2013. Rubio tem defendido a segurança das fronteiras e verificação eletrônica do status jurídicos dos ingressantes.

Quanto a Rússia, o Senador da Flórida é favorável a uma postura mais agressiva com Moscou, pois, após a anexação da Crimeia, tem classificado a ação como afronta histórica à ordem global do pós-Segunda Guerra Mundial. Nesse sentido, é a favor da continuação de políticas econômicas e diplomáticas que isolem o Kremlin dos pares europeus e americanos.

No tema comércio, Marco Rubio apoia o livre mercado, um dos pontos em concordância com a atual administração, e uma agenda comercial multilateral. Votou a favor do Governo na concessão do “fast track” de promoção comercial. Considera a Parceria Trans-Pacífico (TPP) fundamental para o processo de retomada do crescimento macroeconômico

Donald Trump: Talvez uma das figuras mais controversas da atual corrida presidencial seja o bilionário Donald Trump. Sem experiência em assuntos políticos, tem angariado grande atenção por sua postura belicista, racista e xenófoba.

Em política externa, sua campanha ganha contornos preocupantes para muitos observadores, caso seja indicado pelo Partido Republicano. A China, por exemplo, é um dos temas preferidos de Trump, que, se eleito, pretende impor tarifas sobre produtos chineses para, de acordo com seus entendimentos, forçar uma mudança de rumos da política econômica de Beijing.

Cuba é outro tema cuja posição de Trump é surpreendente. Indo de encontro com seus correligionários, acredita que o restabelecimento pode ser benéfico, mas que poderia ter sido feito com uma postura mais de negócios e não apenas com enfoque diplomático. Esse enfoque é entendido pelo potencial imobiliário que a ilha pode desenvolver e Trump, que fez sua fortuna no ramo imobiliário, poderia estruturar um acordo cujo viés em negócios poderia render grandes receitas para o empresariado norte-americano do ramo.

Por outro lado, a questão imigratória recebe as maiores críticas dos analistas e também as afirmações mais preocupantes. Trump dá muita atenção à questão da imigração ilegal, fazendo dela uma das suas principais teses de campanha. É a favor da deportação de mais de onze milhões de imigrantes irregulares por acreditar que principalmente o México esteja enviando os criminosos violentos, incluindo estupradores, para dentro dos Estados Unidos, fato negado veementemente pelo Governo de Enrique Peña Nieto.

A Rússia é outra questão controversa na estratégia de Donald Trump. Tudo começa pelo entendimento de que Putin não respeita Obama e é por conta desse afrouxamento diplomático que a Rússia anexou a Ucrânia. Contudo, sempre elogia a liderança de Putin, afirmando que estará aberto a construir um ótimo relacionamento com o líder russo.

Por fim, a questão do livre comércio. Trump se opôs a vários acordos comerciais recentes dos Estados Unidos, pois, segundo o mesmo, foram mal negociados, o que resultou na perca de empregos dos cidadãos. Trump defende ainda uma pena às empresas norte-americanas que se mudarem para outro país. Um exemplo recente, exposto pelo pré-candidato, é o caso da Ford Motor Company, que cobraria um imposto de 35% sobre os veículos exportados pela fabricante para os Estados Unidos, provenientes das novas instalações no México. O bilionário também se opõe a Parceria Trans-Pacífica (TPP).

Ao longo das prévias, os analistas acreditam que a polarização ideológica tende a acentuar, principalmente que certos pontos, tanto mais à extrema esquerda como à extrema direita, renderão dividendos para ambos os Partidos. Para os candidatos mais ao centro, como Hillary Clinton (pelos Democratas) e Marco Rubio (pelos Republicanos) deverão revisar a direção de suas respectivas campanhas, pois figuras ao centro no espectro político tem perdido espaço para visões mais extremadas, seja pelas vias progressistas de Bernie Sanders, seja pelo conservadorismo de Donald Trump, que, por muitos observadores, é taxado como sendo do século XIX.

———————————————————————————————–

Imagem (Fonte):

http://www.cfr.org/content/c2016/images/C2016-Homepage-Hero—1300×516-credit_3.jpg

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!