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As Relações Alemanha e China e o Governo Trump

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A eleição do candidato republicano Donald Trump representou um ponto de inflexão nas relações entre Estados Unidos (EUA) e Alemanha. A partir de então, acentuaram-se as divergências entre Berlim e Washington no âmbito comercial e em torno das políticas globais de combate à mudança climática. Nessa mesma conjuntura, nota-se crescente aproximação entre o país europeu e a República Popular da China. Alemães e chineses convergem nos objetivos de combater o protecionismo econômico e institucionalizar os mecanismos internacionais de governança ambiental.

A Chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante entrevista coletiva conjunta

As relações bilaterais entre EUA e Alemanha são marcadas pelos recorrentes déficits comerciais estadunidenses. De acordo com o United States Census Bureau, enquanto que em 1990 o déficit americano era de aproximadamente 5 bilhões de dólares, em 2015 esse número alcançou a cifra de 74 bilhões. Tal condição está sendo objeto de duras críticas por membro da administração de Donald Trump. Por exemplo, Peter Navarro, Diretor do Conselho de Comércio dos EUA, afirmou em janeiro de 2017 que a causa desse desequilíbrio era a desvalorização implícita da moeda alemã praticada por Berlim por meio do Euro. Em resposta, a Ministra da Economia da Alemanha, Brigitte Zypries, ponderou durante visita a Washington que “o superávit alemão é sobretudo em bens de capital, os quais estão sendo utilizados pelos americanos para reconstrução da sua economia”. 

Por outro lado, segundo o Departamento Federal de Estatística da Alemanha, a República Popular da China se tornou o principal parceiro comercial do país em 2016, ultrapassando a França e os EUA. Nesse contexto, Anton Boerner, Presidente da Federação Alemã de Comércio, argumentou que “tendo em vista os planos protecionistas do novo Presidente dos EUA, pode-se esperar que as relações comerciais entre China e Alemanha seguirão se fortalecendo”. No entanto, especialistas afirmam que Berlim percebe com apreensão a compra de empresas alemãs por companhias chinesas. Em novembro de 2016, Sigmar Gabriel, atual Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, afirmou que seu país “força suas empresas a respeitarem o livre-mercado, no entanto, nossas próprias companhias possuem grandes dificuldades para investirem na China”. Desse modo, nota-se que apesar do incremento nos fluxos de investimento e comércios, as relações econômicas entre Alemanha e China não estão livres de tensões. 

O Presidente da Argentina, Mauricio Macri, a Chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o Presidente da China, Xi Jinping, durante reunião do G20

Outro ponto de forte discordância entre os governos de Donald Trump e Angela Merkel são as políticas globais acerca da mudança climática. Em junho de 2017, Trump anunciou a retirada dos EUA do Acordo de Paris. Em seguida, a Chanceler alemã comentou que a decisão era “extremamente lamentável” e afirmou que ela “não iria nem poderia impedir os esforços de todos que se sentem obrigados a proteger o planeta”. As críticas foram reiteradas durante a reunião do G20 realizada em Hamburgo, nos dias 7-8 de julho. De acordo com Angela Merkel “as negociações em torno da mudança climática refletiram o desacordo – todos contra os Estados Unidos da América”.

Nesse sentido, no dia 31 de maio, ao comentar os primeiros meses da política externa de Donald Trump, o embaixador alemão nos EUA, Petter Wittig, afirmou que “quando se trata da ordem internacional, não pode haver vácuo. Se nós perdermos a liderança americana, outros países irão assumir”. Apenas um dia após tal declaração, não só os EUA renunciavam ao Acordo de Paris, como também o Premier da China, Li Keqiang, se reunia com a Chanceler Angela Merkel em Berlim. Nessa ocasião, o líder chinês destacou que “a China continuará a implementação dos compromissos firmados no Acordo de Paris” e a Chefe de Governo alemã declarou que “a China se tornou um parceiro estratégico mais importante para nós”.

Portanto, percebe-se que as divergências entre EUA e Alemanha representam forte incentivo para aproximações entre alemães e chineses. No entanto, nota-se que tal conjuntura não implica em alinhamentos automáticos entre Berlim e Beijing. Assim, demonstra-se a grande autonomia que guia a atual política externa germânica. Nesse contexto, as palavras da chanceler Angela Merkel durante encontro de seu partido em julho são exemplares sobre o modo como o país percebe a conjuntura política internacional contemporânea. Conforme declarou: “o tempo em que nós podíamos contar com os outros chegaram ao fim. Isso foi o que eu percebi nos últimos dias.  É por conta disso que eu devo dizer que nós, europeus, devemos realmente decidir nosso próprio destino”.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Manifestante antiTrump em Hamburgo durante as reuniões do G20” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Berlin_United_against_Trump_(29951900836).jpg

Imagem 2A Chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante entrevista coletiva conjunta” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Angela_Merkel_Donald_Trump_2017-03-17.png

Imagem 3O Presidente da Argentina, Mauricio Macri, a Chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o Presidente da China, Xi Jinping, durante reunião do G20” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/ce/Macri%2C_Merkel_%26_Xi_Jinping.jpg

Pedro Brancher - Colaborador Voluntário

Doutorando em Ciência Política pela Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisa nas áreas de Segurança Internacional, Economia Política Internacional e Política Externa Brasileira. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre Ásia, especialmente sobre China, país em que residiu durante um ano e que é seu objeto de estudo desde 2013.

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