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As Relações Internacionais sob um novo ângulo: Os atentados em Paris

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Notoriamente, os primeiros entendimentos após testemunhar mais uma tragédia no dito mundo ocidental civilizado é expor o sentimento de medo e consternação por mais um sem números de vítimas, cidadãos comuns inseridos na sistemática plataforma de causa e efeito gerada por políticas externas percebidas como inadequadas em suas premissas impositivas de civilidade, valores e moralidade, em ambientes e regiões distintas, cujo único interesse acaba se mostrando focado em aspectos econômicos e comerciais, no estrito desejo de acumulação do capital.

A última sexta-feira 13, em Paris, pode ser vista como o resultado desse sistema de causalidades iniciado há inúmeras décadas, através do Acordo assinado pelos encarregados em dividir a Arábia britânica da Síria francesa, pelas mãos do francês François GeorgesPicot e pelo inglês Mark Sykes, posicionando o Ocidente na lógica superior de ofertar o melhor modelo político, após a Primeira Guerra Mundial.

Aos olhos da comunidade internacional, o testemunho dos eventos recentes, aliado a informações parciais, criam demandas perigosas e pressão para que as relações internacionais modifiquem seu status de ordem, ou seja, condicione como resposta o posicionamento massivo de ferramental bélico para eliminar uma ameaça que não tem rosto e tampouco usa uniforme de combate para identificação. 

Nesse sentido, após o ataque em Paris, a explosão de um avião russo na Península do Sinai e o ataque a um bairro xiita em Beirute, Líbano, a resposta que será mais discutida no cerne da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês) é justamente sobre uma resposta militar mais contundente, baseada no Artigo 5º do documento confeccionado pelos membros do Bloco, em 1949.

Desta forma, a discussão visa qualificar e quantificar a resposta com todos os vinte e oito membros do Bloco, uma vez que “as Partes concordam que um ataque armado contra uma ou várias delas na Europa, ou na América do Norte será considerado um ataque a todas, e, consequentemente, concordam em que, se um tal ataque armado se verificar, cada uma, no exercício do direito de legítima defesa, individual, ou coletiva, reconhecido pelo artigo 51 da Carta das Nações Unidas prestará assistência à Parte ou Partes assim atacadas…”[1].

A iminente possibilidade de alteração na condução do conflito no Oriente Médio, por meio da combinação do poderio aéreo com forças militares em solo, permitirá criar mecanismos para que o Estado Islâmico (Daesh), autor das barbáries, priorize por outro lado a realização de ataques terroristas em massa em grandes capitais ocidentais, em detrimento de campanhas militares vitoriosas no terreno sírio e iraquiano. Sendo assim, o objetivo seria alcançado em duplicidade, causando temor na sociedade e criando um clamor no núcleo de apoiadores, principalmente os alocados em solo europeu, desmistificando as dificuldades que os insurgentes eventualmente possam ter.

Para especialistas consultados, não está claro ainda quais serão os próximos passos, porém, é consenso que a França não tem condições de sustentar uma campanha militar sozinha. Da mesma forma que o Reino Unido, a França é percebida como potência militar forte, mas em segundo nível, comparando-a a das grande potências militares atuais, por isso, ela tem meios limitados para escalar um combate direto unilateralmente contra o Estado Islâmico. Por isso, em eventual engajamento militar, papel da NATO se faz fundamental. Desta forma, ao unificar uma ação militar com os membros da NATO baseada no Artigo 5º, começa a emergira a percepção de que algumas ações devem ser implementadas:

  1. A primeira delas é submeter para aprovação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, em concordância com o Direito Internacional, uma Resolução, apesar de a organização militar ser capaz de prosseguir independentemente.
  2. Em segundo lugar, a Aliança deve assumir um de seus principais comandos conjuntos para conduzir o planejamento e condução de qualquer resposta operacional. O Joint Force Command Allied, baseado em Nápoles, Itália, é o Comando que realizou a intervenção na Líbia e que possui mais experiência no quadro de operações, assim como aprofundados laços com parceiros da coalizão, como Emirados Árabes Unidos, Jordânia e Qatar, por exemplo.
  3. Uma terceira iniciativa é preparar as Forças Especiais da NATO para um papel central, organizar as informações entre os Estados membros, preparar Forças Especiais Conjuntas, através da implantação de unidades na Síria, capazes de treinar novos combatentes contrários ao Estado Islâmico e servir como observadores para aeronaves da coalizão.
  4. Outra medida, esta de longo prazo, visa organizar missões de treinamento constante das Forças Pershmerga e Curdos Yazidis com Forças de Segurança de Bagdá, contribuindo para a unidade operacional das ações de combate.
  5. Em complemento, uma campanha de bombardeios liderada pela NATO poderia aumentar os ativos, explorando os recursos à disposição da Organização, que inclui três milhões de soldados, mais de 25 mil aeronaves, 800 navios de combate, 50 aviões AWACS (Airborne Warning and Control System), além de representar mais de 50% do PIB global.
  6. Por último, fortalecer o diálogo para construir uma coalizão aberta, incluindo forças de aliados tradicionais, como também de adversários, dentre os quais, a Rússia. O Governo russo afirma querer derrotar o Estado Islâmico e há motivação política e militar para isso. No outro lado do atlântico, o papel dos EUA também é indiscutível, lembrando que, ao longo da história,  os franceses sempre foram solícitos às demandas dos norte-americanos, dentre as mais emblemáticas estão a Guerra Revolucionária Estadunidense e o 11 de Setembro de 2001.

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Imagem (Fonte):

https://d.ibtimes.co.uk/en/full/1418773/paris-charlie-hebdo-cartoons-aftermath.jpg?w=736

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.nato.int/cps/en/natohq/official_texts_17120.htm?selectedLocale=pt

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Ver Também:

https://news.vice.com/article/why-the-islamic-state-attacked-paris-and-what-happens-next

Ver Também:

http://carnegieendowment.org/syriaincrisis/?fa=61941

Ver Também:

http://www.slate.com/articles/news_and_politics/foreigners/2015/11/paris_attack_five_things_to_know_about_isis.html

Ver Também:

http://foreignpolicy.com/2015/11/14/natos-turn-to-attack-paris-terrorist-isis/

Ver Também:

https://www.diplomatique.org.br/print.php?tipo=ac&id=800

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Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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