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A região da Ásia-Pacífico continua longe de ser uma região “tranquila” devido ao grande número de discordâncias geradas por disputas territoriais, econômicas e militares entre os Estados da região e grandes potências globais. Com tantos temas a serem observados em prol do desenvolvimento e do soerguimento da economia global, o tema militar interfere gerando “desconfiança” e divergência entre os players que atuam naquele espaço, em especial para os atritos entre a China e os Estados Unidos. Acrescente-se que a presença militar estadunidense na área constantemente recebeu atenção especial por parte de norte-coreanos, chineses e de outras potências regionais e as mobilizações norte-americanas na península coreana, no Japão, nas Filipinas e na Austrália geraram muitas críticas de vários governos locais.

Recentemente, os Estados Unidos decidiram mobilizar seus fuzileiros no Japão, alguns sendo transferidos para bases dentro do próprio território japonês e outros para as demais Bases norte-americanas, como no Hawai e nas Filipinas. Essas ações demonstram uma mudança no plano de defesa para a região e despertam muitas interpretações por parte de analistas locais.

De acordo com declaração do “Ministério das Relações Exteriores do Japão” e do “Departamento de Estado dos Estados Unidos”, daqueles mariners que estão na “Base de Futenma”, em Okinawa, 4.700 passarão para a “Base de Guam” e os demais serão deslocados para o exterior, como o Hawai e outras Bases nas  cercanias.  De acordo com o professor Satoshi Morimoto, da “Universidade Takushoku”, em entrevista para a rádio NHK japonesa, Washington se mobiliza para conter os avanços da China na região.

Ele afirmou: “Seguramente, o último movimento mostra que os Estados Unidos começaram a implementar sua estratégia contra a China, que busca expandir sua influência nas águas da Ásia e do Pacífico. Os Estados Unidos têm, até agora, se concentrado na questão dos fuzileiros navais na província de Okinawa, ao sul do Japão. Contudo, a nova estratégia visa dispersar o pessoal militar em áreas que abrangem uma ampla faixa na região da Ásia e do Pacífico, tais como o Havaí, Guam, Austrália e as Filipinas. Isto se deve ao fato de os Estados Unidos terem a intenção de fortalecer sua capacidade de ação como parte dos seus esforços para frear a influência da China nos mares da China Oriental e Meridional e em águas de outras áreas da região. Desta forma, os Estados Unidos estão esperando construir uma rede da Ásia-Pacífico contra a China, com a colaboração dos seus aliados e amigos na região. Esta é uma das metas da reestruturação”*.

Muitos especialistas, além da imprensa local, acreditam que este movimento se deu pelo cansaço moral por parte da “Casa Branca” em relação à “Base Aérea de Nago”, que está caminhando lentamente, e devido à forte pressão dos japoneses que se opõem à presença militar estadunidense no local. Para o jornal chinês, “The Global Times”**, a aliança EUA-Japão era forçada com essas bases estadunidenses fora do território japonês. Com a falta da necessidade de mantê-la no país asiático e graças aos cortes no orçamento militar de Washington, a transferência de soldados passou a ser executada, algo que preocupa o Japão. Ressalte-se que a transferência era prevista desde a gestão de George W. Bush.

Morimoto afirma que o deslocamento dos mariners afetará a “Política de Defesa” japonesa, pois agora será exigido certo esforço por parte do governo para estruturar outra política com grau significativo de eficiência, isto num momento em que o país ainda está se recuperando da crise econômica global e da crise interna, agravada com os casos do Tsunami que lhe atingiu e dos problemas gerados com a “Usina Nuclear de Fukushima”.

Essas ações, além de preocuparem Tókio, também chamam a atenção dos chineses, em um momento delicado, quando está ocorrendo à visita do vice-presidente Xi Jinpin a Washington. O atual vice-presidente da China é um dos favoritos para assumir o poder em Beijing e, diferente do atual presidente, Hu Jintao, ele é considerado como mais “aberto” ao ocidente e com melhores relações com os Estados Unidos.

Nesta semana Jinping se encontrará com o presidente Barack Obama e esta autoridade, que é vista como uma “chave” para melhorar as relações China-EUA, fez críticas à mobilização militar dos norte-americanos na região da Ásia-Pacífico. “Em um momento em que os povos aspiram à paz, à estabilidade e ao desenvolvimento, conferir deliberadamente mais importância aos programas militares, exigir mais tropas e fortalecer as alianças militares não é realmente o que espera a maioria dos países da região”***, disse a liderança na edição impressa do jornal “Washington Post”, citado pelo jornal brasileiro “Folha de São Paulo”.

De fato, tal declaração surge em momento importante de trabalho para a reestruturação da economia global. Hoje, europeus e norte-americanos estão se esforçando em resolver seus problemas econômicos e se recuperarem rapidamente para ter força frente as “potências econômicas emergentes”, especialmente os países que compõem o grupo BRICS (“Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul”). Na Ásia, muitas economias pequenas, estão preocupadas com seus parceiros ocidentais em crise e estudam meios de aderirem a grupos aduaneiros da região para terem condições de manter suas respectivas economias estáveis.

Onde as potências ocidentais ou demais potências econômicas regionais não estão atuantes a presença chinesa se mostra firme, dinamizando outras economias da região, como são os casos exemplares de Taiwan e Timor-Leste que têm a China como o grande parceiro comercial. Logo, diante deste quadro, a influência de Beijing para esta região será maior do que no passado.

Para muitos analistas, a realocação de fuzileiros dos EUA na região é uma forma de os norte-americanos manterem a influência regional, focando o tema da Segurança. A justificativa para a presença destes militares em bases como nas Filipinas e Hawai são as disputas territoriais regionais, dentre elas as que ocorrem na área do no “Mar da China”, favorecendo os aliados de Washington. Assim, os países envolvidos em disputas territoriais tem nos mariners estadunidenses uma garantia para não sofrerem qualquer “ataque” chinês.

Embora se pense em um conflito local por territórios, com possibilidade de intervenção militar de Washington, não se pode desconsiderar as histórias regional e chinesa, especificamente. Historicamente, diferente do “Império do Japão”, quando foram formadas a “República da China” (hoje Taiwan / Formosa) e a “República Democrática Popular da China” (a China Continental), gerada pela “revolução comunista”, não se apresentaram intenções expansionistas por parte do governo desta última, mas apenas reivindicações de territórios que foram colonizados por outros países em períodos de guerras, como no caso de ilhas no “Mar da China”, das ilhas que hoje estão sob soberania do Japão, além do caso de Taiwan.

Diferente de outros países que modernizam suas “Forças Armadas” para projeção de poder, além da defesa interna, a formação do Exército chinês teve como base ganhar força para se defender de “invasores externos”, dado que o país constantemente foi invadido por outros Estados, tanto por potências asiáticas como por potências ocidentais, como o Reino Unido e Portugal, além da importante presença dos Estados Unidos durante a era da “China Imperial”. Ao observar estes aspectos de sua história, especialistas apontam que dificilmente Beijing tentaria uma expansão por meio de forças militares. Assim como muitas nações asiáticas, o governo chinês raciocina a partir da economia. Sua influência na região se baseia nas relações econômicas, que continuam sendo uma locomotiva propiciadora do diálogo entre os Estados, diversamente das aproximações geradas pelas alianças com o intuito de responder aos conflitos territoriais e criar segurança, as quais produzem resultados, mas circunscritos aos grupos aliados e conjunturalmente.

Caso os chineses apostem na expansão militar, espalhando bases no exterior, a exemplo do modelo usado pelos Estados, isso gerará custos orçamentários, desgaste econômico, problemas para a estratégia econômica interna, bem como para suas ações globais, além de afetar a tática de manter uma “boa imagem” frente ao mundo, pois a presença militar em solo estrangeiro gera desentendimento com as populações locais.

Analistas entendem que, hoje, embora mantenha avanços em sua tecnologia bélica, o desenvolvimento econômico chinês está em primeiro plano e isso pode ser visto nas relações estabelecidas com os povos asiáticos e com a América Latina, nas quais explora um contexto político-econômico que foi deixado de lado por europeus e norte-americanos neste passado recente.

Assim, observando a região da Ásia-Pacífico com estes dois grandes atores como protagonistas, os Estados Unidos (mobilizado militarmente) e a China (com influência econômica regional), e ouvindo as palavras do vice-presidente chinês, segundo o qual o “Oceano Pacífico” tem “espaço suficiente” para permitir a presença de ambos, percebe-se que a China está levando vantagem em relação aos Estados Unidos, pois os países asiáticos estão preocupados principalmente com o “crescimento econômico” e neste quesito os chineses têm agido de forma eficiente.

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Fonte:

* Ver “NHK” – “Arquivos do dia 09/02 – vídeo e textos publicados no site”:

(Português)

http://www3.nhk.or.jp/nhkworld/portuguese/top/index.html

(Japonês)

http://www3.nhk.or.jp

** Ver Global Times”:

http://www.globaltimes.cn/NEWS/tabid/99/ID/695678/US-Japanese-alliance-strained-by-costs-of-overseas-bases.aspx  

*** Ver “Folha SP”:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1048009-vice-chines-adverte-eua-sobre-avanco-de-forca-militar-na-asia.shtml

Ver ainda Wall Street Journal”:

http://online.wsj.com/article/SB10001424052970204136404577207661526360518.html?mod=WSJP_economia_LeftTop

 

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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