LOADING

Type to search

Aspectos das relações diplomáticas entre OTAN – Rússia

Share

Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o mundo se viu imerso em um novo cenário, a chamada Guerra Fria. Diferente das duas Grandes Guerras que ocorreram na primeira metade do século XX, a Guerra Fria foi essencialmente um embate ideológico entre a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os Estados Unidos da América (EUA), em que aquela defendia os preceitos socialistas e sua difusão global, já os norte-americanos prezavam por um mundo pautado nos ideais liberal-democráticos.

Essa bipolaridade perdurou por mais de quatro décadas, tendo seu desfecho com o fim da URSS em 1991 (ou 1989, de acordo com segmento de especialistas, em virtude da queda do muro de Berlim). Durante este período, inúmeras foram as vezes em que ocorreram tensões entre o ocidente capitalista e a URSS.

Em 1949, foi criada a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Originalmente, a Aliança era composta por doze países[1] e, até o fim da Guerra Fria, mais quatro aderiram[2]. Seu objetivo era claro, um acordo político-militar pautado principalmente na defesa coletiva, determinado pelo Artigo 5o do Tratado, o qual prevê que um ataque a qualquer nação participante da OTAN será um ataque a todas as outras. Apesar da existência da prerrogativa de legítima defesa, essa nunca foi utilizada.

Entretanto, com o fim da Guerra Fria, na década de 1990, a Organização se viu diante do que alguns analistas consideravam como sendo um anacronismo. Esses alegavam que a sua existência não fazia mais sentido, visto que, com o fim da URSS, o socialismo não era mais considerado uma ameaça. Por conta disso, a OTAN teve que se reposicionar e seus preceitos passaram por uma revisão estratégica, levando em conta o novo período que se iniciava: um mundo pautado com precedência na economia de mercado, embora tenham permanecido experiências socialistas e a indefinição quanto aos futuros movimentos da recém surgida Federação Russa.

Foto oficial dos líderes dos países membros da OTAN e do Presidente Russo, Vladimir Putin, no dia que foi instaurado a criação do Conselho OTAN-Rússia, em 28 de maio de 2002

Inicialmente, a Aliança e a Federação Russa prezaram pela proximidade de suas relações diplomáticas. Em 1991, a Rússia uniu-se ao Conselho de Cooperação do Atlântico Norte e, em 1994, adentrou no Programa de Parceria pela Paz. Essa parceria tornou-se formal e definitiva em 1997, com a formulação do Ato Fundador, criando, assim, o Conselho Conjunto Permanente (CCP). Em 2002, substituiu-se o CCP ao estabelecer o Conselho OTAN-Rússia, um fórum de discussão direta sobre assuntos referentes à segurança internacional e outros tipos de cooperação entre aquela Organização e o Governo Russo. Mesmo que a Rússia não fosse membro, as relações desse país com a Aliança seguiam de forma pacífica e de maneira a gerar frutos positivos a eles e ao resto da comunidade internacional.

No entanto, esse período de bom relacionamento não se manteve. Pelo lado da OTAN, novos países começaram a adentrar na Organização[3], nações que antes estavam na área de influência da antiga URSS, algo que passou a colocar os russos em estado de alerta. Já pela ótica da Federação Russa, na segunda metade da primeira década dos anos 2000, o presidente Vladimir Putin passou a colocar mais em prática sua plataforma de governo de recuperar o protagonismo internacional do país, tendo por finalidade atuar de maneira mais assertiva no seu entorno regional, como na Geórgia, em 2008, e na Ucrânia, em 2014.

Em ambas situações, as relações OTAN-Rússia tiveram retrocessos. Em 2008, o Conselho foi suspenso até o ano seguinte, 2009. No entanto, diante da anexação da Crimeia, em 2014[4], houve a condenação da ação russa por todos os países membros da Aliança, levando à suspensão até os dias de hoje dos diálogos e cooperação que ocorreriam no ambiente do fórum de discussão oficial.

As principais bases militares dos EUA pelo mundo

A OTAN segue afirmando que tem preocupações quanto às atitudes russas, considerando essas de caráter desestabilizador. Entretanto, é preciso destacar que essa Aliança passou a ampliar suas fronteiras até à Rússia. Tal fato faz a nação manter-se em alerta, pois, para ela, parece que está sendo colocada em uma posição de encurralamento, tal qual vem sendo divulgado pelos russos devido ao número de bases militares dos EUA na Europa.

Não obstante, desde o caso do envenenamento do ex-espião russo, Sergei Skripal, no início do mês de março (2018), colocou-se em pauta, novamente, a fragilidade existente das relações OTAN-Rússia. Perante a acusação feita pelo Reino Unido de que a Rússia seria a única responsável pelo atentado à Skripal, os aliados da OTAN logo seguiram os passos dos britânicos e anunciaram a expulsão de vários diplomatas e figuras públicas russas de seus países[5], além de que a própria Organização expulsou sete diplomatas de sua missão na aliança. Entretanto, as investigações ainda estão em curso.

A Rússia, por sua vez, acusa a Aliança de estar criando um sentimento anti-russo pelo mundo, a fim de explicar seus gastos militares gigantescos. Conforme vem sendo apontando, só em 2015, os aliados da América e da Europa membros da OTAN gastaram $871 bilhões de dólares em defesa, enquanto a Rússia sozinha dispendeu $52 bilhões de dólares. Dessa forma, o Vice-Ministro das Relações Exteriores da Federação Russa, Alexander Grushko, chegou a acusar que o envenenamento do ex-espião foi planejado para colocar a Rússia como principal inimiga e, assim, conseguir explicar ao público o porquê dos gastos colossais em segurança e armamento.

A narrativa segue afirmando que o Ocidente nunca teria superado a Guerra Fria, visto que ainda a considera uma grande adversária, pois só a partir disso que teria realmente sentido a existência da Aliança. Segundo o Ministro das Relações Exteriores Russo, Sergei Lavrov, “Percebemos os processos acontecendo como parte de uma política estratégica bem pensada de conter a Federação Russa. Os líderes da OTAN, principalmente aqueles dos EUA, não escondem essa estratégia. Essa estratégia está sendo consistentemente implementada e se manifesta em esforços de expansão rápida para estabelecer um sistema global de defesa antimísseis que não tem nada a ver com o Irã e a Coreia do Norte, mas que está ligado à Rússia e à República Popular da China”.

Diante do quadro, é pouco provável o alcance de relações estáveis entre a Aliança e a Rússia no momento. Ambas têm muitos interesses individuais que acabam por colidir política e economicamente. A OTAN continua mostrando sua vontade de expandir suas fronteiras a novos países e o Governo russo não está contente com esse posicionamento, pois interpreta-o como um isolamento do seu país do resto do mundo e um avanço para suas antigas zonas de influência.

———————————————————————————————–

Notas:

[1] Os primeiros 12 países a participarem da OTAN, por ordem alfabética: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido.

[2] Os seguintes 4 países a adentrar a OTAN, por ordem cronológica: Grécia e Turquia, em 1952; Alemanha Ocidental, em 1955; e Espanha, em 1982.

[3] Novos países que se tornaram membros da OTAN após o fim da Guerra Fria, por ordem cronológica: Hungria, Polônia e República Checa, em 1999; Bulgária, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Letônia, Lituânia e Romênia, em 2004; Albânia, Croácia, em 2009; e Montenegro, em 2017.

[4] A Crimeia é a região que havia sido cedida à Ucrânia, em 1954, pelo ucraniano Nikita Khrushchev, principal líder da União Soviética entre 1953 e 1964.

[5] Os países da OTAN que expulsaram as personalidades russas de seus territórios em março de 2018, em ordem alfabética: Alemanha, Bulgária, Canadá, Croácia, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Estônia, França, Hungria, Itália, Lituânia, Polônia, República Checa e Romênia.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 As bandeiras da Federação Russa e da Organização do Atlântico Norte (OTAN)” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Russian_NATO_flags.jpg

Imagem 2 Foto oficial dos líderes dos países membros da OTAN e do Presidente Russo, Vladimir Putin, no dia que foi instaurado a criação do Conselho OTANRússia, em 28 de maio de 2002” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vladimir_Putin_28_May_2002-12.jpg

Imagem 3 As principais bases militares dos EUA pelo mundo” (Fonte):

http://www.thehistoryreader.com/military-history/u-s-military-bases-worldwide/

Isabela Joia - Colaboradora Voluntária

Bacharela em Relações Internacionais pelas Faculdades de Campinas (FACAMP) e atual graduanda em Ciências Econômicas pela mesma instituição. Participou da Newsletter do Centro de Estudos de Relações Internacionais (CERI) da FACAMP como redatora e corretora de artigos. Fez sua tese de conclusão de curso sobre as relações diplomáticas entre a Rússia e os Estados Unidos no pós Guerra Fria. Tem grande paixão pela escrita e por assuntos relacionados à Segurança Internacional e Diplomacia.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.