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Atentados no Mali: incapacidade governamental e duro golpe à França

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No último dia 23 de novembro, o Mali iniciou o primeiro de três dias de luto oficial no país, após a morte de 21 pessoas (19 vítimas e dois homens armados) no ataque ao Hotel Radisson Blu, na capital Bamako. Seis das vítimas eram do Mali, enquanto 13 eram cidadãos estrangeiros, incluindo uma funcionária norte-americana de ajuda humanitária. Desde o início da crise política no Mali, em 2012, o Governo tem sido incapaz de frear os muitos grupos armados no país. O ataque em Bamako também representa um duro golpe à França, antiga potência colonial da região, que atualmente possui 3.500 soldados estacionados no norte do Mali, na tentativa de restaurar a estabilidade na região.

O presidente Ibrahim Boubacar Keita declarou 10 dias de estado de emergência, após o ataque ao hotel de luxo na capital. Homens armados invadiram o hotel no início da manhã da sexta-feira, 20 de novembro, e tomaram pelo menos 170 pessoas como reféns. Depois de um impasse de nove horas com soldados do Mali, da ONU, da França e dos Estados Unidos, a maioria dos reféns foi libertada, mas 19 civis foram mortos, além de dois atacantes. O assalto de 20 de novembro no hotel Radisson Blu foi o último de uma série de ataques mortais ocorridos este ano (2015) tendo alvos proeminentes no Mali, país que tem lutado desde 2012 contra diversos grupos armados baseados no norte desértico do seu território.

Inicialmente, três grupos militantes islâmicos reivindicaram a responsabilidade pela ação, incluindo al-Qaeda no Maghreb Islâmico. Membros que afirmam ser parte da al-Mourabitoun rapidamente assumiram responsabilidade pela agressão, declarando que ele teria sido realizado “em coordenação com o grupo Imarat al-Sahra e com a al-Qaeda no Magrebe Islâmico [AQMI]”, conforme reportado pela Al Jazeera. Enquanto o ataque estava em andamento na sexta-feira, a agência de noticias do Qatar obteve acesso a uma gravação, segundo a qual militantes, afirmando serem parte da al-Mourabitoun, somente liberariam os reféns quando seus membros fossem libertados de prisões em Bamako, e quando o que eles chamam de “agressão contra o povo do norte do Mali” fosse cessada. A responsabilidade do grupo al-Mourabitoun, também ligado à Al-Qaeda, foi questionada pelo Presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, cujo Serviço de Inteligência sugeriu que outro grupo, a Frente de Libertação Macina, teria sido o responsável pelo ataque. Sobre as afiliações da Macina Liberation Front pouco é sabido, embora uma série de ataques contra tropas malianas e também a civis ao longo de 2015 tenha sido creditada ao grupo.

Mohamed Vall, da Al Jazeera, reporta que o atentado ao hotel ressaltou a fragilidade do Governo do Mali. De acordo com Vall, “Bamako estava supostamente em estado de alerta desde a última rebelião tuaregue em 2012. Você pode imaginar que o governo vem tomando todas as medidas necessárias para proteger seus ativos de alto valor, incluindo hotéis internacionais”. Alguns analistas sugerem que os ataques também revelam uma gradual perda de controle do país pelo Governo, afirmação também rejeitada pelo presidente Keita.

Em janeiro 2012, a população indígena tuaregue do sahara inicia uma rebelião armada contra o Governo do Mali. Os Tuaregues são um povo berber nômade, com a menor qualidade de vida do mundo, e vive no maior deserto do globo, sofrendo constantemente, de fome e seca. Os Tuaregues ocupam uma região que contempla o nordeste do Estado do Mali, o sul da Argélia, o sudoeste da Líbia e o norte do Niger. Abandonados pelo Estado do Mali e frequentemente privados de condições básicas de saúde e educação, eles têm nos trabalhos ilegais potencialmente a única forma de obtenção de renda. São frequentes os transportes de droga ao Oriente Médio e à Europa. Na rebelião de 2012, uma vez mais, os rebeldes no norte buscaram independência e autonomia em relação ao Mali, com o intuito de criar uma nova nação, denominada Asawad, autogovernada e com gestão mais apropriada de recursos naturais.

Contudo, a guerra criou uma oportunidade para a entrada da Al Qaeda e de grupos afiliados no Sahara, que impuseram sua interpretação de domínio da lei islâmica. Os Tuaregues rebeldes seculares e a Al-Qaeda, ambos fortemente armados, enfrentaram-se com o Governo do Mali no deserto do norte do país e deixaram grandes números de vítimas do exército nacional, o que promoveu comoção da população ao sul. Após a queda do presidente Amadou Touré e do abandono norte do país pelo Exército, a Al-Qaeda tomou a cidade de Timbuktu*, e os Tuaregues, Azawad, tendo Gao como capital.

Controlando um importante território, a população tuaregue apoiava sua conquista em sua insurgência contra o Governo malinês e contra a presença imperial francesa. O povo nômade trava uma luta histórica de oposição ao colonialismo francês na região e contra a criação do Mali na década de 1960, desconsiderando suas demandas territoriais. A França condenou o que chamou de “nula e sem efeito a declaração unilateral da independência de Azawad”, em Abril de 2012.

Separatistas do National Movement for the Liberation of Azawad (MNLA) tomaram controle de Gao, mas pilhagens, estupros, falta de material hospitalar e de atendimento eram constantemente registrados. O caos se instalou em Gao. Adicionalmente, sua presença não foi aceita por outras populações locais, como os songhai, por exemplo.

Uma vez um modelo de democracia regional para a África subsaariana, o Mali ficou refém também de forças jihadistas militantes como as do Ansar Edinne, da al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQIM) e do Movimento pela Unidade e Jihad na África Ocidental (MUJAO), em franca competição com os tuaregues sobre o destino do norte do país.

Os jihadistas impuseram lei da sharia em Gao e em outras cidades, promoveram sequestros de turistas ocidentais, ataque a tropas francesas e a especialistas atuantes nas minas de urânio, além de inúmeras violações de direitos humanos e destruições de patrimônios históricos. Vastas áreas do país ficaram sob a lei do terror islâmico da polícia islâmica, cujo exemplo emblemático é o da histórica humanista cidade de Timbuktu. Mas, no norte do Mali, ações de saúde e assistência humanitária foram promovidas pela Al Qaeda, como distribuição de água, comida e até dinar argelino para órfãos, sobretudo da população tuaregue que perdera sua forma de subsistência. Por seu lado, os Tuaregues acusam o Governo do Mali de fomentar a presença da Al Qaeda na região, estender liberdades civis a seus membros e permitir seu controle de alguns territórios, como Aguel’hoc, sobretudo com o objetivo de enfraquecer a luta tuaregue desde 1963 contra o Governo e o império francês.

O Governo malinês, que falhou em prover governabilidade eficiente e desenvolvimento no norte do país, é acusado de abandono pelos Tuaregues. A luta por autonomia e independência tuaregue foi ofuscada pelo terror jihadista da Al Qaeda e seus afiliados. Com a ascensão de grupos jihadistas filiados à Al-Qaeda, líderes africanos ocidentais estão profundamente preocupados com o destino da região e com a possível exportação da vitória dos tuaregues no norte do Mali para outras regiões. Os líderes também questionam qual a ameaça mais terrível: o separatismo tuaregue, que reestruturaria toda a ordem regional, ou o terror do jihadismo islâmico.

Vale ressaltar que a Al Qaeda no Maghreb Islâmico também se opõe a um Estado secular aos moldes do que seria o projeto de Azawad. Após a tomada de Gao, capital de Azawad, pela Al Qaeda e pelo Ansar Eddine (apoiados por locais songhai, descontentes com o Governo tuaregue) os grupos jihadistas passaram a controlar todo o norte do Mali e expulsaram o MNLA. A França, neste momento, a pedido do Presidente malinês e com anuência da população local, se comprometeu a apoiar o Exército no país contra a agressão terrorista no oeste da África. Após a chegada das tropas estrangeiras, a al-Qaeda se retirou dos territórios ocupados, denunciando a pilhagem e interferência francesas, e prometeu retornar. A França liberou o Mali, porém, os tuaregues acusam que eles expulsaram os azawaris para países vizinhos.

Atualmente, o Mali é o país que concentra o maior número de tropas francesas em operação antiterror no exterior. A ação é a continuação da operação conduzida entre 2013 e 2014 pelos franceses, com o aval do Governo local do Mali, em seu enfrentamento à insurreição de tribos nômades árabes, aos tuaregues e aos extremistas islâmicos. Igor Gielow, para a Folha de São Paulo, afirma que o interesse francês pelo Sahel não é meramente humanitário. Há quatro décadas “as usinas nucleares que geram 75% da energia consumida na França são alimentadas por urânio importado principalmente do Níger, país vizinho ao Mali”. O povo tuaregue acusa a exploração de urânio pelo Governo francês de gerar milhões de toneladas resíduo radioativo que, exposto ao vendo do deserto, causa mutações e anomalias nervosas sobre a população já debilitada. Adicionalmente, reporta Gielow, o interesse francês está ao sul e ao norte do Níger, onde há produtores importantes de petróleo e gás, como a Argélia e a Nigéria. A manutenção da ordem regional é crucial para a estratégia francesa. Contudo, a França nega qualquer interesse regional particular e afirma proteger um “país amigo” na luta contra o terrorismo.

O norte do Mali é agora um protetorado internacional cuja segurança é controlada pela França. Reportada como sucesso, sobretudo por ter liberado Timbuktu, e celebrada pela população local, a presença francesa “antiterror” no Mali é, no entanto, constantemente questionada pelos ataques de um sem número de grupos jihadistas filiados da Al Qaeda a cidades no país, desde 2012.

Os grupos de orientação islâmica [Ansar Edinne, al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQIM) e o Movimento pela Unidade e Jihad na África Ocidental (MUJAO)] atualmente  combatem as Tropas do Governo auxiliadas pela França e promovem ataques terroristas pontuais. Ainda em 2015, ataques foram reportados em Bamako, Kidal, Gao, Nara, Sévaré e em Gaberi, na região de Timbuktu*.

Ainda que o Mali tenha se estabilizado desde o conflito armado de 2012/13, vastas regiões do norte continuam a ser atormentadas por inúmeras formas de ilegalidade e de violência, tanto das forças pró-governo quanto daquelas que são anti-governo. Somente este ano (2015), a violência do Mali já matou pelo menos 342 pessoas – incluindo forças de paz da ONU, estrangeiros e prestadores de serviços. Observadores convergem para a conclusão de que importantes desafios na região, ainda a serem endereçados, constituem a própria causa de ascensão destes grupos: vácuo e ineficiência estatal, corrupção endêmica, problemas de desenvolvimento, sentimentos de injustiça, a cassação de direitos e anomia social.

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* Há várias grafias para a palavra: Timbuktu, Tombuctu, Toumbuctou, Tumbutu etc., destacando-se que a cidade tem o mesmo nome da região em que está situada, da qual é a capital. Ambas são Timbuktu, com a mesma variedade de grafias. Por questões de redação escolheu-se usar Timbuktu tanto para a cidade, quanto para a Região.

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Imagem Autoridades de segurança do Mali, em frente do hotel Radisson em Bamako, mostram uma bandeira que alegam pertencer aos perpetradores do sequestro

(Fonte Joe Penney / Reuters):

http://www.aljazeera.com/news/2015/11/gunmen-hostages-mali-hotel-reports-151120084719883.html

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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