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Ativismo à distância ganha espaço, juntamente com as dúvidas sobre sua real eficácia

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Articulado através de imagens, vídeos, discursos e símbolos, as mais diversas causas em solo africano ganham adeptos a cada minuto. Ativistas locais enquadram suas causas sob um conjunto universal de valores, como o respeito à natureza, aos direitos humanos, à democracia e à igualdade racial e étnica, sendo capazes de atrair seguidores das regiões mais diversas do globo.

E através dos cliques, dos compartilhamentos e dos comentários feitos nas redes sociais é que ativistas locais e habitantes do mundo todo se encontram. É nesta sociedade civil global – considerada por muitos intelectuais como a única esfera capaz de remodelar as instituições públicas, tendo em vista o atual fracasso relativo do sistema de representação republicana[1] – que anseios, projetos e porque não novas utopias são edificadas.

Expedições parecem cada vez mais desnecessárias aos ativistas sem fronteiras: um gasto de recursos e tempo desnecessário, pois em um intervalo de hora um indivíduo qualquer, conectado a uma boa rede wi-fi, pode apoiar causas sociais/ambientais na África do Sul, na Nigéria, na Guatemala e em Mianmar.

As causas relativas à proteção animal são uma das categorias que mais recebem apoio internacional. Isto porque o rico patrimônio natural africano é constantemente ameaçado pelas ações humanas. O comércio ilegal de marfim, por exemplo, causa,anualmente, a morte de 10% do total de elefantes que habitam o continente[2].

Somente com um clique, mais de 750 mil membros da sociedade civil global assinaram uma petição online, em junho de 2014, destinada às autoridades políticas europeias e norte-americanas, urgindo por medidas legais imediatas para desacelerar o comércio internacional ilegal de marfim[3].

Até momentos banais, como os jogos online, usualmente utilizados à diversão individual, podem se transformar em momentos de protesto e de apoio a uma causa. Em 2007, o jogo Darfur is Dying transformou-se em uma das principais febres online, atraindo centenas de milhares de jogadores por dia. Para muitos, uma das principais virtudes do jogo era a sua capacidade de tornar inteligível a muitos quais as dificuldades que os habitantes dessa região enfrentam diariamente[1].

O ativismo supranacional, em última instância, consolida-se no consumo responsável: do cafezinho vespertino às roupas de cama, do combustível automotivo ao peixe comprado no mercado, tudo apresenta algum selo de qualidade, de proveniência, de garantia que de alguma maneira conforta o indivíduo, que seu ato não é mero consumismo, mas sim um ato que sustenta e promove boas práticas corporativas.

A gigante companhia americana de café, a Starbucks, deixa bem claro esta intenção em seu slogan: “mais do que uma xícara de café[4]. Em seu website, a companhia apresenta alguns dos detalhes de sua parceria com os fornecedores, demonstrando que os plantadores de café na Etiópia, por exemplo, fazem parte de uma grande política corporativa de comércio justo e legal de café, garantindo ao produtor rural, em teoria, uma boa margem líquida[4].

Assim, sentado em uma Starbucks, com acesso ilimitado a sites como o Avaaz e Change.org, um indivíduo qualquer poderá gozar da oportunidade sentir-se um cidadão pleno, transnacional e, claro, um ativista.

Este cenário traz consigo a verdadeira reificação de valores usualmente tão opostos às práticas empresarias: se há tempos atrás direitos humanos, direitos trabalhistas e respeito à natureza tinham com antítese as companhias transnacionais, hoje um simples copo de café pode embutir todas essas noções, despertando no consumidor uma sensação de dever cumprido.

Tanto o consumo consciente citado acima quanto os cliques online são sustentados pela mesma lógica. Produtos do cotidiano, como os serviços de internet ou uma xícara de café, apresentam um novo valor; um valor que não diz respeito somente ao objeto em si, aos seus limites, às suas características físicas ou mesmo ao seu uso, mas sim a um discurso e a uma ideia mental que ele traz consigo.

Esta nova economia política agrada a muitos, bem como traz consigo críticos ferrenhos a este sistema de práticas econômicas tipicamente pós-moderno. Aos defensores cabe à explicação de que esta é a maneira pragmática de se mudar mundo[1]. Para eles, esta conjuntura permite que estratégias como circuitos curtos de comercialização agrícola e certificação ambiental, capazes em certa medida de solucionarem alguns problemas socioeconômicos nas regiões menos desenvolvidas do globo, sejam viabilizados.

Aos críticos, por sua vez, cabe à predileção por expedições reais ao invés de meras incursões online pelas mais variadas petições e jogos que existem na rede. Em outras palavras, tal grupo de analistas avalia que o ativismo à distância e o consumo consciente são formas aceitáveis de se lidar com os problemas sociais, mas incapazes de por fim aos grilhões da pobreza e da desigualdade[5][6].

São adeptos do que disse uma vez Oscar Wilde sobre como deveria ser a verdadeira política de responsabilidade social: teria como “objetivo não outro senão o de reconstruir uma sociedade de uma forma à qual a pobreza não seria possível[5]. Ou seja, mitigar somente não é o suficiente.

Não à toa, tais críticos afirmam que a reconstrução de instituições públicas e a reestruturação das práticas comerciais internacionais é a única estratégia capaz de lidar adequadamente com as questões ambientais, sociais e políticas na África.

De maneira similar, diversas autoridades e personalidades africanas usualmente se opõem a tais práticas corporativas e digitais de responsabilidade e engajamento social, comparandoas às missões do bom homem branco[1], tão comuns no fim século XIX. O escritor africano Teju Cola, em uma importante rede social, afirmou que “a indústria que cresce mais rápido nos Estados Unidos é o Complexo Industrial da Sabedoria Branca[1], em clara referência às companhias transnacionais e aos ativistas digitais.

Campanhas online, como a #bringourgirlsback, levada a cabo no ano passado após o sequestro de 200 meninas pelo grupo terrorista Boko Haram, são capazes de demonstrar o posicionamento político de muitos, pressionando o Governo local a adotar medidas práticas para solucionar a questão. Entretanto, é de fato incapaz de afirmar ao certo a sua efetividade, bem como o seu caráter explicativo a um conjunto de pessoas tão distantes geograficamente.

O conhecimento superficial das questões políticas, econômicas, culturais e sociais dos locais os quais os ativistas sem fronteiras advogam é outro importante fator comumente levantado pelos críticos[1][6]. Na verdade, o ativismo a distância não é capaz de transmitir ao estrangeiro um conhecimento total sobre a conjuntura de determinado local. Assim, não à toa, as causas digitais mais populares tendem a ser sustentadas por velhos estereótipos que dominam o imaginário ocidental sobre o continente africano[1].

Por fim, as práticas de consumo responsável levada a cabo por inúmeras corporações transnacionais não apresentam dados convincentes sobre avanços sociais e econômicos. Dificulta-se assim identificar se tais práticas de fato promovem o avanço na qualidade de vida a um expressivo grupo de pessoas ou se tratam-se de mais um repertório do marketing verde e social tão cultivado atualmente[1].

Consistentes ou não, tais críticas não desacelerarão a atual revolução no processo distributivo, na comunicação transnacional e no caráter das práticas de consumo. O discurso cultural, moral e ideológico como fonte de valor às mercadorias mais banais do nosso cotidiano apresentamse como forte tendência mundial para o século XXI. Espera-se somente que as críticas conduzam esta nova conjuntura a um estado onde o consumo responsável e o ativismo sem fronteiras não seja somente um novo repertório de dominação, mas sim o início a um estado de convergência entre qualidade de vida e práticas econômicas. Este seria o verdadeiro desenvolvimento sustentável que todos esperam.

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Imagem (FonteTunchsyn):

https://tunchsyn.wordpress.com/author/tunchsyn/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver The Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2015/jun/18/digital-saviour-saving-lives-internet-age-save-darfur

[2] Ver Estado de S. Paulo”:

http://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,amostras-de-dna-rastreiam-origem-de-marfim-ilegal-na-africa,1709521

[3] VerAvaaz”:

https://secure.avaaz.org/en/hours_to_save_elephants_uk/

[4] Ver StarbucksEthical Coffee”:

http://www.starbucks.com/responsibility/sourcing/coffee

[5] Ver Marxists.org”:

https://www.marxists.org/reference/archive/wilde-oscar/soul-man/

[6] Ver The Guardian”:

http://www.theguardian.com/global-development/poverty-matters/2011/apr/22/slavoj-zizek-animated-ideas-about-charity

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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