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A atuação da Rússia na construção do processo de paz na Síria

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A guerra na Síria desdobra-se desde 2011 e, até então, segundo o Observatório Sírio para Direitos Humanos (OSDH), foram causadas, no total, 340 mil mortes. Esse conflito civil entre o governo sírio de Bashar al-Assad e as forças rebeldes tomou proporções gigantescas, com intervenções militares de diversos outros países, como Rússia, Estados Unidos (EUA), Turquia, Irã, entre outros. Dessa forma, é um cenário complexo e de difícil alcance de uma solução que agrade a todos os lados.

Nesse sentido, desde o início de 2017, tenta-se montar um acordo de paz entre as forças rebeldes e o Governo sírio no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), negociações essas que estão sendo realizadas em diversas rodadas na cidade de Genebra, na Suíça. Entretanto, o processo vem se mostrando desgastante e sem sucesso.

A partir disso, a Rússia começou a se destacar nesse cenário internacional ao tentar conduzir à sua própria maneira o processo de paz na Síria. Em novembro de 2017, Vladimir Putin, atual presidente da Federação Russa, reuniu-se oficialmente com o presidente al-Assad em Sochi, na Rússia. O objetivo desse encontro foi a discussão de um possível armistício e uma proposta de paz para a região. Putin tem sido aliado de al-Assad e realizou intervenções militares na Síria a favor do Governo. Dessa forma, o Presidente sírio, nessa reunião, congratulou Putin pela excelente resposta militar realizada nos últimos tempos no país e por ter “salvado a Síria, visto que, desde então, o governo sírio voltou a ter o controle da maioria das cidades que estava sob domínio dos rebeldes e do Estado Islâmico. Entretanto, o Presidente russo afirmou que a operação militar estaria chegando ao seu fim e que era hora de trabalhar numa solução política duradoura, afirmação que se concretizou em dezembro passado,  com o início da retirada das tropas russas do território Sírio.

Presidente do Irã, Hassan Rouhani, Presidente da Rússia, Vladimir Putin e Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, dão as mãos no encontro em Sochi sobre o processo de paz na Síria

Ainda em novembro de 2017 e após o encontro oficial com al-Assad, Putin reuniu-se oficialmente com os líderes da Turquia e do Irã para que os três Chefes de Estado avaliassem a possibilidade de um armistício e para considerarem a atuação conjunta deles na reconstrução da Síria. O Irã, assim como a Rússia, é aliado do governo sírio; a Turquia, porém, apoia os rebeldes, fato que já veio a colocar esse Estado em conflito com a própria Rússia. Durante a reunião, Putin demonstrou o interesse de seu país em ser um intermediário diplomático no conflito sírio, além de destacar que o objetivo é construir uma proposta de conferência pós-guerra de forma a pavimentar o caminho em direção a um acordo que garanta a permanência de al-Assad no poder. Assim, deseja realizar uma Reunião de Cúpula onde representantes do Governo sírio se reuniriam com os rebeldes para chegarem em um acordo político e diplomático.

Tal Cúpula estava prevista para ter ocorrido em dezembro de 2017, entretanto, não se concretizou e, agora, espera-se que aconteça nos dias 29 e 30 de janeiro em Sochi. Portanto, durante esses dois dias, ocorrerá o Congresso de Diálogo Nacional Sírio, em que se planeja o envio de mais de 1.700 convites a diversos grupos sírios, inclusive aqueles da oposição oficial. Além disso, o governo de Putin está se esforçando para que o próprio enviado da ONU responsável pela Síria, Staffan de Mistura, compareça ao Congresso.

Nesse sentido, o Governo russo insiste em afirmar que esse processo paralelo não irá minar e nem descreditar o de Genebra. Pelo contrário, em Sochi, a Rússia seria responsável por garantir que os principais elementos presentes na Resolução do Conselho de Segurança, que garante uma solução política na Síria, sejam respeitados, visto que estariam longe do processo disfuncional de Genebra. Assim, esses elementos seriam levados para as reuniões da ONU e lhes garantiria a legitimidade internacional.

Entretanto, há descrenças quanto aos verdadeiros interesses russos. Para alguns grupos rebeldes, a Rússia está agindo de modo a ignorar as negociações de Genebra organizadas pela ONU. E, segundo a declaração realizada pelos rebeldes ao final do mês passado (dezembro de 2017), a “Rússia não contribuiu de forma alguma a diminuir o sofrimento dos sírios e não pressionou o regime de forma a mover-se realmente em busca de uma solução (…) a Rússia é um país agressor que cometeu crimes de guerra contra os sírios. Permaneceu ao lado do regime militar defendendo seus interesses políticos e por sete anos preveniu que houvesse uma condenação do regime de al-Assad pela ONU”.

Tal posicionamento de alguns grupos rebeldes coloca em xeque a possibilidade de que haja realmente solução na conferência que ocorrerá ao final de janeiro. Além disso, eles estão promovendo uma campanha para que Staffan de Mistura não compareça à conferência, alegando que não prejudique o processo de Genebra e, também, para que deslegitime o Congresso em Sochi. Entretanto, a situação do enviado da ONU é vulnerável. As negociações de Genebra tiveram outra rodada em dezembro e essa mostrou-se um fracasso, visto que o presidente al-Assad se recusou a negociar. Por conta disso, de Mistura tende a não boicotar a Conferência de Sochi porque talvez encontre em Putin o aliado necessário para que o plano de paz na Síria se concretize.

Não são apenas os grupos rebeldes sírios que encaram com dubiedade as ações da Rússia. A União Europeia e os EUA também não analisam positivamente as ações do presidente Putin. Entretanto, é perceptível que as ações do ocidente em busca da paz estão se mostrando ineficientes. Desde a entrada de Donald Trump na Presidência dos EUA, em janeiro de 2017, é perceptível a atuação fraca do país na Síria, em que ele está falhando em colocar em prática seus principais objetivos de política externaEssa situação permitiu que Putin se aproveitasse para liderar um projeto paralelo de paz na Síria e promover suas diretrizes de política externa em um momento em que as eleições russas se aproximam.

Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, junto ao Presidente da Federação Rússia, Vladimir Putin

Não obstante, os EUA e seus aliados, como Reino Unido e França, ainda possuem presença no território sírio. No dia 15 de janeiro, a coalizão liderada pelos norte-americanos anunciou seu trabalho conjunto com os aliados da milícia síria, a Força Democrática Síria, para o estabelecimento de novas forças na fronteira com a Turquia e o Iraque e, também, dentro da própria Síria, ao longo do rio Eufrates, separando os territórios desse grupo daqueles do Governo.

Esse novo cenário liderado pelos EUA coloca em risco qualquer processo de paz na Síria. De acordo com o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, “essas forças fronteiriças demonstram que os EUA não têm interesse em manter a integridade territorial da Síria. Isso é bastante sério, visto que levanta uma preocupação de que um caminho em busca da repartição da Síria tenha sido tomado”. Dessa forma, a decisão adotada pela coalizão pode vir a prejudicar os planos da Rússia, principalmente tendo ocorrido tão perto do Congresso que está marcado para o fim deste mês (Janeiro).

Diante disso, é esperado que haja retaliação da Rússia, visto que seus interesses na Síria foram diretamente prejudicados pelos Estados Unidos. De acordo com o Presidente da Comissão de Defesa da Duma Federal da Rússia*, Vladimir Shamanov, “a Rússia agirá, com certeza, de forma a estabilizar essa situação na Síria”.

Dessa forma, a construção da paz na Síria pela Rússia pode vir a não se concretizar tão cedo e, provavelmente, nem as rodadas de negociação em Genebra trarão logo resultados positivos. Enquanto isso, o jogo de poder e influência entre as nações no território da Síria prevalece e a Guerra continua, resultando em mais sofrimento para a população civil.

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A Câmara Baixa do Legislativo Russo, que, por analogia, poderia ser equivalente à Câmara dos Deputados do Congresso Federal no Brasil, ou à Câmara dos Representantes nos EUA.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Reunião oficial entre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o Presidente sírioBashar alAssadem Sochina Rússiaem novembro de 2017” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vladimir_Putin_and_Bashar_al-Assad_(2017-11-21)_03.jpg

Imagem 2 Presidente do IrãHassan RouhaniPresidente da RússiaVladimir Putin e Presidente da TurquiaRecep Tayyip Erdogandão as mãos no encontro em Sochi sobre o processo de paz na Síria” (Fonte):

http://en.kremlin.ru/events/president/news/56152/photos/51379

Imagem 3 Ministro das Relações Exteriores da RússiaSergei Lavrovjunto ao Presidente da Federação RússiaVladimir Putin” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vladimir_Putin_with_Sergey_Lavrov_(2016-03-23).jpg

Isabela Joia - Colaboradora Voluntária

Bacharela em Relações Internacionais pelas Faculdades de Campinas (FACAMP) e atual graduanda em Ciências Econômicas pela mesma instituição. Participou da Newsletter do Centro de Estudos de Relações Internacionais (CERI) da FACAMP como redatora e corretora de artigos. Fez sua tese de conclusão de curso sobre as relações diplomáticas entre a Rússia e os Estados Unidos no pós Guerra Fria. Tem grande paixão pela escrita e por assuntos relacionados à Segurança Internacional e Diplomacia.

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1 Comments

  1. Gentilli 24 de janeiro de 2018

    Infelizmente, a resolução que buscam para o conflito sírio, passa longe do bem-estar dos civis. Tanto a mesa de negociação alternativa de Putin, quanto aquela mesa oficial de Genebra (que poderíamos chamar de mesa oficial do Ocidente) buscam estabilizar a região em função do bom e velho petróleo. David Harvey afirmou em "O Novo Imperialismo" que “o acesso ao petróleo do Oriente Médio é uma questão de segurança crucial para os Estados Unidos, bem como para a economia global como um todo” e como sabemos a A Rússia é o principal fornecedor de petróleo e gás para o mercado europeu. A Síria é hoje o centro dessa disputa, pois por lá passam os projetos de construção de oleodutos daqueles países e seus aliados visando abastecer o grande mercado europeu.

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