LOADING

Type to search

Share

[:pt]

O Bloco europeu enfrenta a maior crise existencial desde sua formação e luta por sobreviver perante o levante dos partidos de direita e extrema direita que, aos poucos, vão conquistando território no cenário político e refletindo o aumento do euroceticismo e extremismo crescente da região.

Com um discurso considerado xenófobo e cheio de apologias nacionalistas, a nova direita europeia tem sido vista como caracterizada mais pelo discurso exacerbado e patriótico do que por advogar pela solução dos problemas econômicos reais existentes e pela reestruturação necessária para promover o crescimento da região. Analisando os discursos, se observa que grande parte do argumento se baseia em responsabilizar os fatores externos pelas mazelas de sua sociedade, principalmente os estrangeiros e os governos de outros países. Segundo esses políticos, a União Europeia (UE) minou a soberania deles, impôs seu modelo econômico, reduziu sua autonomia internacional, reestruturou sua economia, reduziu sua competitividade e lhes obrigou a contrair uma série de políticas que lhes afetaram social e economicamente.

Muitos desses líderes, no entanto, parecem ignorar as composições demográficas de seus países (que, em muitos casos, contam com uma considerável proporção de imigrantes) e também as características produtivas de suas nações, além do fato de que todas essas mudanças estão previstas no processo de adesão e participação no Bloco econômico.

Esse discurso usado pelos nacionalistas europeus contraria o próprio modelo de integração da União Europeia, cuja base é a promoção da integração regional em diferentes níveis nas áreas de economia, política, sociedade e cultura, não sendo possível apenas participar da parte conveniente do Bloco, mas em sua totalidade, e, ao invés de adquirirem somente os benefícios, devem também assumir as obrigações da parceria.

Muitos desses Estados já demonstraram um enorme desgaste com Bruxelas e estudam sua saída da União. Ainda que a situação do Reino Unido (Brexit) siga em discussão, a Europa teme que um novo plebiscito possa vir a ocorrer em uma nação muito emblemática na história do continente: a Áustria, berço de Adolf Hitler e palco de uma das maiores convenções já realizadas no continente (a Convenção de Viena). Nesse sentido, os austríacos podem criar um novo capítulo na desfragmentação do Bloco europeu.

O Ausloss (ou perda da Áustria) ganhou forma após o cancelamento das eleições realizas em abril de 2016, por suspeita de fraude, havendo depois desse episódio um crescente favoritismo ao candidato ultranacionalista Norbert Hofer, do partido de extrema direita “Liberdade para a Áustria” (FPÖ).

Hofer já declarou que, se ganhar as eleições de dezembro de 2016, realizará um plebiscito para decidir se a Áustria deve ou não permanecer no grupo, e também informou que o país não irá cumprir políticas impostas pela União Europeia no que diz respeito às cotas de refugiados, ou à livre circulação de pessoas, além de ser contrário às negociações internacionais que a UE realiza com outros blocos.

Os discursos mantidos pelos partidos nacionalistas na Europa ganharam maior espaço após a vitória de Donald Trump e as movimentações à direita na América Latina. O paradigmático desse movimento é que o mesmo parece ignorar a dinâmica da economia global e da integração gerada pela globalização, onde não há espaços para uma visão econômica clássica.

Isolar um país para incentivar a economia através da produção nacional, investir na criação de muros e expulsão de mão de obra barata, que mantém um discurso patriótico e ganha votos, impacta diretamente contra a dinâmica global de competitividade e também na cadeia produtiva mundial, estabelecida pelo próprio sistema capitalista, vencedor da Guerra Fria. Os países competem entre eles e, se uma grande fábrica saiu da Europa para produzir na Ásia ou na China, isso se deve a uma série de fatores produtivos que cada país potencializou.

A Europa enfrenta os reflexos de uma integração desequilibrada, onde as assimetrias entre as nações participantes são cada vez maiores e, ao ser a solução para países de economia mais fraca, se transformou, para os europeus, numa espécie de carrasco de suas economias e políticas. Nesse sentido, da mesma forma que as nações participantes do Congresso de Viena não conseguiram reestabelecer a ordem mundial no século XIX, tornando a Áustria o símbolo de um início que fracassou, o Ausloss pode ser outro princípio, o do fim do Bloco europeu, que conseguiu durante um breve período superar os Estados Unidos como economia e ser a maior potência do mundo, mas que agora desfalece aos poucos.

———————————————————————————————–                    

ImagemFronteira da Áustria” (Fonte):

https://www.euractiv.com/wp-content/uploads/sites/2/2016/11/Austria-border_CREDITJohanna-Poetsch_Shutterstock.jpg

[:]

Wesley S.T Guerra - Colaborador Voluntário Sênior

Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.