LOADING

Type to search

Breves apontamentos acerca da nova “Política Externa” russa

Share

Conforme apontam os especialista, a realidade mundial está passando por constantes transformações numa dinâmica acelerada e, a cada dia, torna-se mais instável, dificultando as  previsões, ressaltando-se que tais incertezas são altamente nocivas à segurança nacional. Tendo em vista esta condição, Vladimir Putin, presidente da “Federação Russa”, encarregou o “Ministério das Relações Exteriores” de realizar uma nova proposta dePolítica Externa”, visando a criação das condições necessárias para transformar o país em uma espécie de foco de estabilidade capaz de atrair parceiros para traçar um caminho coletivo em um mundo turbulento.

A tarefa da criação de um novo conceito de “Política Externa” fora designada pelo Presidente no dia de sua posse (7 de maio de 2012) e o Ministério responsável teve como base para o desenvolvimento do projeto um artigo publicado por Putin no final de fevereiro do mesmo ano, intitulado de “A Rússia e o mundo em mudança”*, no qual ele aponta a necessidade da criação de um novo conceito, algo que se justifica pelo entendimento das mudanças ocorridas nas relações internacionais nestes últimos anos. Por essa razão, a condução da política externa russa, até então, não seria suficiente para lidar com as atuais ameaças, já que a instabilidade apresentada no mundo gerou a demanda de novas posturas. Tais informações vieram do acesso que o jornal russo Kommersant teve ao esboço do Projeto**, no dia 14 de dezembro.

O Documento, apresentado pelo “Ministério das Relações Exteriores”, enumera os fatores que contribuem para um mundo “mais instável e mais imprevisível”. A crise global é o primeiro fator apontado, descrita como “um poderoso catalisador das profundas mudanças no cenário geopolítico”**. O segundo fator consiste nas intervenções realizadas por países do Ocidente nos assuntos internos de outros países, nas palavras das autoridades russas, “nas tentativas de impor sua própria escala de valores a outros, [resultando] no deslize para o caos e a falta de controle nas relações internacionais”**.

O enfraquecimento do papel da “Organização das Nações Unidas” (ONU) através “da aplicação de medidas unilaterais para resolução de crises por meio de sanções e do uso da força, sem a devida aprovação do Conselho de Segurança da ONU (juntamente) com interpretações arbitrárias de suas resoluções”**, consiste no terceiro fator de instabilidade mundial. Complementada a sequência pela intensificação de desafios e ameaças transfronteiriças e uma tendência de re-ideologização das relações internacionais, respectivamente, como o quarto e o quinto fatores.

Dito isso, os autores do Projeto concluem que “sob as condições de turbulência global e a crescente interdependência entre os Estados, não há futuro na tentativa de construir separados ‘oásis de estabilidade e segurança’, (sendo assim, a Rússia deve exercer) um papel único, formado ao longo de séculos, como um fator de equilíbrio nos assuntos internacionais e no desenvolvimento da civilização mundial”**. É esta missão que irá conduzir o novo conceito de política externa do país.

Para tal, a condução desta nova política deve-se centrar em três objetivos primordiais. O primeiro deles consiste no resgate à economia mundial e, concomitantemente, “promover ativamente a formação de uma justa e democrática arquitetura global econômica-comercial e financeira-monetária”**.

O segundo objetivo relaciona-se ao combate às intervenções externas nos assuntos internos de um país. A política russa, para isso, irá “esforça-se para garantir o respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades (enquanto leva) em conta as características nacionais, culturais e históricas de cada Estado”**. Por último, o país irá defender a posição de que não há alternativas à ONU, não permitindo que “intervenções militares ou outras formas de interferências”** possam ocorrer de forma unilateral.

Para a realização de tais objetivos, a Rússia irá incluir em suas ações o uso do “Soft Power” (‘poder suave’ ou ‘poder brando’, em tradução livre). No entendimento do Governo, “Soft Power” consiste “em um conjunto de instrumentos de solução de desafios à política externa, contando com o potencial da sociedade civil, de instrumentos de informação e de comunicação, humanitário, e outros métodos e tecnologias como alternativas para a diplomacia clássica”**.

Finalizando, o Documento irá propor algumas alterações no que tange as ‘prioridades regionais’ nas ações externas do país. Sendo assim, a integração no espaço que outrora constituía a “União Soviética” tornou-se a principal prioridade no governo Putin.

Extrema atenção será dada as seguintes organizações: “Comunidade de Estados Independentes” (formado em conjunto com as ex-repúblicas soviéticas); “União Aduaneira” (entre Rússia, Bielo-Rússia e Cazaquistão); “Comunidade Econômica Euro-Asiática” (formada por Rússia, Bielo-Rússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão); “Organização do Tratado de Segurança Coletiva (composta por Rússia, Armênia, Bielo-Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão); “União Rússia-BieloRússia” e a futura “União Econômica da Eurásia”.

Uma maior aproximação com a “União Européia” (UE) tornou-se a segunda prioridade na nova política externa russa. Em seu artigo, Putin afirmou seu interesse em estreitar as relações entre o seu país e a UE, uma vez que, “a Rússia é uma parte inseparável e orgânica da Grande Europa e da civilização europeia. Nossos cidadãos pensam em si mesmos como europeus”*.

De acordo com o Presidente, as atuais dificuldades enfrentadas pele Europa – tradicionalmente um “Oasis de estabilidade e ordem”* – afetam os interesses do país, visto que, a região é o maior parceiro econômico-comercial da Rússia. Putin defende a criação de um espaço econômico ehumanocomum, através do estreitamento dos laços econômicos, criando um mercado comum e, da superação do visto, uma barreira ao livre fluxo de pessoas.

Em seu artigo, Putin defende: “Proponho mais uma vez que nós trabalhemos para a criação de uma comunidade harmoniosa de economias, de Lisboa a Vladivostok, que no futuro irá evoluir para uma zona de livre comércio e até formas mais avançadas de integração econômica. O resultado do mercado continental comum seria equivalente a trilhões de euros. Alguém duvida que isso seria um desenvolvimento maravilhoso e que iria atender os interesses de ambos, russos e europeus?”*.

Além disso, o Documento definirá as cooperações com a “Organização para a Segurança e Cooperação na Europa” (OSCE), com a “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN), com os países nórdicos, com os países dos Balcãs e com o “Conselho de Estados do Mar Báltico”.

Em relação aos EUA, o Projeto irá apresentar duas linhas de conduta. A primeira, na obtenção de garantias legais de que o escudo antimíssil americano, implementado na Europa, não irá prejudicar os interesses russos. A segunda conduta diz respeito à defesa das doutrinas fundamentais do direito internacional, principalmente no princípio da não-intervenção nos assuntos internos de um país.

Embora o jornal Kommersant não tenha mencionado o papel dos BRICS na nova política externa do país, é possível identificar que o Bloco terá grande importância na conduta externa russa. Em entrevista recente, o secretário do “Conselho de Segurança da Rússia”, Mikolai Patruchev, afirmou que o desenvolvimento da cooperação intra-bloco é uma das principais vertentes da política externa do país***.

Além disso, em seu artigo anteriormente mencionado, Vladimir Putin aponta para importância do desenvolvimento do Bloco. “Vamos continuar a priorizar a cooperação com os nossos parceiros do BRICS. Essa estrutura única, criada em 2006, é um símbolo marcante da transição de um mundo unipolar para uma ordem mundial mais justa. (…). Em particular, temos de coordenar melhor questões de política externa e colaborar mais estreitamente na ONU. Mas quando os BRICS estiver realmente instalado e funcionando, o seu impacto sobre a economia mundial e da política será considerável”*.

Neste novo conceito de “Política Externa”, a Rússia busca defender seus interesses nacionais de uma forma não unilateral, já que tais ações contribuiriam para o agravamento de um mundo “mais instável e mais imprevisível”*. Para tal, busca “uma cooperação mutuamente benéfica e de diálogo aberto com todos os nossos parceiros estrangeiros. Nosso objetivo é compreender e levar em conta os interesses de nossos parceiros, e pedimos que nossos interesses sejam respeitados”*.

Analistas apontam que a ação significa a determinação formal da postura russa ao longo dos últimos anos, porém, com o Projeto, a política externa da Rússia adquirirá um corpo com proposta doutrinária capaz de atrair membros, fazendo com que o país trace um caminho para recuperar a liderança que havia perdido após o término da bipolaridade do sistema internacional, quando acabou a “Guerra Fria”, momento em que liderava a extinta “União Soviética”, a maioria dos demais países do então Bloco socialista e se constituía como um dos faróis de liderança global.

——————————————–

Fontes consultadas:

* Ver:

http://rt.com/politics/official-word/putin-russia-changing-world-263/

** Ver:

http://www.accessmylibrary.com/article-1G1-312213587/russia-putin-new-foreign.html

*** Ver

http://gazetarussa.com.br/articles/2013/01/14/brics_esta_entre_as_maiores_prioridades_russas_diz_secretario_do_con_17201.html

Tags:
Thiago Babo - Colaborador Voluntário

Mestrando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (Usp); Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP). Colaborador do Núcleo de Análise da Conjuntura Internacional (NACI) e do Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura (Polithicult). Experiência profissional como consultor de negócios internacionais. Atua nas áreas de Política Internacional, Integração Europeia, Negócios Internacionais e Segurança Internacional. No CEIRI NEWSPAPER é o Coordenador do Grupo Europa.

  • 1

Deixe uma resposta