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[:pt]Calais: O Retrato da Crise Humanitária dos Refugiados na Europa[:]

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O campo de refugiados de Calais, mais conhecido como “Selva”, ou “Abrigo de Calais”, localizado ao norte de França, nas proximidades do Canal da Mancha[1], iniciou o processo de desocupação em 24 de outubro. O maior acampamento de expatriados na Europa, que abrigou um contingente de 6 mil a 8 mil pessoas oriundas de diferentes partes do mundo mas, sobretudo, do Sudão e do Afeganistão, foi, até recentemente, o retrato das condições de vida péssimas em habitações improvisadas, nas quais as vítimas de guerras, perseguições políticas e religiosas, tentavam sobreviver e encontrar um rumo após o processo migratório forçado. As autoridades francesas prepararam a transferência dos refugiados para 450 centros de acolhimento em diferentes partes de França e deixaram duas opções para eles, isto é, seguir para o local determinado ou retornar ao país de origem. O modo como foi feita a remoção dessas pessoas tem gerado críticas, principalmente por parte das organizações humanitárias que estão descontentes, sobretudo, com a falta de cuidado com as crianças.

Os grupos de ajuda denunciaram o fato de, aproximadamente, 1.200 crianças e adolescentes desacompanhados não terem recebido um cuidado especial por parte das autoridades francesas e de permanecerem sozinhos no local, em condições inaceitáveis, devido ao início da demolição do acampamento. Segundo Gloria Micallef, voluntária da ONG Care4Calais, “as autoridades não ofereceram nenhuma solução. Se não fossemos nós, onde é que estas crianças iriam dormir?”.

O descaso com os menores é um aspecto que vem sendo questionado pelos ativistas de causas humanitárias, mas não é o único. Ao pôr fim ao acampamento de Calais, “considerado a maior favela da Europa”, o Governo francês não conseguiu fazer retroceder a movimentação desses desabrigados no país, a qual tem provocado a favelização. Paris, que ficou fora da operação de Calais por não ter condições de receber refugiados, tornou-se o destino daqueles que evitaram ir para os centros de acolhimento.

A capital francesa, que contava com aproximadamente 3.000 pessoas vivendo nas ruas, a maioria homens jovens, nos últimos dias viu esta população aumentar. De acordo com Colombe Brossel, Secretária Municipal de Segurança de Paris, após o fechamento do acampamento de Calais aumentou o número de moradores de rua daquela metrópole. Ela estima que cerca de 1.500 a 2.000 pessoas provenientes do lugar teriam se instalado no norte de Paris, onde está concentrada a maioria dos barracos improvisados.

Por medo de serem apanhadas, muitas pessoas que estão, hoje, em Paris, negam que estiveram em Calais. Um jornalista do Sudão, que dorme nas ruas parisienses, afirmou que “as pessoas têm medo de dizer a alguém que estavam em Calais. Eles não sabem se a pessoa é da Polícia ou trabalha para o Governo”. Nos últimos tempos, cerca de 30 acampamentos foram desmontados na capital francesa, mas isto não tem sido suficiente para aplacar o surgimento de outros que crescem rapidamente e cada vez mais com um maior número de pessoas.

Enquanto em Paris aumenta a quantidade de moradores de rua, o que já é considerado uma “catástrofe humanitária”, muitos tencionam retornar para Calais, com o objetivo de conseguir chegar à Grã-Bretanha. As circunstâncias reforçam a compreensão de que o desmantelamento de campos de refugiados, em território francês, não conseguiu inibir a procura de uma resposta precária por aqueles que perderam os lares em seus países de origem e tentam, em terra estranha, substituí-los por um abrigo enquanto aguardam pela realização de um futuro que nunca chega.

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ImagemHabitantes do campo de refugiados Selva incendeiam suas barracas durante os despejos (Março de 2016)” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8e/Calais-jungle-demolitions.jpg

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Nota:

[1] Localizada no Estreito de Dover, Calais está situada no ponto mais estreito do Canal da Mancha, sendo a cidade francesa mais próxima de Inglaterra.

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Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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