LOADING

Type to search

Camp Bucca: berço provável do Estado Islâmico

Share

Camp Bucca, situada em Umm Qsar, foi, até 2009, a maior prisão dos EUA no Iraque. O campo de detenção norte-americano entrou em atividade durante a Segunda Guerra no Iraque e chegou a ter aproximadamente 100.000 prisioneiros, de entre os quais são de salientar nove membros do alto comando do futuro Estado Islâmico (EI) [1], incluindo Abu Bakr al-Baghdadi[2].

Vários líderes radicais da atualidade passaram por Camp Bucca e, muitos deles, se conheceram nesse local. Hoje, Camp Bucca tem chamado a atenção de muitos especialistas em jihadismo, que acreditam que a prisão serviu de escola preparatória para os fundamentalistas. O local ofereceu todas as condições para o nascimento de grupos radicais islâmicos ao tornar-se o ambiente propício à organização e ao recrutamento de muitos homens, dos quais vários foram presos indevidamente. Segundo um relatório da Cruz Vermelha, que vazou em maio de 2004, cerca de 90% dos seus prisioneiros foram detidos por “engano[3].

Dentro do Campo de Detenção havia a separação entre sunitas e xiitas. Ambos os grupos ocupavam alas diferentes e jamais se misturavam. Isto ocorreu em 2007, quando o extremismo chegou ao auge e a divisão foi feita para amenizar as tensões. Segundo um relatório militar, os presos passaram a resolver as suas próprias disputas em conformidade com a lei islâmica. “Dentro da cerca dos complexos, foram os extremistas islâmicos que passaram a mutilar ou a matar outros detentos por comportamentos contra o Islã[4]. Segundo um soldado citado no relatório, “os tribunais da Sharia impuseram uma série de regras dentro dos complexos. Qualquer um que apresentasse comportamento considerado ocidental era severamente punido pelos extremistas do complexo[5]. A junção dos presos de uma mesma concepção religiosa estimulava o radicalismo. Ali Hatem Suleiman, xeique e líder tribal da Província de Anbar, fez a seguinte indagação: “Que melhor maneira de ensinar a todos como se tornar fanático do que colocá-los todos juntos sem motivo e em seguida privá-los?[6].

Acredita-se que o clima explosivo do Oriente Médio atual, envolvendo o Estado Islâmico, teve seu início em Camp Bucca, que é o provável berço deste grupo. A prisão de Abu Bakr al-Baghdadi nesse local continua a ser um mistério, pois até hoje o motivo de sua detenção é desconhecido[7]. De acordo com o acadêmico Jeremi Suri e com Andrew Tompson, um militar veterano, antes de sua detenção, “o Sr. al-Baghdadi e outros eram radicais violentos, com a intenção de atacar a América. O seu tempo na prisão aprofundou o seu extremismo e deu-lhes a oportunidade de ampliar os seus seguidores. As prisões tornaram-se Universidades terroristas virtuais: os radicais endurecidos eram os professores, os outros detentos eram os alunos, e as autoridades penitenciárias desempenharam o papel de guardiões ausentes[8]. Saad Mahmoud Abbas, chefe de Polícia, confessou, em entrevista ao Washington Post, a preocupação pelo fato de que 90% dos prisioneiros libertados iriam retornar à luta, o que seria um problema grave para o Governo iraquiano. Os temores de Saad Mahmoud Abbas, ao que tudo indica, tornaram-se realidade. Relatórios indicam que Camp Bucca representa o “Capítulo de Abertura” da consolidação do Estado Islâmico[9], isto é, a sua fase embrionária.

Recentemente, após dois anos de negociações, o jornal The Guardian conseguiu uma entrevista com Abu Ahmed, um dos oficiais seniores do Estado Islâmico. Ahmed confessou que conheceu al-Baghdadi em 2004, em Camp Bucca. Ele resumiu a sua passagem por aquela prisão como a oportunidade que teve de contatar outras pessoas com os mesmos ideais, algo praticamente impossível em outro lugar. O líder insurgente fez a seguinte declaração: “Eu temia Bucca durante todo o percurso, no avião. Mas quando cheguei lá, foi muito melhor do que eu pensava. Em todos os sentidos[10]. Continuou ele: “Nunca poderíamos ficar todos juntos assim, em Bagdá ou em qualquer outro lugar. Teria sido incrivelmente perigoso. Ali, não estávamos apenas seguros, mas estávamos a apenas algumas centenas de metros de distância de toda liderança da al-Qaeda[10].

O líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, é descrito por Abu Ahmed como uma pessoa tranquila e carismática. A personalidade equilibrada de al-Baghdadi permitiu que ele fosse escolhido pelos carcereiros do presídio para ser o conciliador num ambiente explosivo e de incertezas. Com o passar do tempo, al-Baghdadi foi conquistando espaço dentro da prisão e, também, admiração e respeito entre os detentos. Isto permitiu consolidar a sua posição de líder e de construir as bases de seu grupo. Quando foi libertado, já havia conquistado seguidores. Em liberdade, al-Baghdadi, de certo modo, já possuía o seu grupo de combatentes.

Como descreve Abu Ahmed: “Tivemos muito tempo para planejar. Era o ambiente perfeito. Estávamos todos de acordo para nos reunirmos uns com os outros quando saíssemos. A maneira de nos reconectarmos foi fácil. Nós escrevemos os detalhes uns para os outros, sobre o elástico de nossos calções. Quando saímos, entrámos em contato. O nome de todos que eram importantes para mim, foram escritos em branco, no elástico. Eu tinha os seus números de telefones, as suas aldeias. Por volta de 2009, muitos de nós estávamos de volta fazendo o que fazíamos antes de termos sido presos. Mas, desta vez, estávamos fazendo isso melhor[11].

Há evidências de que Camp Bucca serviu para a formação do Estado Islâmico. Cabe destacar que também estiveram detidos no Campo e participaram da formação ideológica ex-oficiais de Saddam Hussein, como Abu Ayman al-Iraqi, atualmente integrante do Conselho Militar do Estado Islâmico, e Adnan Ismail Najm, conhecido como Osama al-Bilawi (Abu al-Abdul Rahman Bilawi), que desempenhou a função de Chefe do Conselho da Shura no grupo, antes de vir a óbito em junho de 2014, pelas Forças Armadas Iraquianas, próximo a Mosul[12]

A segregação de prisioneiros a partir das ideologias, segundo especialistas, foi uma medida que contribuiu de modo decisivo para o recrutamento, direto ou indireto, de prisioneiros pelos radicais[13]. Apesar dessas descobertas plausíveis, muitas perguntas permanecem sem resposta. No entanto, é possível afirmar ainda que a al-Qaeda, na época a grande ameaça ocidental, perdeu poder, mas o Ocidente não conseguiu conter as ameaças terroristas e enfrenta, na atualidade, o desafio de neutralizar o Estado Islâmico que tem, nas suas fileiras, combatentes determinados a defender uma ideologia extremista. Isto leva o Ocidente a enfrentar uma ameaça externa com ramificações internas, situação pouco provável até o surgimento do Estado Islâmico.

———————————————————————–

Imagem Militares norte-americanos no portão de acesso da prisão de Camp Bucca” (Fonte):

http://www.watson.ch/imgdb/62f1/Qx,E,0,0,1300,974,541,405,216,162/7200583962068099

———————————————————————–

Fontes Consultadas:

[1] O Estado Islâmico, inicialmente conhecido como al-Qaeda no Iraque e, mais tarde, como Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS), alterou o seu nome em junho de 2014, quando foi instaurado o Califado e Abu Bakr al-Baghdadi foi proclamado Califa. Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/o-estado-islamico-proclama-o-califado-e-coloca-o-oriente-medio-sob-alerta/

[2] Ver:

http://www.washingtonpost.com/news/morning-mix/wp/2014/11/04/how-an-american-prison-helped-ignite-the-islamic-state/

[3] Ver:

http://www.motherjones.com/politics/2014/07/was-camp-bucca-pressure-cooker-extremism

[4] Ver:

http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/camp-bucca-the-us-prison-that-became-the-birthplace-of-isis-9838905.html

[5] Ver:

http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/camp-bucca-the-us-prison-that-became-the-birthplace-of-isis-9838905.html

[6] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2009/sep/16/us-prison-iraq-bucca-closure

[7] Ver:

http://www.motherjones.com/politics/2014/07/was-camp-bucca-pressure-cooker-extremism

[8] Ver:

http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/camp-bucca-the-us-prison-that-became-the-birthplace-of-isis-9838905.html

[9] Ver:

http://au.ibtimes.com/articles/571953/20141106/isis-islamic-state-camp-bucca.htm#.VJy-590MBh

[10] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/dec/11/-sp-isis-the-inside-story

[11] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/dec/11/-sp-isis-the-inside-story

[12] Ver:

http://english.al-akhbar.com/node/21519

[13] Ver:

http://english.al-akhbar.com/node/21519

Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

  • 1

1 Comments

  1. BBC News Headlines 13 de março de 2015

    Obrigado por fornecer a informação legal relacionada com as circunstâncias atuais. Tanto os adultos e os jovens ainda ler e gostar jornais e quer saber mais sobre eventos importantes e usar essa informação para si. No entanto, os editores não usa apenas os materiais de impressão normal para chegar ao leitor, mas também a Internet desempenha um papel importante neste contexto. Por esta razão, o leitor também pode aproveitar os novos jornais on-line e obter todas as informações relevantes aqui hoje

    Responder

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.