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Candidato opositor nas eleições venezuelanas rompe a estratégia da Oposição

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O governo venezuelano anunciou que as eleições previstas para o próximo dia 22 de abril serão transferidas para o dia 20 de maio, após terem chegado a um “acordo de garantias eleitorais” em negociações realizadas com um grupo de opositores, sendo que alguns deles compunham a Mesa de Unidade Democrática (MUD), a principal frente do país contrária à administração de Maduro.

Logo da Mesa de Unidade Democrática (MUD)

Conforme foi anunciado, o acerto definiu que serão feitas também as eleições dos conselhos legislativos estaduais e municipais e até agora foi excluída a possibilidade de eleição de nova Assembleia Nacional, o Legislativo venezuelano, projeto que estava na pauta das lideranças vinculadas ao governo.

Tal concessão vem sendo considerada pelos observadores como mais um avanço estratégico por parte de Maduro, ao invés de uma perda para ele e de um ganho oposicionista, pois os debates entre governo e oposição que vinham sendo feitos na República Dominicana foram encerrados sem chegar a um termo de coexistência entre os dois antagonistas, e nem a um acordo que garantisse os elementos mínimos explicitados nas exigências tanto de um lado quanto do outro.

Analistas apontaram que o encerramento dos diálogos se deu configurando uma momentânea vitória de Nicolás Maduro, uma vez que este desejava ganhar tempo até chegar a certeza de que poderia impedir que a Oposição conseguisse se manter unida para o pleito que definirá o futuro Presidente da República pelos próximos seis anos, tanto que fazia parte de seu planejamento antecipar as eleições presidenciais para o primeiro trimestre de 2018, ao invés de realizá-la no final do ano, optando pela antecipação e definindo a data no momento certo.

Com isso, como dito, ele impediria os opositores, especialmente a MUD (principal frente a se contrapor aos chavistas e ao bolivarianismo), de apresentarem um programa único e uma proposta real de coalizão entre os segmentos mais expressivos que fazem parte da Mesa de Unidade Democrática, a qual reúne vários espectros de descontentes com o Governo e vários tipos de antagonistas à política do atual Mandatário. Compõe-se também desde liberais até de socialistas, passando por adversárias históricos, até por antigos companheiros bolivarianos que se tornaram defecções do chavismo por críticas que fizeram ao ex-presidente Hugo Chávez, ou ao atual presidente Nicolás Maduro, ou ao Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), ou aos rumos da Revolução, mas que, apesar de terem se afastado do grupo governante e de seus aliados, não abandonaram seus credos, ou apenas tornaram-se mais flexíveis em relação a certos procedimentos com os adversários do chavismo.  

Henri Falcón em 2012

Um desses exemplos se mostra em Henri Falcón, que anunciou participar da eleição como candidato presidencial, apresentando-se como um opositor ao governismo. Ele fazia parte da MUD e decidiu ir contra a deliberação estratégica definida pela Mesa de boicotar o pleito, o qual é justificado pelo fato de considerarem que não serão dadas as garantias de uma eleição livre na Venezuela.

Falcón decidiu se candidatar, rompendo com a MUD, por acreditar que a situação econômica do país, o cenário de estagflação e os índices das pesquisas eleitorais apresentados recentemente (conforme o Instituto Venezuelano de Análise de Dados, ele detém 23,6% das intenções de voto e Maduro apenas 17,6% de Maduro) lhes dão a possibilidade de vitória e que é um erro da Oposição renunciar ao pleito, falha que já foi cometida antes e não poderá ser repetida.

Ele é um militar da reserva, foi governador do Estado de Lara e se afastou do grupo chavista, mas não dos ideais socialistas, apesar de se apresentar como um moderado que defende elementos da iniciativa privada e do que chama de estado de bem-estar, com a participação do Estado.

Logo do partido Movimento al Socialismo (MAS)

Seu partido, Avanço Progressista, faz parte da Mesa, mas ele disputará o pleito pelo Movimento ao Socialismo (MAS). O presidente deste partido, Segundo Meléndez, compartilha desta convicção, tanto que declarou: “Consideramos que é imprescindível participar. Em um país onde o regime tem 80% de rejeição, é possível vencer, apesar das armadilhas e dos obstáculos”.

A presença das armadilhas e obstáculos citados refere-se a que muitos analistas apontam ser certa a vitória de Maduro graças ao garantido uso do aparelho do Estado, ao controle institucional e social que este tem, além dos muitos recursos financeiros disponíveis a ele, capazes de favorecer sua campanha, mesmo que, dentro do acordo firmado para adiar a eleição para o dia 20 de maio, o governante também tenha assumido o compromisso evitar o uso da máquina pública na campanha.

A MUD ficou descontente com a decisão de Falcón, pois desejavam que ele mantivesse a conduta estratégica para deslegitimar a eleição, devido a ausência na disputa de opositores ao oficialismo, já que, conforme tem sido afirmado na mídia, os demais concorrentes no pleito, Javier Bertucci (pastor evangélico), Francisco Visconti (ex-militar), Luis Alejandro Ratti (empresário) e Reinaldo Quijada (engenheiro), têm algum tipo de ligação com o governo. Também se diz isso de Falcón, mesmo que ele tenha rompido com o chavismo em 2010, quando escreveu uma carta aberta, na qual declarou que lhe prejudicaram por ter denunciado os erros da “revolução bolivariana.

Logo do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) com os olhos de Chávez

Ressalte-se que, ainda que tenha se desvinculado do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), também em 2010, dentro da MUD sempre houve suspeitas a seu respeito. Conforme vem sendo divulgado na mídia, os opositores dizem que ele “se movimenta por zonas cinzentas” e se assume como “um conciliador e um moderado”, chegando mesmo a considerarem a  possibilidade de ele ter “fechado um acordo com o ‘oficialismo’ para se candidatar, em troca de proveitos políticos futuros”, mas isso é algo que precisa ser comprovado para que ganhe força ao ponto de a Oposição poder afirmar que não houve racha na Mesa de Unidade Democrática. Ou seja, para esta ter condições de inverter o jogo, dizendo que não ocorreu descontentamento com Falcón, e já se esperava isso dele, de forma que não ocorreu perda de força opositora, mas o afastamento de um bolivariano que transitava em seu meio.

De certa forma, diante do quadro e dos vários posicionamentos apresentados por analistas, o cenário que mais concretamente se desenha é de que a Oposição tem diante de si mais problemas a resolver do que saídas claras que poderão lhes fortalecer.

O anúncio de Falcón foi recebido com alegria por Nicolás Maduro porque o governo tenta buscar argumentos para desqualificar a MUD. Isso se dá principalmente quando lideranças bolivarianas conseguem elementos para reforçar as declarações de que devem participar das eleições apenas aqueles que estão comprometidos com a Democracia. Um exemplo dessa ação ocorreu na declaração do porta-voz do PSUV nas negociações com os opositores, quando ele afirmou que aqueles que estiveram na negociação trabalharam nos debates para que “todos aqueles que apoiamos a democracia possamos participar”.

A decisão de Falcón pode especialmente lhe trazer resultados pessoais, uma vez que tem ele dito que libertará os presos políticos; que se reaproximará dos EUA; que o país não aguenta mais seis anos de gestão Maduro; e que colocará técnicos em cargos ministeriais, um exemplo é que já informou que Francisco Rodríguez, economista chefe do banco de investimento Torino Capital, será responsável para combater a inflação.

Manifestantes em Caracas – 12 de fevereiro de 2014

Ou seja, se não conseguir ganhar o pleito, algo mais provável, será alçado como a nova forte liderança opositora na Venezuela, com o selo de ter saído do chavismo, algo que tem condições de atrair antigos companheiros; ter avançado em novo entendimento da revolução, o que pode seduzir os bolivarianos descontentes com Maduro; não ter deixado de ser socialista, o que permite evitar o antagonismo automático da esquerda; e estar olhando de forma flexível para a iniciativa privada, a qual, para Maduro, é um dos principais inimigos, sendo esta afirmação capaz de atrair os que querem maior espaço para a iniciativa privada.

Caso tal cenário se concretize, com uma fratura maior na MUD, para os opositores poderá ficar o quadro de ter mais um problema, que será mostrar que esta nova oposição corporificada em Henri Falcón não se distancia do modelo econômico que os bolivarianos criaram, ao qual atribuem a crise venezuelana.

Um indicativo disso poderia ser buscado no fato de ele não entrar em detalhes sobre a política econômica que adotará, exemplificado na entrevista que deu a Reuters, na qual falou pouco sobre tal assunto, dizendo apenas que “irá priorizar a inflação e apoiar um sistema de câmbio unificado, diferente do atual sistema, que mistura preços do governo e do mercado negro”. Sendo assim, os opositores teriam de ampliar o seu trabalho, para agora também terem de mostrar que a nova força de oposição seria apenas uma continuidade e não a ruptura com a crise.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Três candidatos anunciados à Eleição Presidencial venezuelana até o momento acertada para maio de 2018 ” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Venezuelan_presidential_election,_2018

Imagem 2 Logo da Mesa de Unidade Democrática (MUD)” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Mesa_de_la_Unidad_Democrática

Imagem 3 Henri Falcón em 2012” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Henri_Falcón

Imagem 4 Logo do partido Movimento al Socialismo (MAS)” (Fonte):

https://es.wikipedia.org/wiki/Movimiento_al_Socialismo_(Venezuela)#/media/File:Mas_venezuela_Images.png

Imagem 5 Logo do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) com os olhos de Chávez” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/United_Socialist_Party_of_Venezuela

Imagem 3 Manifestantes em Caracas 12 de fevereiro de 2014” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Protestos_na_Venezuela_(2014–presente)

Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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