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Centenas de Acadêmicos Britânicos anunciam boicote a Universidades Israelenses

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Em anúncio de página inteira impresso no jornal britânico The Guardian, desta última terça-feira, 27 de outubro de 2015, 343 professores e palestrantes de mais de 72 universidades britânicas comprometeram-se a boicotar instituições acadêmicas israelenses, em protesto contra o que chamam de “violações intoleráveis dos direitos humanos infligidas contra todos os segmentos do povo palestino[1]. No anúncio, com o título: “Um Compromisso por Intelectuais do Reino Unido com os Direitos dos Palestinos[1], os acadêmicos afirmam estar “profundamente perturbados com a ocupação ilegal de Israel do território palestino e com sua aparente determinação em resistir a qualquer solução viável[2]. Os signatários da Inglaterra e do País de Gales se comprometem a não visitar ou participar de eventos organizados ou financiados por instituições israelenses, mas afirmam que ainda irão trabalhar com intelectuais israelenses individualmente[1][2]

O movimento acontece em meio à violência contínua em Israel e nos Territórios Ocupados. No último mês, as Forças de Israel mataram cerca de 60 palestinos, muitos dos quais foram acusados de atacar israelenses, e cerca de 10 israelenses foram mortos[2].  Até o dia 28 de outubro, menos de 24 horas após o lançamento da iniciativa, adicionais 160 acadêmicos assinaram o Compromisso, e o número agora já atinge mais de 500 signatários[3]

As campanhas de boicote cultural e intelectual a Israel estão longe de serem alvo de consenso, mesmo entre os críticos da política securitária israelense. O anúncio vem menos de uma semana depois de um grupo de 150 escritores, acadêmicos, parlamentares e outros – entre eles JK Rowling, Simon Schama, Zoë Wanamaker e Hilary Mantel – terem escrito ao The Guardian no último 22 de outubro, criticando a ideia de tais boicotes[4]. A carta foi antecedida por um chamado em 13 fevereiro de 2015 por centenas de artistas e músicos para instigar um boicote cultural a Israel, devido ao “ataque implacável em terra palestina, seus meios de subsistência e seu direito à existência política[1][5].

A ContraCarta chama os boicotes, singularizando Israel, de “divisivos e discriminatórios[6] e que “não promoverão a paz[6]. Também afirma: “Nós buscaremos informar e incentivar o diálogo sobre Israel e os palestinos em uma comunidade cultural e criativa mais ampla. Embora nem todos partilhemos dos mesmos pontos de vista sobre as políticas do governo israelense, todos nós compartilhamos um desejo pela a coexistência pacífica[1][4].

Em um comunicado em nome dos organizadores do boicote, o professor Jonathan Rosenhead, da London School of Economics, e porta-voz dos acadêmicos do boicote, declarou que as Universidades de Israel estavam “no coração das violações da lei internacional e da opressão do povo palestino por Israel[1][6]. As universidades israelenses são vistas como “profundamente cúmplices” com as violações israelenses da lei internacional[3]. “Nós manteremos esta posição até que o Estado de Israel esteja em conformidade com o direito internacional e respeite os princípios universais dos direitos humanos[6], afirmou o comunicado.

O boicote citou o Technion, Instituto de Tecnologia de Israel, como tendo criado “tecnologia especial[6] para detectar túneis saindo da Faixa de Gaza, e “armado escavadeiras não tripuladas usadas ​​para demolir casas palestinas[6]. Ao mesmo tempo, acusa a Universidade Ben Gurion de ter realizado pesquisa “reforçando a contínua existência e aprofundando a discriminação no sistema de água de Israel[6].

Rosenhead declarou que todas as assinaturas foram coletadas apesar das pressões que podem ser colocadas sobre os indivíduos para que não critiquem o Estado de Israel[1]. A iniciativa suscitou críticas imediatas dos governos britânico e israelense. O Embaixador Britânico em Israel, David Quarrey, declarou que estava “profundamente comprometido[1] com a promoção de laços acadêmicos e científicos. E acrescentou: “Como David Cameron disse, o governo britânico nunca permitirá que aqueles que querem boicotar Israel encerrem 60 anos de vibrantes trocas e parcerias que fazem tanto para fortalecer ambos os países[1]. A Embaixada Israelense em Londres publicou uma resposta contundente ao anúncio, declarando que “movimentos de boicote só visam semear o ódio e a alienação entre os lados, ao invés de promoverem a coexistência[1].

O anúncio também foi condenado por Richard Verber, VicePresidente Sênior do Conselho de Deputados dos Judeus Britânicos. Ele disse ao Jewish News: “Gostaríamos de perguntar por que esses acadêmicos fazem referências diretas a Israel de uma forma tão discriminatória. Em um momento de imensa, muitas vezes bárbara, convulsão em outras partes do Oriente Médio, Israel continua a ser um farol de excelência acadêmica e de pensamento progressista. No complexo conflito entre Israel e os palestinos, boicotar qualquer um dos lados levará ao progresso zero. Sua energia seria muito melhor gasta ao incentivar o diálogo acadêmico e relações entre israelenses e palestinos de mesma opinião que acreditem em um futuro melhor[1].

As críticas opostas, conduto, questionam o argumento de que a política de boicote em relação a Israel seria “divisiva e discriminatória”. A palestina Mia Oudeh, em sua carta aberta a J. K. Rowling, escreve: “Israel é um Estado colonizador-colonial que opera o apartheid de um povo indígena e que quebrou o direito internacional e as resoluções da ONU dia após dia, desde a sua existência. As práticas que Israel faz cumprir em sua cultura e funcionamento a cada dia são, em si, divisivas e discriminatórias[7]. Oudeh, que traça um paralelo com o mundo de Hogwarts de Harry Potter, argumenta: “Como podemos nós, como palestinos, sentarmos e conduzirmos um diálogo pacífico com os israelenses, como lados iguais, ambos culpados de um ‘conflito’, quando há também uma distribuição desigual de poder? O que estabelece a razão base pela qual se argumenta que Israel e Palestina não são dois lados, mas um opressor e outro oprimido[7].

Oudeh ainda questiona se estas pontes de paz unirão os palestinos que estão “literalmente cercados em guetos de aldeias por um muro de concreto de oito metros, check points e torres de vigia […] em terras que lhes foram tiradas e sobre as quais israelenses tem acesso a todo o momento[7]. E conclui: “Como podemos falar de pontes culturais quando israelenses vivem em assentamentos ilegais (sob a lei internacional) com fontes ilimitadas de água encanada e eletricidade, enquanto a metros de distância aldeias palestinas sofrem com uma das piores secas do mundo?[7].

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ImagemFoto do anúncio publicado em página inteira no The Guardian no último 27 de Outubro de 2015 intitulado Um Compromisso por Intelectuais Britânicos com os Direitos dos Palestinos” (Fonte):

http://www.commitment4p.com/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2015/oct/27/uk-academics-boycott-universities-in-israel-to-fight-for-palestinians-rights

[2] Ver:

http://www.democracynow.org/2015/10/27/headlines/dozens_of_british_scholars_announce_academic_boycott_of_israel

[3] Ver:

http://www.commitment4p.com/

[4] Israel Precisa de Pontes Culturais, não Boicotes carta de JK Rowling, Simon Schama e outros”. Ver:

http://www.theguardian.com/world/2015/oct/22/israel-needs-cultural-bridges-not-boycotts-letter-from-jk-rowling-simon-schama-and-others

Ver Também:

http://www.theguardian.com/world/2015/oct/22/star-authors-jk-rowling-hilary-mantel-israel-palestinian-boycott-guardian-letter

[5]Carta: Mais de 100 artistas Anunciam um Boicote Cultural a Israel”. Ver:

http://www.theguardian.com/world/2015/feb/13/cultural-boycott-israel-starts-tomorrow

[6] Ver:

http://america.aljazeera.com/articles/2015/10/27/hundreds-of-uk-academics-announce-boycott-of-israeli-universities.html

[7] Ver:

http://mondoweiss.net/2015/10/palestinian-challenges-hogwarts

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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