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Neste ano de 2012, a China está para enfrentar mais um grande desafio. Além da constante busca por melhorias em sua economia, em sua forma de desenvolvimento e a manutenção da “imagem” perante o mundo, ela terá de reestruturar a relação de harmonia entre o Partido, os militarese o povo chinês.

 

Nos últimos meses, agentes do Governo estiveram ocupados em investigar funcionários públicos que atuam dentro e fora do país, resultando na descoberta de casos de corrupção, escândalos envolvendo funcionários governamentais e casos considerados por Beijing como “traição”.

Os últimos acontecimentos resultaram em uma questão muito delicada: pensar na necessidade ou não de uma reforma política e econômica na China, as quais, para o primeiro-ministro Wen Jiabao, “são necessárias para solucionar novos problemas, como a distribuição desigual da renda, a falta de integridade e a corrupção”*.

Para que seja possível, os governantes deverão reinterpretar a sociedade chinesa visando entendê-la inserida no século XXI e questionar o funcionamento do Partido, bem como as suas relações com os militares. Através de fatores históricos e da forma de conduta das diferentes etnias chinesas, os especialistas traçarão novos elementos para complementar os atuais sistemas político, econômico e social.

Um fator que dificulta a adoção de algumas medidas do Governo para sua sociedade é a grande variedade étnica. Diversos estudos apresentados por diferentes especialistas apontam que a variedade de etnias (ao menos 56) e de idiomas faz com que a sociedade chinesa seja extremamente complexa e com grandes disparidades, tendo sido essas diferenças as responsáveis por gerar conflitos internos na China antiga, ocorridas como conseqüências da busca pelo poder.

Durante séculos os chineses lutaram entre si objetivando manter seus territórios protegidos de outros grupos internos que tinham intenções expansionistas. Houve desentendimentos entre grupos locais, bem como inúmeras guerras intestinas que enfraqueceram todos e permitiram aos povos estrangeiros invadirem constantemente o território que hoje é conhecido como “República Popular da China” (RPC).

Estas invasões estrangeiras acabaram contribuindo para que as seqüenciais dinastias e o povo chinês colaborassem entre si para conter seus inimigos comuns, desde os persas e otomanos até os mongóis em sua expansão, resultando na criação da mais importante e notória Muralha, que hoje é um marco histórico e patrimônio mundial.

Já no século XX, no final da “II Grande Guerra”, a idealizada “nação” chinesa estava suficientemente próxima para supor uma unidade e caminhou para a formação de um Estado, a  “República da China” (ROC, sigla em inglês), mas que anos depois se dividiu novamente, graças às novas disputas internas de poder, dando espaço para o surgimento da “República Popular da China” (RPC) no continente e ficando a antiga ROC isolada na ilha de Formosa (Taiwan). Da formação da RPC até os dias atuais, ainda permanecem ativas as disputas entreBeijingTaiwan e também o Tibet, no noroeste. Atualmente, contudo, as armas foram deixadas de lado e as disputas se fazem no “Sistema Jurídico Internacional”.

Durante este processo, os chineses se uniram para combater inimigos comuns e a política perdeu o caráter de combates se reduzindo à busca pelo poder local, sendo tais fatores úteis para consolidar a China comunista durante seu desenvolvimento, algo que se estendeu até o final da “Guerra Fria”. Hoje, as lutas políticas, apenas com caráter doméstico, e o inimigo comum deixaram de ser os principais fatores propiciadores de união ou de superação das diferenças étnicas no pais. A economia tornou-se o grande fator contemporâneo.

Até o início da década de 1990, a China ainda era questionada economicamente e muitos duvidavam de sua consolidação, porém o modelo adotado e o “boom” resultante constituíram-se como o motor principal para que os funcionários públicos chineses trabalhassem focados, minimizando as disputas de poder.

Nas últimas três décadas, com o comércio internacional e o investimento pesado em educação, o país se fortaleceu perante as demais potências, com avanços e resultados positivos, gerando “conforto” nas autoridades, mas também “acomodação” com um sistema e uma economia que vinham trazendo resultados positivos de tal forma que esconderam as falhas em todo uma estrutura político-econômica.

Diferente da sociedade chinesa dos anos anteriores, atualmente o povo chinês tem maior acesso às informações, seu nível intelectual é tão modernizado e elevado como o dos europeus, norte-americanos e japoneses e seus conhecimentos avançados em negócios locais e em finanças lhes deram capacidade de questionar sobre o destino da produção do país, os cenários da distribuição de renda, bem como a forma como os funcionários públicos atuam ou deveriam atuar dentro e fora do território.

Um exemplo de setor em foco de análise no país é a internet. Ali está o mais cobiçado mercado da Web em todo o mundo, devido aos 1,2 bilhões de possíveis usuários de “provedores de e-mails” e outros serviços em rede, além do grande número de possíveis usuários de redes sociais e aos futuros clientes potenciais para grandes marcas globais.

Como ocorre em alguns outros Estados, existem conteúdos que são monitorados pelas autoridades, tanto que redes sociais como o Facebook e o Twitter (que alguns acreditam serem alguns dos principais responsáveis pelas mobilizações que resultaram nas quedas de regimes no Oriente Médio) não são acessados em todo o país e, para suprir a demanda de usuários da internet e fomentar uma indústria chinesa para a Web, existem os equivalentes locais, como o QQ e o Weibo. No entanto, o acesso à informação e a Web na China e nas suas “regiões de administrações especiais” é tão grande e de velocidade tão elevada que não se consegue monitorar 100% dos assuntos discutidos na rede.

Este é um dos fatos que Jiabao deseja discutir e repensar na China, além, é claro, da constantemente lembrada reforma no sistema político e econômico chinês. Mas essas transformações também devem atingir a população, mesmo que seus anseios por novidades não estejam preocupando o Governo, que vem se concentrando nos atuais escândalos envolvendo autoridades do “Partido Comunista” em casos de corrupção. Analistas apontam que não considerar os anseios sociais mesma intensidade dos caso de corrupção pode ser uma falha.

Dos mais de 2.500 funcionários públicos investigados no país por envolvimento em casos de corrupção, o caso de Bo Xialai (chefe do “Partido Comunista” da cidade de Chonqging), e de seu braço direito Wang Lijun (antigo chefe da Polícia local), retiveram a atenção do presidente Hu Jintao e de Wen Jiabao.

O caso de corrupção foi visto por alguns analistas como gerador de um possível “efeito dominó” no sistema político, pois estes e outros casos que ocorreram em algumas regiões do país tem pontos que os interligam. No caso de Lijun, foram apresentados elementos que o ligam com a “máfia chinesa” e após as declarações de um empresário local, Zhang Mingyu, muitas informações foram publicadas na internet e em outros meios de comunicação, fazendo com que Lijun solicitasse asilo político no “Consulado dos Estados Unidos”, na cidade de Chengdu.

Após descoberto o esquema envolvendo esta autoridade, a mesma denunciou o “lado obscuro” de Bo Xilai. Lijun revelou informações da autoridade chinesa para autoridades estadunidenses na China e depois disto apresentou informações para Beijing, sendo essa revelação de dados para os norte-americanos considerada uma “traição” contra a nação. Com todos os escândalos, casos de corrupção e da considerada “traição”, Bo foi substituído por Zhang Dejiang e essa ação gerou tensão para os governantes.

A preocupação está no fato ocorrido e na ausência de Bo em um cargo do governo. A autoridade deposta é uma figura muito carismática na China. Além disso, ele é filho de Bo Yibo, um importante líder do PCC chinês, que foi companheiro de Mao Tsé-tung.

A preocupação das autoridades era de que o Exército o apoiasse devido as suas relações com indiretas Mao. Embora o Governo seja unipartidário, mantendo o poder concentrado em um único Órgão, os militares tem sua importância no “sistema político” da China e um confronto entre militares e o Partido poderia desencadear uma crise de proporções incalculáveis, levando ao colapso do atual Regime no país.

Houve época em que este tipo de informação não chegava aos cidadãos, mas o fácil acesso atual às informações faz com que o Governo não abafe casos como esse, tornando-os públicos, e comunique a forma de punição para cada situação. É uma maneira de o Governo se apresentar como “transparente” para o povo, tentando evitar a geração de movimentos opositores de vulto.

As autoridades chinesas agora deverão trabalhar simultaneamente com o cenário político-econômico global durante esse momento delicado de “Crise Econômica Européia” e com a política e a economia interna precisando de nova transição, a fim de não deixar brechas para críticas dos variados setores e não demonstrar fragilidade.

Para Wen, “cada membro e líder do Partido deve ter um sentimento de urgência”** para que seja aprovada uma reforma que deverá ser elaborada objetivando: (1) retomar a credibilidade do Governo; (2) entender as novas necessidades da sociedade chinesa; (3) melhorar a distribuição de renda; (4) combater a corrupção e (5) mostrar transparência nas ações do Partido.

Nestes termos, uma análise sobre a formulação de salários e a geração de novos empregos contribuirá para a tentar solucionar o problema da distribuição de renda do povo chinês. Supõe-se que estas medidas atenderão algumas das novas necessidades e desejos da população em prol do consumo, da menor necessidade de poupança e da participação mais ativa do mercado interno chinês.

Os analistas apontam que melhorando o processo investigativo sobre os casos de corrupção, garantindo a transparência das ações e a aperfeiçoando a formação de líderes no “Partido Comunista” certamente se contribuirá para gerar “credibilidade” ao Governo.

Os observadores concordam que tais pontos não serão fáceis de ser trabalhados neste momento em que o mundo sofre uma crise econômica e é necessário reformar um sistema político com autoridades que se articulam para não ser afastadas ou remanejadas no sistema de “poder” dentro do Partido. Mas, apesar de tais dificuldades, se o objetivo for manter o Estado chinês forte e estável tanto econômica como politicamente, as reformas precisam ser realizadas, mesmo que em etapas, no médio e longo prazos, já que a China carece de uma inovação e renovação em toda a sua estrutura. Caso contrário, o temor de Wen Jiabao pode se tornar realidade e há alta probabilidade de o país vir a sofrer uma nova “Revolução Cultural”.

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Fontes:

* Ver “Folha SP”:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1061568-wen-defende-reformas-para-impedir-nova-revolucao-cultural-na-china.shtml

Ver também:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1062154-destituicao-de-autoridade-do-pc-abre-crise-politica-na-china.shtml

** Ver “Estadão”:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,premie-ve-futuro-ruim-para-china-sem-reforma,848484,0.htm

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Ver também “Jornal do CEIRI” (Nota):

http://jornal.ceiri.com.br/2012/03/13/corrupcao-na-china/

Ver também “Hoje Macau”:

http://hojemacau.com.mo/?p=30609

Ver também “Global Times”:

http://www.globaltimes.cn/NEWS/tabid/99/ID/700605/Zhang-Dejiang-replaces-Bo-Xilai-as-Chongqing-Party-chief.aspx

Tags:
Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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