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O posicionamento do governo da China na “Crise Russo-Ucraniana” tem alimentado grandes debates de especialistas e jornalistas pelo mundo e também entre os chineses. A mídia do país, por meio de editoriais no Global Times[1] e China Daily[2][3] e de artigos de opinião de estudiosos chineses[4][5][6], culpa o Ocidente pela crise e justifica que por motivos ideológicos e geoestratégicos a China deve apoiar a Rússia. Na imprensa e na academia ocidentais, alguns falam de uma ajudam tácita da China à Rússia, enquanto que outros destacam o dilema de Pequim perante a crise[7][8][9][10].

As partes externas no conflito, isto é, principalmente os presidentes da Rússia[11] e dos “Estados Unidos da América[12], contataram o seu homólogo da China para garantir apoio nas suas posições. A resposta chinesa é de diálogo entre as partes, mas também é verdade que Pequim tende a reconhecer que Moscou tem interesses na Ucrânia provados por “fatores históricos e contemporâneos[7], apesar de, numa forma geral, as autoridades chinesas publicamente defenderem o princípio de não interferência nos assuntos internos de outros países, respeitando, por isso, a independência, a soberania e integridade territorial da Ucrânia[13].

Este é o pilar da política externa do país desde a Revolução, em 1949. Porém, analistas afirmam que a China deve mudar este posicionamento, pois algumas vezes ele prejudica os seus próprios interesses. Por exemplo, as empresas chinesas estão entre as que mais sofreram prejuízos avultados depois da derrubada do governo de Muammar Gaddafi, na Líbia, em 2011[14]. O mesmo pode vir a acontecer no “Sudão do Sul” se a crise político-militar se prolongar por mais tempo, uma vez que neste país os investimentos estrangeiros são dominados por companhias chinesas.

Na Ucrânia, a China também tem interesses econômicos e militares consideráveis. Relata-se que recentemente investiu US$ 3 bilhões para o cultivo do milho, num espaço que corresponde a 9% do território ucraniano[15], para a alimentação de suínos na China. Em troca, aquele país ganharia fundos chineses para investimentos na área de infra-estruturas[16].

O até hoje, o único porta-aviões que a China possui foi fabricado na Ucrânia. Em dezembro passado, quando da visita à China do então Presidente, Viktor Yanukovych, os dois países assinaram um acordo com uma cláusula que diz que Pequim estende o raio da sua defesa nuclear para Kiev. Isto é, a China ofereceria ajuda militar em caso de ataque nuclear à Ucrânia, embora se diga que tal medida visava apenas mandar uma mensagem ao Japão e aos outros países com conflitos territoriais com os chineses no “Mar do Sul da China[14].

Especificamente no caso de situação na Criméia, tanto pesquisadores chineses como ocidentais apontam que a secessão e anexação daquele território pela Rússia constituem uma opção complicada para a China, pois ela enfrenta movimentos separatistas principalmente nas províncias de Xinjiang e Tibet. O exemplo de ações associadas a esses movimentos foi o ataque terrorista ocorrido no dia 1º de março de 2014 numa estação de trem na cidade de Kunming (capital da província sulista de Yunnan) que resultou em 29 mortos e 143 feridos e foi levado a cabo presumivelmente por oito cidadãos de Xinjiang[17].

Portanto, acredita-se que a experiência da Criméia pode criar um efeito dominó noutros países, incluindo na China. Mas, para os mais otimistas, a anexação da Criméia por Moscou pode servir de exemplo para Pequim no caso de Taiwan. Quer dizer, pode-se recorrer à força para a união daquele território insular com a “China Continental[18].

Numa altura que se fala da reemergência da “Guerra Fria”, o fortalecimento da Rússia ameaça também a ascensão da China. Apesar das relações que se crê estratégicas, também é verdade que os dois países têm interesses opostos na Ásia Centrale no Sul e Sudeste da Ásia[19]. Aliás, mesmo na Rússia já se fala que, depois da Ucrânia, Moscou poderá centrar as suas atenções na região do Pacífico[20], onde Pequim tenta estabelecer a sua hegemonia numa altura em que Washington também reforça a sua posição tanto política, como econômica e militarmente.  

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Imagem (Fonte):

http://blogs.cfr.org/asia/2014/03/05/chinas-soft-nyet-to-russias-ukraine-intervention/

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/845722.shtml?_ga=1.71929491.1049906165.1390273253#.UyIANj2Sw1O

[2] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/opinion/2014-02/21/content_17295723.htm

[3] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/opinion/2014-03/10/content_17334277.htm

[4] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/opinion/2014-03/12/content_17340353.htm

[5] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/848276.shtml#.UyIGaz2Sw1M

[6] Ver:

http://news.xinhuanet.com/english/indepth/2014-03/07/c_133168143.htm

[7] Ver:

http://time.com/12352/russia-crimea-ukraine-china/

[8] Ver:

http://www.pri.org/stories/2014-03-06/russias-moves-ukraine-are-giving-china-headache

[9] Ver:

http://abcnews.go.com/Politics/wireStory/us-obama-china-agree-ukraine-sovereignty-22847822

[10] Ver:

http://thediplomat.com/2014/03/china-backs-russia-on-ukraine/

[11] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/china/2014-03/05/content_17322632.htm

[12] Ver:

http://dailycaller.com/2014/03/10/china-rebuffs-obamas-plan-for-crimea/

[13] Ver:

http://english.peopledaily.com.cn/90883/8557585.html

[14] Ver:

http://america.aljazeera.com/articles/2014/3/7/china-s-unusual-nuclearpactwithukrainesyanukovich.html

[15] Ver:

http://thediplomat.com/2014/03/ukraine-a-case-for-chinese-involvement/

[16] Ver:

http://blogs.cfr.org/asia/2014/03/05/chinas-soft-nyet-to-russias-ukraine-intervention/

[17] Ver:

http://thediplomat.com/2014/03/kunming-a-new-phase-of-terrorism-in-china/

[18] Ver:

http://thediplomat.com/2014/03/taiwan-why-china-backs-russia-on-ukraine/

[19] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/relacoes-china-russia-reforcadas-com-a-visita-do-presidente-chines/

[20] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/846631.shtml#.UyIVvT2Sw1M

Jorge Nijal (Moçambique) - Colaborador Voluntário

De Nacionalidade Moçambicana, é mestrando em História do Mundo no Instituto de Estudos Africanos da Universidade Normal de Zhejiang, na China. Graduado em História pela Universidade Eduardo Mondlane em Maputo (2007). Possui experiência na docência de disciplinas de História Geral e da África Austral. Interesses: História de Moçambique, relações China-Moçambique, política externa chinesa no nordeste e sudeste da Ásia, relações China-África, cultura cibernética popular na China. Fala Português, Inglês, Francês e conhecimento razoável de chinês.

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