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Coalizão árabe contra a Milícia Houthi no Iêmen

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As relações diplomáticas entre a Arábia Saudita e o Irã têm se degenerado durante as últimas semanas, devido ao conflito armado que vem se desenvolvendo no Iêmen – pequeno país ao sul da Península Arábica que ocupa posição estratégica por situar-se no Golfo de Bab el Mandeb, o qual separa a Ásia da África. A situação política no Iêmen tem apresentado crescente instabilidade em razão das ações políticas da milícia Ansar Allah*, popularmente conhecida por Houthis (em referência ao nome de seus líderes, os irmãos al-Houthi).

Este grupo rebelde, oriundo do norte do país e composto por muçulmanos xiitas zaiditas, constitui-se de uma minoria religiosa que luta principalmente pela manutenção e reconhecimento de sua própria comunidade, bem como contra a discriminação por parte do Governo iemenita. Nesse país de maioria muçulmana sunita, as reivindicações houthis costumeiramente têm chegado à confrontos armados, ampliando-se assim a lacuna religiosa entre xiitas e sunitas claramente observada naquele Estado.

Pelo que se pode perceber, ao considerar pelas informações difundidas pelos principais veículos de mídia internacionais, a situação apresentou-se oportuna ao Irã para prosseguir em sua agenda junto ao Oriente Médio, visando consolidar-se como a principal potência naquela região. Assim, o Irã, importante nação islâmica xiita, acabou por se valer dessa condição para apoiar econômica e militarmente a Milícia Houthi, a qual tem sido responsável por inúmeros ataques armados contra o governo do Iêmen, fato que fez com que diversos governos classificassem os Houthi como uma organização terrorista. Em contrapartida, a Arábia Saudita, potência islâmica sunita, postou-se em defesa dos governantes iemenitas, dado o alinhamento religioso e cultural dessas nações fronteiriças.

Rei da Arábia Saudita encontra-se com o Secretário de Estado norte-americano em 2015 para discutir sobre a coalizão árabe contra o Iêmen

A escalada da violência na região motivou diversos países árabes a formar uma coalizão com a finalidade de combater a mencionada milícia, em defesa justamente da Arábia Saudita. Entretanto, é importante entender que essa coalizão não se destina a lutar especificamente contra aquele grupo, mas sim conter as ações do Irã, que, na realidade, tem se valido dos Houthi como um meio para ampliar suas ações, dentro daquilo que se convencionou denominar “guerra por procuração”.

Nessa lógica, o Irã atua de forma beligerante contra outros países sem ter que formalmente assumir tal condição, evitando quaisquer tipos de sanções diante da comunidade internacional por não assumir a autoria ou sequer a responsabilidade por ataques armados realizados por terceiros, ainda que obviamente atendam aos seus interesses. Enxergando-se a questão de um diferente prisma, verifica-se que a violência no Iêmen representa, em essência, um conflito entre Irã e Arábia Saudita, a exemplo das acusações direcionadas ao Governo iraniano quando do lançamento de um míssil contra a capital saudita que partiu do grupo Ansar Allah.

A formação da referida coalizão árabe contra o Irã – vale lembrar que este país, ainda que islâmico, não é árabe, e sim persa – aponta para a possibilidade de um maior envolvimento iraniano a médio prazo, caso suas capacidades militares venham a ser prejudicadas, ou sua influência política não atinja os resultados esperados. Vale notar ainda que a formação de tal coalizão árabe, por contar com a liderança saudita e, principalmente, por tratar da defesa deste país, conta obrigatoriamente com a intervenção norte-americana, ainda que indiretamente, uma vez que o Governo saudita é o maior aliado do Governo norte-americano no Oriente Médio.

O resultado desse xadrez geopolítico, intrincado como de praxe naquela região, acaba por indicar a contraposição de interesses iranianos e norte-americanos, que já vêm sendo manifestados abertamente pelos seus representantes nos últimos meses.

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Nota:

* Do árabe, “partidários de Deus”.

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Fontes das Imagens:                                                                                                                

Imagem 1 Presidente iemenita encontrase com o Secretário de Estado norteamericano na capital saudita, em 2013” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Abdrabbuh_Mansur_Hadi#/media/File:Secretary_Kerry_Shakes_Hands_With_Yemeni_President_Hadi_Before_Bilateral_Meeting_in_Saudi_Arabia_(17212641020).jpg

Imagem 2 Hassan Rouhani, presidente reeleito do Irã” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/President_of_Iran#/media/File:Hassan_Rouhani.jpg

Imagem 3 Rei da Arábia Saudita encontrase com o Secretário de Estado norteamericano em 2015 para discutir sobre a coalizão árabe contra o Iêmen” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Saudi_Arabian-led_intervention_in_Yemen#/media/File:Secretary_Kerry_Sits_With_Saudi_King_Salman,_Foreign_Minister_al-Jubeir_Before_Bilateral_Meeting_in_Washington_(21148062001).jpg

                                                  

João Gallegos Fiuza - Colaborador Voluntário

Bacharel em Direito pela Universidade Cruzeiro do Sul. Especialista em Gestão de Políticas Públicas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em Polícia Comunitária pela Universidade do Sul de Santa Catarina, em Gestão de Ensino a Distância pela Universidade Federal Fluminense, e em Estudos Islâmicos pelo Al Maktoum College of Higher Education (Reino Unido). Mestre em Segurança Internacional pela Universidade de Dundee (Reino Unido). Atualmente, é mestrando em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo. Pesquisa, principalmente, temas relacionados a conflitos no Oriente Médio e Europa, bem como a organizações criminosas transnacionais e terroristas. Professor de Criminalística no Curso de Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública da Academia de Polícia Militar do Barro Branco e Subchefe de Seção de Investigação da Corregedoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

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