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Como previsto, Cristina Kirchner é reeleita

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Ontem, domingo, dia 23 de outubro, os cidadão argentinos confirmaram as previsões feitas ao longo dos últimos três meses de que a atual “Presidente da República”, Cristina Fernandez de Kirchner seria reeleita em “Primeiro Turno” e com expressivo percentual de votos, além de significativa vantagem em relação aos seus competidores.

 

Jornais, analistas, observadores internacionais e especialistas argentinos tem apontado que os fatores mais significativos para o grande desempenho foram: (1) o sucesso de sua política econômica; (2) a realização de uma inclusão social, por meio de medidas assistencialistas e populistas, acrescentando-se as questões de “direitos humanos” e a inclusão de minorias e (3) um bem realizado trabalho de marketing político e propaganda eleitoral, aproveitando do “efeito viúva”, mesmo que sua dor pela perda do marido seja real.

Acrescentam agora os especialistas que outro fator deve ser destacado e ressaltado: o erro da oposição, associada a incompetência política em seus respectivos marketings, a falta de projetos alternativos, bem como aos discursos capazes de catalisar a atenção do povo, o qual está à reboque das conquistas imediatas feitas no governo da Presidente.

Vários analistas estão apontando que ocorreu na Argentina fenômeno semelhante ao que está ocorrendo em vários outros países da América Latina: a falta de um pensamento à direita que também consiga propor inclusão social, por via outra que não esta populista, mascarada de socialismo, sendo pensamento apto a se contrapor aos discursos de esquerda configurados em torno de uma maior atuação do Estado e da defesa dos “Direitos Humanos”.

Há um problema cada vez mais transparente nos discursos de oposição: os políticos, ideólogos, ou pensadores considerados conservadores e liberais, se viram como desapropriados do direito de usufruto de temas dos “Direitos Humanos” e da “inclusão social.

Segundo os analistas, criou-se a imagem de que tais temas não pertencem a estes grupos devido ao fato de existirem alguns dentro do espectro que não tomem tais pontos como elementos principais de seus projetos, ou pelo fato de historicamente haver uma herança política e social atribuída a personagens, grupos e partidos que afirmavam serem portadores de tais credos, embora realmente agissem exclusivamente em proveito individual, ou de seu grupo, criando uma identificação histórica que passou a valer mais que o ideário propriamente dito. Avaliando-se da perspectiva da Teoria Política, isto é uma distorção, pois aspectos importantes dos postulados dos “Direitos Humanos” foram desenvolvidos exatamente pela corrente liberal das ideologias políticas.

Segundo destacam os analistas, o ponto mais significativo está no fato de partidários, líderes e políticos deste espectro ideológico não terem conseguido mostrar que também têm em seu receituário propostas voltadas para a inclusão social, pois não estão conseguindo apresentar Projetos em que isto seja possível, destacando-se que por meio de uma maior atuação da sociedade e não do Estado.

Como estão incapazes de apresentar tais projetos, vêem-se obrigados a reduzir suas propostas à defesa de interesses específicos, com criticas à atuação do Governo, com constantes acusações de corrupção e tentando mostrar que são melhores opções por serem melhores administradores, mas não apresentam as necessárias propostas alternativas. O resultado objetivo é a conclusão por parte do cidadão de manter os mesmos lideres, já que é apresentada a mesma proposta pela maioria dos concorrentes, ou nenhuma outra.

Por essa razão, perderam também a capacidade de pedir ao povo que apostem em projetos que trarão resultados sólidos, mas em médio e longo prazos, ao invés dos métodos rápidos e imediatos, que usam do assistencialismo, como as “bolsas de auxílio” aos mais necessitados, tais quais estão sendo criadas e distribuídas constantemente pela região e se desdobrando em várias modalidades, customizadas às necessidades específicas dos governos, tanto quanto, ou mais que às necessidades das populações beneficiadas.

Como afirmam os observadores internacionais, os resultados de tais “bolsas assistência” existem, mas  estão sendo aplicados como políticas de Partidos, ou de Lideranças, criando vínculos e estruturas que dificilmente serão desatadas no futuro, já que não são políticas de governo, por tempo determinado, que deveriam vir associadas a medidas que retirem do Estado as obrigações criadas. Como estes observadores destacam, o resultado disso em prazo médio é a quebra do orçamento do Governo, mais precisamente levará à quebra do Estado, graças aos gastos orçamentários sempre em expansão e com vínculos permanentes.

Este erro das oposições na América Latina, se deu na Argentina e permitiu que estejam sendo esvaziadas as lideranças no país, tanto quanto nos vários outros países da América Latina, que só voltarão a surgir quando o modelo estiver esgotado, mas a aposta é que este esgotamento poderá levar a uma situação de violência cuja intensidade é difícil de ser prevista, pois depende de vários fatores internos e externos ao país em que ocorrer, bem como da dimensão do parasitismo da máquina pública, além dos tipos e números de erros cometidos pelos mandatários.

Conforme apontam vários analistas na mídia internacional, Cristina Kirchner é um exemplo de um padrão criado ao longo dos últimos 20 anos no continente e fica o questionamento de como será seu comportamento doravante. Diante dos resultados, afirmam eles que se conseguiu criar uma vertente dentro do peronismo, o qual ameaça superar a raiz desta modalidade de populismo, ao ponto de tornar o kirchnerismo uma corrente autônoma (o Kirchnerismo), que tem em seu marido (Nestor Kirchner) o fundador e ficando os “Perons” (Juan e Eva), como os patronos, mais que como os artífices ideológicos de um “Peronismo Kirchnerista”, ou “Kirchnerimo Peronista”.

Estudantes argentinos, proletários, funcionários, acadêmicos e analistas afirmam que os dois são os “Perons” adaptados a nova era, esperando com isso trazer historicidade nas ações de ambos, mas esquecendo que o principal em relação ao comportamento político argentino está na predisposição a aceitar a ligação direta entre o líder e o povo e entre os líderes entre si, agindo aquém ou além das instituições, algo que fragiliza a sociedade em relação aos grupos que tomam posse do Estado.

Esta percepção é bem apresentada por Ricardo Sidicaro, professor da “Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires” ao afirmar que a mandatária não precisou da ajuda dos prefeitos e governadores para ter a preferência do povo, mas que eles lhes deram total apoio, pois necessitam dos “fundos do governo” que existem para transferir recursos do “Orçamento Federal” para governos municipais e provinciais (Estados), independentemente da autorização do Legislativo e de forma discricionária.

Conforme afirma, ela recebeu suas parcerias porque “tem certa capacidade de organizar a política através de fundos que disciplinam governadores e prefeitos. (..). Idéia de instituições não está presente na lógica da política argentina. (..) Isso é uma natureza permanente da política argentina nos 200 anos de existência”*.

Estes elementos apresentam algumas facetas da realidade que levou a Presidente a vencer de forma segura tais eleições, mas são alguns dos tópicos que precisam ser explicados e apresentados. O principal problema para todos analistas neste momento está sendo construir o cenário do seu próximo governo (com a equipe que formará) para se conceber e interpretar as políticas e reformas que poderão ser adotadas e realizadas imediatamente, agora que detém um poder significativo devido a confiança que recebeu do povo e ao fato de se saber que terá maioria no Congresso, embora esta não seja expressiva, mas será o suficiente para ter de negociar apenas com os Partidos que lhe dão apoio e não com a Oposição.

Além disso, também ainda está em aberto como agirá em sua política externa, em especial em relação ao Brasil. Vários analistas apostam que haverá maior ação coordenada entre os dois Estados, mas, ao apostarem neste quadro, esquecem o hábito argentino de agir unilateralmente. Por isso, o mais importante é identificar em que setores e questões sua dependência do Brasil é essencial e com poucas alternativas para se poder afirmar que não adotará medidas que afetem a relação entre os dois países e a obrigará a consultar o Brasil para agir coordenadamente. São questões importantes, que serão observadas nos próximos dias.

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* Ver:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,estilo-de-novo-governo-de-cristina-kirchner-e-duvida-dizem-analistas,789333,0.htm

**Ver também as demais fontes consultadas:

Ver:

http://www.outraspalavras.net/2011/10/23/como-cristina-kirchner-virou-o-jogo/

Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/994572-vitoria-de-cristina-pode-acentuar-cooperacao-brasil-argentina-no-exterior.shtml

Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5430344-EI8140,00-Cristina+Kirchner+elogia+acesso+igualitario+de+partidos+a+TV.html

Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/994960-campanha-na-argentina-expoe-fragilidade-institucional-do-pais.shtml

Ver:

http://www.redebrasilatual.com.br/temas/internacional/2011/10/argentina-economia-nos-trilhos-e-um-dos-pilares-da-vitoria-de-cristina

Ver:

http://www.maiscomunidade.com/conteudo/2008-05-19/mundo/115018/CRISTINA-KIRCHNER-É-REELEITA-PARA-UM-NOVO-MANDATO-DE-QUATRO-ANOS.pnhtml

Ver:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/especial/DO+PERONISMO+AO+KIRCHNERISMO+A+JUVENTUDE+MILITANTE+QUE+APOIA+CRISTINA_16150.shtml

Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/10/em-manha-tranquila-argentina-elege-novo-presidente.html

Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5430175-EI8140,00-Historia+da+Argentina+nao+termina+hoje+diz+rival+de+Kirchner.html

Ver:

http://www.cnoticias.net/?p=49116

Ver:

http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?id=1184143

Ver:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5431263-EI294,00-Cristina+Kirchner+declara+vitoria+eleitoral+na+Argentina.html

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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