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A condição feminina na guerrilha colombiana

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As mulheres corresponderam a 40% dos efetivos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC – EP), que está se transformando em um partido chamado Força Alternativa Revolucionária da Colômbia, deixando a luta armada para aderir à luta político-partidária. A trajetória de muitas guerrilheiras é semelhante a de Manuela Canãveral, de 22 anos, que foi líder de manifestações estudantis. Ela afirma que sua família não tinha recursos financeiros para pagar seus estudos e resolveu entrar para a guerrilha para se proteger, pois estava sendo perseguida pelos paramilitares.

Guerrilheiras entrevistadas em ‘Rosas e Rifles’, o documentário

Casos recolhidos pela casa da mulher e pela ONG Oxfam Intermón apontam que, entre 2001 e 2009, 489.687 mulheres de 407 municípios foram vítimas de violência sexual. Desse número, 82,15% não denunciaram por medo ou falta de informação. De acordo com o estudo, “a violência sexual constitui uma prática frequente no conflito armado”. O Movimento pela Paz tenta inserir as questões de gênero no processo de paz ao propor uma Comissão da Verdade e Paz que implique no julgamento de crimes sexuais. Vitória Sandino, guerrilheira, afirma que “a condição do povo colombiano em geral é bem complexa, traçada não somente pela miséria, pelo desemprego e pobreza no nosso país, que não tem democracia, que não tem possibilidades de desenvolvimento, os jovens não podem estudar e não tem acesso à universidade”.

O documentário intitulado “Rosas e rifles – mulheres das FARC-EP”, dirigido por Vilma Kahlo, reúne o depoimento das guerrilheiras que contestam a afirmação de que as mulheres presentes na guerrilha seriam objetos sexuais. Afirmam que esta é uma fala superficial, machista, de senso comum e que não corresponde à realidade. Por exemplo, a insurgente Marcela Gonzáles afirma que “é uma tragédia humana o que vive a mulher na Colômbia (…) para a mulher foi reservada a pior parte no conflito, pois são expulsas de suas terras, sofre violência sexual, a violência familiar (…) poderia dizer que é o modelo econômico imperante de uma mulher como uma mercadoria (…) a mulher branca tem um nível de reconhecimento, a mulher negra está por baixo da mulher branca, as mulheres indígenas também estão por baixo do reconhecimento da mulher branca, mas a mulher pobre sofre todas as explorações, as discriminações”.

Logotipo do partido das FARC-EP dedicado às guerrilheiras

Outro documentário, Colômbia: um olhar verde-oliva das FARC-EP, demonstra que muitos casos são semelhantes ao de Laura Vegas. Oriunda de uma família muito pobre, a ex-estudante de Engenharia Química afirma que se politizou na Universidade ao participar do movimento estudantil. Viu a guerrilha como “a única alternativa para a mudança deste sistema e construção de uma nova ordem na Colômbia”.

Com o fim da guerrilha surgiu a questão de como será a volta das mulheres da luta armada à vida civil. Manuela Canãveral pretende retomar sua vida de onde parou e diz: “muitas coisas me chama a atenção. Quero validar o segundo grau, estudar Filosofia, Comunicação, Pedagogia (…) gostaria de estudar em Cuba, porque há muitas possibilidades e porque lá tenho uma identidade política”. Adriana Cabarros, de 38 anos e 18 anos de guerrilha, afirma: “Depois disso? Vou continuar no movimento político (…) gostaria de morar em uma pátria livre, em um país que haja identidade social, talvez fique aqui, esta zona se transformará em um povoado”. Erica Galindo, 39 anos, 24 de guerrilha, enfermeira formada, espera continuar a trabalhar na área de saúde ao voltar à vida civil.

Em 10 de março de 2017, o jornal El País divulgou a extradição para a Colômbia de Hector Albeidis, chamado de “O enfermeiro das FARC”, que foi acusado de ter praticado mais de 500 abortos em guerrilheiras durante os anos de 1998 a 2003. Segundo a Justiça colombiana, a prática do aborto era utilizada para não perder as guerrilheiras como instrumento de guerra. As FARC, por sua vez, publicaram declaração na qual rechaçam as denúncias, afirmando que atos como este não correspondem aos seus princípios e direcionamento.

Além das guerrilheiras das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as mulheres do Exército de Libertação Nacional e sua atuação na guerrilha completam o amplo painel sobre a condição feminina na guerrilha. Acredita-se que o processo de Paz na Colômbia fracassará se a questão de gênero não for considerada um elemento fundamental, pois, visto apenas as FARC, as mulheres compunham 40 % do seu contingente, de forma que a paz passa obrigatoriamente pelo julgamento de crimes sexuais e de todo o tipo de violência ou desigualdade de condições sofrida pela mulher, por ser mulher, nos mais de 50 anos do conflito.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Guerrilheira das FARCEP” (Fonte):

https://twitter.com/jqmontes/status/902189093265829889

Imagem 2 Guerrilheiras entrevistadas em Rosas e Rifles’, o documentário” (Fonte):

http://www.vermelho.org.br/noticia/226811-8

Imagem 3 Logotipo do partido das FARCEP dedicado às guerrilheiras” (Fonte):

https://twitter.com/MujerFariana/status/903416375992958977

Samuel de Jesus - Colaborador Voluntário

É doutor em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Ciências e letras da UNESP - Araraquara - SP. É Mestre em História desde o ano de 2003 pelo programa de Pós - Graduação em História da UNESP de Franca/SP, atuando principalmente nos seguintes temas: História, política, democracia, militarismo, segurança, defesa e Relações Internacionais. Membro do Grupo de Pesquisas sobre História Política e Estratégia - GEHPE-UFMS e do Núcleo de Pesquisas sobre o Pacífico e Amazônia - NPPA (FCLAr UNESP). É professor de História da América da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS - campus de Coxim/MS

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