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Conflitos promovem onda de vítimas e refugiados

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O cenário internacional vive um momento de profunda crise, em razão dos diversos conflitos espalhados pelo mundo. De acordo com relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU), o surgimento e acirramento de diversos conflitos revelam uma profunda crise humanitária. Os conflitos na Síria, Líbia, Ucrânia, Palestina, Iraque, na região central da África e tantos outros países, apesar de suas origens e motivações distintas, possuem em comum a triste realidade do crescente número de mortos e de uma grande onda de refugiados.

Na última sexta-feira, 29 de agosto de 2014, Antonio Guterres, Presidente do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), afirmou que “a crise síria tornou-se a maior emergência humana da nossa era e, apesar disso, o mundo não consegue atender às necessidades dos refugiados e países que os recebem[1]. Segundo dados da ONU, cerca de 3 milhões de pessoas deixaram o país, e mais da metade dos cidadãos sírios tiveram que deixar suas casas. Conforme apontou a Acnur, “nas cidades onde a população está cercada, as pessoas enfrentam a fome e os civis são alvo de atrocidades ou indiscriminadamente mortos[2]. Muitos refugiados da Síria tem procurado abrigo nos países vizinhos, como o Líbano, que acolheu 1,17 milhão de pessoas; a Jordânia!, que recebeu 613 mil; e a Turquia, com 832 mil. Desde 2011, quando se iniciou o confronto contra o Governo de Bashar al-Assad, mais de 190 mil pessoas morreram, sendo que, destas, aproximadamente 80 mil eram civis e 8,6 mil crianças[3].

A Crise na Ucrânia também tem promovido o deslocamento da população. Segundo as autoridades russas, aproximadamente 814 mil ucranianos entraram na Rússia desde o início do ano. Este número inclui pessoas que solicitaram refúgio/asilo temporário e outras opções de residência. De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas, em torno de 2.593 (quase 3 mil se somadas as 298 vítimas do voo MH17) pessoas morreram desde abril no conflito na Ucrânia. Para Ivan Simonovic, secretário-geral assistente para Direitos Humanos da ONU, “a tendência é clara e alarmante. Há um significante aumento no número de mortos no leste[4]. No entanto, as autoridades ucranianas afirmam que 2,2 milhões de pessoas permanecem atualmente em áreas de conflito.

O caos na Líbia também tem se acirrado nas últimas semanas. De acordo com Tarek Mitri, representante especial do secretário-geral da ONU para a Líbia, “têm sido sem precedentes em sua gravidade e muito alarmantes[5]. Conforme destacou Mitri, cerca de 100 mil pessoas se deslocaram internamente e outros 150 mil fugiram do país. A fragilidade da Líbia é agravada pelas disputas internas e externas, haja vista que recentemente o Egito e os Emirados Árabes Unidos conduziram ataques aéreos contra as milícias islâmicas em território líbio.

De acordo com dados da Acnur, desde meados de junho, a ofensiva militar feita pelo governo do Paquistão contra os militantes do Talibã no norte do país deslocou aproximadamente 400.000 pessoas, das quais cerca de 183.000 eram crianças. Conforme ressaltou Dan McNorton, porta-voz do Acnur, “O governo do Paquistão e os nossos parceiros humanitários esperam que meio milhão de pessoas se desloque devido às atuais operações militares[6]. Já o Iraque, que vive um momento de grande fragilidade interna e possível quadro de fragmentação, também tem o número de vítimas aumentando. Dentro do país, estima-se que 1,2 milhão de pessoas tenham sido deslocadas este ano, incluindo mais de 500 mil relacionadas aos conflitos na região de Anbar e outras 600 mil vítimas dos combates na região de Mosul e em Sinjar[7].

O conflito entre Israel e a Palestina também tem se mostrado extremamente violento. Desde que iniciou o conflito em 8 de julho, foram mortos mais de 69 israelenses e mais 2,1 mil palestinos[8]. Além das vítimas e refugiados, o conflito na Faixa de Gaza provoca um ambiente de alarme. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), até meados de julho mais de 400 mil pessoas perderam o acesso a água encanada devido a falta de energia ou aos danos causados pelos ataques aéreos[9]. De acordo com a entidade, mais de 3 mil crianças foram atendidas por psicólogos, mas cerca de 373 mil precisam de apoio psicossocial. Conforme ressaltou Pernilla Ironside, chefe do Fundo das Nações Unidas para a Infância em Gaza, “o impacto tem sido grande fisicamente, em termos de mortes, ferimentos e infraestrutura danificada, mas, igualmente importante, no plano psicológico e emocional de desestabilização, de não conhecer ou não sentir-se totalmente seguro em nenhum lugar em Gaza[10].

Recentemente, no dia 19 de agosto, a Acnur afirmou que a Etiópia é o país africano com maior número de refugiados, abrigando 629.718 refugiados até o final de julho. O Quênia abriga atualmente 575.334 refugiados e solicitantes de refúgio. A principal razão para o aumento do número de refugiados na Etiópia é o conflito no Sudão do Sul, que enviou cerca de 188 mil pessoas, mas também recebeu refugiados de outros países, como Somália (245 mil) e Eritreia (99 mil)[11]. No último dia 27 de agosto, o Governo do Sudão do Sul e o Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA) assinaram um Acordo que estabelece um plano de cessar-fogo de sete meses. No entanto, o caos provocado pelo conflito que iniciou em dezembro de 2013 deixou mais de 716.500 pessoas deslocadas no interior do país e outras 166.900 pessoas fugiram para os países vizinhos[12]. Ao mesmo tempo, o Sudão do Sul abriga em torno de 243 mil refugiados, sumariamente originários do Sudão

Esse proscênio de conflitos aprofunda as debilidades já existentes nesses países e dificulta o acesso dessas populações aos insumos básicos para sua sobrevivência, como alimentos e água. Ademais, além do crescente número de mortes, esses conflitos tem promovido uma verdadeira onda de refugiados, o que revela a fragilidade desses Estados e da própria mediação da comunidade internacional na resolução dos conflitos. Adicionalmente, como pôde ser observado nos casos anteriores, esses conflitos imputam uma série de desafios aos Estados, não apenas os que se encontram em guerra, mas também os países vizinhos que recebem o contingente de refugiados, que, muitas vezes, não possuem estrutura para tanto.

Tal quadro mostra ainda as debilidades das organizações internacionais de apoio humanitário que precisam articular uma logística que abarque grandes quantidades de recursos, alimentos, água, pessoal de apoio. De fato, a ONU, assim como suas agências associadas, promove ações de assistência a esses países. Contudo, mesmo chamando a atenção da comunidade internacional para o número crescente de vítimas, os conflitos operam com a lógica própria de seus interesses.

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Imagem (Fonte):

http://www.dw.de/apenas-mil-yazidis-continuam-refugiados-no-monte-sinjar-diz-onu/a-17853985

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/08/140829_siria_crise_humanitaria_hb.shtml

[2] Ver:

http://www.dw.de/n%C3%BAmero-de-refugiados-s%C3%ADrios-ultrapassa-3-milh%C3%B5es-segundo-onu/a-17888897

[3] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/siria/noticia/2014/08/eua-proibe-voos-de-companhias-aereas-americanas-sobre-siria.html

[4] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKBN0GT14B20140829

[5] Ver:

http://www.valor.com.br/internacional/3670404/libia-alerta-onu-de-que-pais-esta-beira-de-uma-guerra-civil#ixzz3CDwotjND

[6] Ver:

http://www.acnur.org/t3/portugues/noticias/noticia/conflitos-no-norte-do-paquistao-provocam-mais-de-400000-deslocamentos/

[7] Ver:

http://www.acnur.org/t3/portugues/noticias/noticia/ponte-aerea-do-acnur-descarrega-100-toneladas-de-assistencia-no-iraque/

[8] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/07/140730_gaza_atualiza_quarta_rw.shtml

[9] Ver:

http://www.onu.org.br/gaza-600-mil-pessoas-podem-ficar-sem-agua-numero-de-criancas-palestinas-mortas-sobe-para-36/

[10] Ver:

http://www.onu.org.br/conflito-em-gaza-ja-deixou-469-criancas-mortas-e-370-mil-com-necessidade-de-ajuda-psicossocial/

[11] Ver:

http://www.acnur.org/t3/portugues/noticias/noticia/etiopia-ultrapassa-quenia-e-se-torna-o-pais-com-maior-populacao-de-refugiados-na-africa/

[12] Ver:

http://www.onu.org.br/especial/sudao-do-sul/

      

Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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