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Conselho de Cooperação do Golfo suspende ajuda financeira ao Líbano e declara Hezbollah como grupo terrorista

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Com tensas relações entre Arábia Saudita e Líbano, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) designou formalmente, nesta quarta-feira, dia 2 de março, o Hezbollah como organização terrorista. O Conselho, formado por seis nações do Golfo Pérsico, e liderado pela Arábia Saudita, citou especificamente as operações do grupo na Síria, Iraque e Iêmen. O movimento pelo CCG ocorre menos de duas semanas depois de a Arábia Saudita ter anunciado o corte de US$ 4 bilhões em ajuda às forças de segurança libanesas. Adicionalmente, o Reino e outros países do Golfo aconselharam seus cidadãos a deixarem o Líbano, o que representou um golpe para a indústria do turismo no país.

Em declaração, o Secretário-Geral do Conselho de Cooperação do Golfo, Abdullatif al-Zayani, informou que o Bloco decidiu implementar a designação de terrorismo em virtude dos atos hostis cometidos pelo Hezbollah, dentro do território de seus Estados membros, e por “incitar insubordinação, desordem e violência, em flagrante violação da sua soberania, segurança e estabilidade”. O Conselho – que inclui Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar, Bahrein e Omã – declarou aindaque “as práticas das milícias do Hezbollah nos Estados do Conselho e seus atos terroristas e subversivos sendo realizados na Síria, no Iraque e no Iêmen contradizem valores e princípios morais e humanitários e o direito internacional, representando uma ameaça à segurança nacional árabe”.

No dia 19 de fevereiro, a Arábia Saudita declarou a suspensão do pagamento de US $ 4 bilhões em ajuda militar e outras formas de apoio ao Exército e serviços de segurança do Líbano. A decisão ocorreu em virtude da não condenação dos ataques contra as missões diplomáticas da Arábia Saudita no Irã. Os US$ 3 bilhões de auxílio concedidos eram direcionados à compra de armas francesas ao Exército libanês e o US$ 1 bilhão restantes seriam destinados à Força de Segurança interna do Líbano. Ainda que o Hezbollah seja considerado a força mais potente do país, o Exército libanês tem desempenhado um papel importante em manter a segurança na fronteira com a Síria e em impedir que a guerra respingue no território libanês.

Ao anunciar o corte de financiamento militar em fevereiro de 2016, um funcionário saudita declarou que o Reino havia notado “posições libanesas hostis, decorrentes do estrangulamento do Hezbollah sobre o Estado”. Ele citou, especificamente, a recusa do Líbano em se juntar a Liga Árabe e à Organização da Cooperação Islâmica (OCI) em condenar os ataques contra as missões diplomáticas da Arábia Saudita no Irã, em janeiro passado. O Líbano não endossou as declarações oficiais de condenação porque, segundo o chanceler Gibran Basil, as declarações também criticavam o Hezbollah.

Riad cortou relações diplomáticas com Teerã depois de manifestantes iranianos saquearem e queimarem a embaixada da Arábia Saudita e um consulado do país. A manifestação ocorreu após a execução de um clérigo reformista xiita na Arábia Saudita, Nimr Al-Nimr, sob acusações de terrorismo. A execução do Sheikh Nimr foi amplamente vista como manifestação da crescente rivalidade entre as potências regionais saudita e iraniana e condenada por líderes xiitas em diferentes países. Sheikh Nimr al-Nimr era um crítico da monarquia saudita – sobretudo em relação ao tratamento de sua minoria xiita – e foi adotado como líder simbólico por manifestantes xiitas em vários países do Golfo Pérsico durante os levantes da Primavera Árabe.

Na semana passada, a Arábia Saudita instou seus cidadãos a deixarem o Líbano e evitarem viajar para o país, por razões de segurança. Qatar e Kuwait seguiram com alertas de viagem semelhantes. Os Emirados Árabes Unidos proibiram seus cidadãos de viajarem para o Líbano e reduziram sua representação diplomática no país. Na semana passada, a Arábia Saudita alargou as sanções contra o Hezbollah, congelando bens e proibindo negócios com três cidadãos libaneses e quatro empresas locais.

A designação do CCG contra o Hezbollah alinha-se com a posição norte-americana, país intimamente ligado aos Estados do Golfo e que há muito considera o Hezbollah uma organização terrorista. A União Europeia somente lista o braço militar do Hezbollah em sua lista de organizações terroristas – não seus braços políticos e socioeconômicos. Estas condenações  de terrorismo são vigentes, a despeito do grupo não ter cometido nenhum ataque terrorista desde a década de 1980.

Sendo assim, pode-se considerar o movimento saudita como mais um passo no embate ideológico e por procuração entre a Arábia Saudita e o Irã, que estão em lados opostos na guerra no Iêmen e na Síria, e que competem por influência em outros lugares em todo o Oriente Médio, sobretudo através das elites políticas libanesas. A influência Saudita tem declinado no Líbano desde o início de 2011, quando o primeiro-ministro pró-saudita Saad Hariri perdeu sua proeminência em favor do Hezbollah e de seus aliados. Nos últimos dois anos, a Coalizão 14 de Março, apoiada pela Arábia Saudita, não tem sido capaz de ver um de seus líderes eleito Presidente.

O CCG já havia sancionado o Hezbollah em 2013, tendo como alvo autorizações de residência e atividades financeiras e de negócios em represália a sua intervenção armada na Síria. O Secretário Geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, pediu em discurso televisionado nesta terça-feira, 1o de março, que a Arábia Saudita não punisse coletivamente os cidadãos do Líbano, apenas porque Riad discorda das políticas de seu grupo. Nasrallah declarou que a Arábia Saudita não tem “o direito de sancionar os libaneses porque um determinado partido tomou uma posição”. Questionou ainda: “Por que punir o povo libanês e o Exército, e qual escala moral ou legítima permite que os sauditas tratem os libaneses desta forma ofensiva?”.

O Secretário acusa o Conselho do Golfo – e sobretudo a Arábia Saudita – de fomentarem ideologicamente e financiarem justamente os grupos extremistas como Jabhat al Nusra e Estado Islâmico, que o Hezbollah alega combater na Síria, ao lado de Bashar al Assad. O ex-presidente Libanês, Emile Lahoud, também questionou o empenho saudita no combate ao Estado Islâmico. Em discurso na segunda-feira, 29 de fevereiro, Lahoud indagou: “se as reivindicações sauditas sobre o combate ao ISIS são verdadeiras, então quais as razões para suspensão do auxílio ao exército que está lutando contra grupos terroristas?”. Nasrallah também acusou a Arábia Saudita de tentar instigar conflitos sectários entre sunitas e xiitas em todo o mundo e disse que a execução de al-Nimr, em janeiro, ocorreu neste contexto. Sayyed Nasrallah concluiu, dirigindo-se aos sauditas: “seu problema é conosco, não com o país ou com os libaneses”.

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ImagemCombatentes do Hezbollah participam de comício na aldeia libanesa de Wadi alHujair ao sul do país, em foto de arquivo de 14 de agosto de 2015. O grupo xiita foi declarado uma organização terrorista pelos seis países árabes do Golfo, aumentando a pressão sobre o grupo militante libanês que luta ao lado do presidente Bashar alAssad, na Síria” (Fonte AP Photo / Mohammed Zaatari, Arquivo):

http://www.arabnews.com/featured/news/889141

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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