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Consumo de carnes de animais domésticos podem estar colocando sob xeque as tradições sino-coreanas

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O mês de junho foi o grande alvo de ativistas protetores dos animais e autoridades defensoras dos direitos humanos, dentre outras, contra as tradições gastronômicas na China. O Festival de Carne de Cachorro, somado ao percentual de chineses mais ocidentalizados põe em questão até onde as tradições do país deverão ser preservadas.

O mais recente Festival ocorreu no dia 21 de junho na cidade de Yulin, no Sul da China, e, segundo informações do jornal chinês Global Times, cerca de 10 mil cães foram abatidos para a cerimônia do solstício de verão. Antes do evento, muitos ativistas chineses e estrangeiros iniciaram diversas campanhas para proibirem o ato, as redes sociais e abaixo assinados na região foram realizados, computando que 51% dos chineses são a favor da proibição do “Festival de Carne de Cão”.

A tentativa dos cidadãos contrários ao Evento foi bem desenvolvida graças ao sucesso que outros manifestantes obtiveram em 2011, antes da ocorrência de Acontecimento similar que se daria na cidade de Jinhua, na província de Zhejiang. Naquele ano, a sociedade civil conseguiu mobilizar as autoridades chinesas e impediu o abate dos animais, diferente da última festividade de Yulin, onde não foi possível cancelar a tradição local que persiste por mais de 2 séculos.

Aos olhos do mundo, esse tipo de atividade é tido como brutalidade e abuso contra animais indefesos. Para os chineses, esta percepção deve ser observada com critério. Para eles, tudo no país vai ser analisado de acordo com a região, a natureza dos animais envolvidos, a forma como será tratada ou usada tal festividade.

Dois séculos atrás, a China, ainda dividida por diferentes governantes, sofria com a fome. Muitos chineses das regiões centrais ou montanhosas não tinham opções de alimento como seus conterrâneos das regiões de agricultura abundante e litorânea. Daí os chineses terem de se adaptar a sua realidade e os habitantes daquela época terem se comprometido apenas em garantir sua sobrevivência, buscando alimentos, água e outros itens mínimos para garantir suas necessidades básicas.

Em diversas regiões do que hoje compreende a China e a Península Coreana, quaisquer seres vivos que pudessem ser consumidos tornaram-se parte do cardápio. Insetos, répteis, aves e os atuais “pets” (cães e gatos) foram convertidos em fontes de alimento em uma época onde tais espécies não eram apenas utilizadas para o carinho das pessoas, das famílias, em alguns casos para embelezar residências e, em outros, para contribuir na segurança das casas. Para alguns biólogos evolucionistas, dentre eles alguns darwinistas, os povos asiáticos que hoje consomem espécies incomuns para os ocidentais, estariam dentro de sua teoria de adaptação, porém, a gastronomia de adaptação se transformou em tradição e a tradição não foi readaptada para o mundo moderno.

Na Coreia do Sul, o comércio de cachorros para o consumo doméstico é muito comum, porém é uma iguaria cara. Para os coreanos esse tipo de carne é chamada de Kaegog e tem até um tipo de cachorro especial para o consumo, sem raça específica, mas chamada de Ddongke, que está presente em cidades interioranas e nos grandes polos comerciais. Para os sul-coreanos “é delicioso e não se pode comparar com o porco ou o boi”, tal qual afirmou Park Bit-garam, em uma reportagem para Agência EFE, em maio deste ano, 2014.

Em solo coreano, a Associação Coreana de Nutrição considera a carne de cachorro como rica em proteínas e uma das mais importantes fontes de energia e de ácidos que ajudam a combater o colesterol e doenças coronárias, recomendando-a para a sua população. Cientificamente argumentado, a carne de cachorro passa a ser um importante composto da gastronomia coreana e, similarmente, de seus vizinhos chineses, porém, na Coreia, a questão sanitária é muito importante e as condições como são mantidas as espécies de abate são a grande arma de ativistas contrários ao seu consumo.

Muitas questões são postas em aberto quando se discute o porque consumir ou não consumir tipos de carnes. Ativistas também são postos em cheque quando questionados sobre o consumo da carne bovina, de aves e outras, como apresentou uma reportagem especial da rede CNN na semana do festival em Yulin.

Quando o tema é tratado na mídia internacional, o principal foco é na forma como são tratados, abatidos e como são criadas as espécies que servirão de consumo. Muitos são animais abandonados, outros criados em locais específicos, próximo de fiscais sanitários, e sua repercussão faz uma vinculação para o mundo da questão gastronômica com a imagem do país.

Na China, diversos festivais similares foram cancelados nos últimos anos devido ao apelo popular e outros festivais, em grandes cidades, o foram devido à falta de necessidade e também graças ao número elevado de turistas estrangeiros. Em Seul, esse tipo de prato não é para qualquer pessoa, devido ao custo elevado da carne de cachorro, quando comparada a bovina, aos peixes etc., mas, no país, não há nenhum tipo de proibição contra eventos e consumo deste tipo de carne animal.

Levantam-se questões sobre as alternativas para estes países trabalharem suas tradições e se adaptarem ao atual cenário gastronômico e a opinião pública internacional. Uma questão que fere principalmente Beijing por sua importância econômica atual, que poderá ter que criar meios de regulamentar certos tipos de criação de algumas espécies para consumo e mantê-los dentro das normas sanitárias do país, além de se evitar que haja abusos e atos brutais que possam atingir a opinião interna dos novos chineses, população que está a cada dia mais longe das antigas tradições de seu país.

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Imagem (Fonte):

http://portaldodog.com.br/cachorros/wp-content/uploads/2012/08/cachorro_cheira_diabetes.jpg

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Fontes consultadas:

Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/790219.shtml

Ver:

www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=3288743&seccao=%C1sia

Ver:

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/dez-mil-cachorros-sao-abatidos-em-festival-culinario-na-china

Ver:

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/carne-de-cachorro-tradicao-e-polemica-na-coreia-do-sul

Ver Vídeo (CNNStream):

https://www.youtube.com/watch?v=

Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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