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Mesmo após a criação do governo de transição na Líbia, estabelecido em seguida à morte do líder do Muammar Kadhaffi, em outubro de 2011, o país não conseguiu escapar das constantes ondas de violência, bem como reorganizar o Estado e a sociedade do país.

Os analistas confluem em sua quase totalidade para a avaliação de que a situação da Líbia dificilmente chegará rapidamente a ter estabilidade, em especial devido a configuração tribal de sua sociedade, bem como ao modelo de política imposto por Kadhaffi que se sobrepôs às instituições políticas e sociais como uma entidade suprema e moderadora, mas com poderes executivos, preservando, em contrapartida, o poder das lideranças tribais que dividiam um país sem unidade nacional. Essas lideranças deveriam estar associadas a ele, garantindo que sua influência e decisões alcançassem as mais distantes regiões do país.

Tal realidade levou a que, uma vez deposto o mandatário, o país se visse diante de uma retribalização do território, especialmente pelo fato de que a criação, ou desenvolvimento e o aparelhamento das milícias foi estimulada pelas potências que intervieram na “Guerra Civil Líbia” como forma de criar e manter forças capazes de enfrentar Kadhaffi e, após a queda do mandatário, esses tiveram acesso ao amplo arsenal governamental garantindo armamentos e munição para se manterem como grupos armados defendendo suas reivindicações e perspectivas tribais em regiões específicas.

Apesar do novo governo ter sido estabelecido, os grupos armados, as milícias  e os paramilitares passaram a percorrer as variadas regiões e a se manterem em bases fixas na tentativa de preservar o poder das tribos, bem como de suas lideranças, uma vez que estas se viram diante da insegurança de um governo incapaz de preservar o equilíbrio entre os mais variados grupos, bem como incapaz de desarmá-los, ou impor a ordem sobre todo o país.

Ademais, ao ser estabelecido o atual governo, não se conseguiu criar instituições políticas e de segurança capazes não apenas de impor a ordem, mas, principalmente, de serem reconhecidas como legítimas pela totalidade da população.

Renato Costa, por exemplo, um pesquisador doutorado em história social pela “Universidade de São Paulo” (USP), apresenta leitura convergente com a desses vários analistas. Em entrevista concedida ao mundo digital, afirmou: “Primeiramente, foi importante para as potências europeias e os EUA transformarem essas milícias em grupos que tivessem condições para enfrentar as Forças Armadas líbias, fiéis a Khadifi (sic); num segundo momento, já com sua deposição, o desinteresse dessas potências em construir um arranjo institucional que buscasse a coesão fez com que as diferenças internas se exacerbassem. (…). Porém, essa atuação contra as milícias não é algo simples, porque não há um governo legitimado pela população que possa utilizar da força (com auxílio externo) para impor a paz; ainda, as próprias potências europeias têm dúvida acerca da efetividade desse tipo de apoio. (…). E, devido a essa estrutura [tribal, da sociedade líbia] que se pode dizer que a legitimidade das milícias aumenta conforme não há o reconhecimento da liderança central. A saída seria a tentativa de criação de um governo de coesão, mas essa fórmula demandaria distribuição de poder e ainda não foi encontrada a maneira ideal de fazê-lo[1].

Dentro dessa perspectiva, a violência tem se mantido constante, com momentos de picos exacerbados como o ocorrido recentemente, na segunda-feira passada, dia 25 de novembro,  em Benghazi, quando houve enfrentamento entre as “Forças Especiais” do Exército líbio e membros  do grupo “Ansar al-Charia”, que resultaram em 9 mortos e quase 50 feridos[2], ao ponto de ter levado a manifestações em Trípoli[2], capital do país, contra a presenças das milícias e a solicitação de um ato de desobediência civil pelas autoridades de Benghazi, como forma de denunciar a violência no país e para o mundo[3].

Ontem, dia 27, houve mais confrontos e mais mortes em Benghazi[4]. Além desse confronto, homens armados incendiaram o “Palácio da Justiça” em Sirte, no centro do país[5], com o objetivo de sabotar o trabalho da Justiça. A conclusão a que as autoridades chegam é de que o principal trabalho a ser feito diz respeito ao desarmamento das milícias e a recuperação dos armamentos[6] para que seja possível o estabelecimento de um Estado líbio detentor do monopólio legítimo do uso da violência para preservar a Lei, a Ordem e estabelecer a condição real de sociedade, uma vez que, neste momento, praticamente se vive uma situação que lembra o estado de natureza de guerra de todos contra todos

Como aponta o ex-presidente do “Conselho Nacional de Transição” líbio, Mustafa Abdel Jalil, “Os ex-rebeldes, que desempenharam um papel de primeiro plano na destituição do regime do ex-ditador [Muammar Kadhafi], não querem entregar as armas nem integrar as instituições oficiais do Estado. Eles realizaram, ao conservar as suas armas, a sua aspiração perpetrando operações de rapto e outros atos criminosos[6].

Diante do quadro, EUA e “Grã-Bretanha” declararam que desejam auxiliar o país para retomar a estabilidade. Não foi explicado o que seria feito, mas as reuniões estão sendo feitas. Conforme noticiado, no domingo, dia 24 de novembro, realizou-se em Londres um encontro entre o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, o homólogo britânico, William Hague, e o primeiro-ministro líbio, Ali Zeidan.

Kerry declarou, acompanhado pelos duas autoridades: “Nós discutimos com o primeiro-ministro líbio sobre as coisas que podemos realizar juntos, britânicos e norte-americanos,  bem como com outros amigos a fim de ajudar a Líbia a restabelecer a sua estabilidade[7]. Hague, por sua vez, garantiu o interesse de seu país em auxiliar a Líbia. Até o momento não houve avanços, mas se espera que a situação caminhe, pois uma desestabilização no “Oriente Médio” devido aos problemas recentes poderá levar a que a situação na Líbia fique mais violenta e desequilibrada e isso representaria uma nova onda de instabilidade a perpassar o mundo árabe e muçulmano afetando todo o sistema internacional e, no caso da Líbia, a Europa seria afetada imediatamente, em especial a Itália que está diante dos territórios do norte da África, à margem do Mediterrâneo.            

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.mundodigital.unesp.br/webjornalnovo/26/11/2013/protesto-na-libia-deixa-mais-de-40-mortos-e-centenas-de-feridos/

[2] Ver:

http://www.panapress.com/Populares-da-capital-libia-manifestam-se-contra-confrontos-violentos-Benghazi--3-887674-51-lang4-index.html

[3] Ver:

http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2013/11/prefeitura-da-cidade-libia-de-benghazi-convoca-desobediencia-civil.html

[4] Ver:

http://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2013/11/27/interna_internacional,474122/novos-combates-na-libia-deixam-5-soldados-mortos.shtml

[5] Ver:

http://www.verdade.co.mz/africa/42021-homens-armados-incendeiam-palacio-da-justica-de-sirtes-na-libia

[6] Ver:

http://www.abola.pt/mundos/ver.aspx?id=443614

Ver também:

http://www.panapress.com/Ex-presidente-do-Conselho-de-Transicao-libia-condiciona-estabilidade-a-recuperacao-de-armas–3-887791-0-lang4-index.html

[7] Ver:

http://www.panapress.com/Estados-Unidos-e-Gra-Bretanha-dispostos-a-ajudar-Libia-a-restabelecer-estabilidade–3-887571-47-lang4-index.html

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Ver também:

http://www.fides.org/pt/news/36515-AFRICA_LIBIA_Mesmo_na_incerteza_de_hoje_tenho_confianca_que_possa_eclodir_a_paz_diz_Dom_Martinelli#.UpZ8jpHtXdE

Ver também:

http://ansabrasil.com.br/brasil/noticias/mundo/noticias/2013/11/25/Confrontos-em-Benghazi-deixam-ao-menos-7-mortos_7415161.html

Ver também:

http://www.jcnet.com.br/Internacional/2013/11/confrontos-entre-milicias-islamitas-e-exercito-matam-9-na-libia.html

Ver também:

http://pt.euronews.com/2013/11/25/libia-forcas-armadas-em-alerta-maximo-em-bengasi/

Ver também:

http://www.diariodosudoeste.com.br/noticias/mundo/1,43204,25,11,confrontos-entre-milicias-islamitas-e-exercito-matam-9.shtml

Ver também:

http://expresso.sapo.pt/confrontos-na-libia-fazem-nove-mortos-e-29-feridos=f842809

 

Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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