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COOPERAÇÃO NO HAITI: PERDAS HUMANAS, TREMORES DE TERRA E TERREMOTOS POLÍTICOS

CEIRI 9 de fevereiro de 2010
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A atenção recente que a mídia e, consequentemente, a opinião pública e a comunidade internacional têm dedicado ao Haiti está relacionado ao abalo sísmico ocorrido neste início de 2010.

O triste paradoxo é que a situação no país já antes mesmo era calamitosa, com milhares de pessoas morrendo por causas absolutamente evitáveis, cuja dramática situação só se degradou substancialmente com o recente episódio, em condições que já exigiam atenção contínua e sustentada.

 

Como já é sabido, o Haiti é o país mais pobre das Américas, ocupando a posição 149º no IDH (0,532). Com aproximadamente 9 milhões e meio de habitantes, mais da metade é de analfabetos, com expectativa de vida abaixo dos 60 anos e a mortalidade infantil até os 5 anos beirando as 80 mortes por mil.

Desemprego crônico, desastres naturais exacerbando pobreza e marginalização já eram a realidade haitiana antes do recente terremoto. Desde a sua independência, ocorrida em 1804, até a crise política de 2004, que culminou com a queda do então Presidente Jean-Bertrand Aristide, o Haiti teve 41 governantes, sendo que destes, 28 foram destituídos ou levados a renunciar por golpes ou pressão da oposição. Um suicidou-se e quatro foram assassinados, além daqueles que faleceram por morte natural no curso de seus governos – até por que alguns eram vitalícios (…). Apenas um governante chegou ao final do seu mandato nos ditames constitucionais estabelecidos (VALLER FILHO, Wladimir. O Brasil e a crise haitiana. Brasília: FUNAG, 2007, p. 16).

O fato é que a impossibilidade de mensuração dos prejuízos provocados pelos terremotos políticos,  fazem com que estes sejam menosprezados. Além disso, os dados fornecidos pela mídia são ineficazes para avaliar a condição de precariedade do país. O recente terremoto que matou diretamente, até as últimas contagens, quase duzentas mil pessoas e feriu outras centenas de milhares, também degradou a sobrevivência de milhões de haitianos.

Em termos da perspectivas da cooperação internacional e dos Direitos Humanos, fica a questão de como contabilizar o destroçamento do projeto de vida de milhões de haitianos, cujo contexto impedia maiores ambições. São problemas e cálculos que não são expressados e pensados na contabilidade das perdas materiais divulgadas pela mídia internacional. Como contabilizar as mortes provocadas indiretamente pela falta de infra-estrutura que impede socorro médico, condições sanitárias, distribuição e tratamento de água, e demais elementos primários?

O recente terremoto no Haiti é mais um fator de desestruturação do país, que já sofre “terremotos políticos”, há algumas centenas de anos, com efeitos tão, ou mais, catastróficos do que o tremor de terra que abalou a opinião pública internacional neste início de 2010, como tem sido constantemente demonstrado nas notas analíticas de Jean Gary, postadas no Site do CEIRI.

A condição do país exige e toma como essencial o papel da cooperação internacional neste início de milênio. Uma cooperação internacional em que os Estados são atores fundamentais, mas as organizações internacionais, que carreiam o interesse comum além dos Estados, e a sociedade civil organizada, por meio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, das ONGs (que precisam mudar seu modelo de ação – algo também constantemente ressaltado) e das diversas pessoas, individuais ou coletivas, que se solidarizam com a causa mundo afora.

Além do mais, reforça o importante e imprescindível espaço das Forças Armadas na sociedade mundial. Agora não mais apenas voltadas à guerra, mas, sim, à participação das Missões de Paz, onde atuam, sob outras perspectivas e não sob o manto de nacionalismos extremados. Atuam com boinas que representam a busca por condições para a segurança humana no planeta. Um papel relevante na nova realidade internacional.

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